16 de janeiro de 2026

QUERIA TER FICADO MAIS – MESMO QUANDO NÃO SE SABE ONDE

Existe um tipo de livro que não se contenta em apenas “contar algo”: ele quer simular uma experiência. “Queria ter ficado mais” pertence a essa categoria. Não é uma coletânea que se lê apenas por enredo, nem uma antologia que se sustenta pelo virtuosismo de uma unidade narrativa tradicional. Ele funciona como um álbum de deslocamentos — e mais do que isso: como um álbum de sensações de deslocamento, daquelas que permanecem no corpo muito depois de a viagem acabar.

A proposta é simples e, justamente por isso, potente: são doze histórias, escritas por mulheres, ambientadas em cidades diferentes do mundo, oferecendo ao leitor a impressão de que cada texto é uma espécie de carta enviada “de lá”. A própria editora descreve o livro como um conjunto de textos “autorais e sensíveis”, em que cada autora apresenta um lugar por meio de suas vivências.

O título não poderia ser mais certeiro. “Queria ter ficado mais” é uma frase cotidiana, íntima, quase pequena e, no entanto, carrega uma ambiguidade enorme: pode ser sobre uma cidade, sobre uma pessoa, sobre um dia específico, sobre uma vida inteira. A frase já nasce com gosto de despedida, e isso é uma das chaves mais interessantes do livro: ele não é sobre a viagem como conquista, mas sobre a viagem como perda imediata. Porque viajar, no fundo, é sempre sair. E toda saída cobra um preço.

A primeira camada de leitura de “Queria ter ficado mais” é esse “pacto” com o leitor: você não está diante de contos soltos; você está diante de mensagens. Não no sentido de “uma moral” ou de “um recado”, mas no sentido literal de comunicação afetiva. E isso muda a postura de quem lê.

Uma carta não exige o mesmo tipo de atenção que um romance. Ela não pede que você memorize personagens, nem que você junte pistas para um clímax. Ela pede que você aceite acompanhar a voz de alguém por alguns minutos e, quando aquilo termina, você não sente que concluiu uma história — você sente que recebeu um fragmento de alguém.

E é aí que o livro constrói um tipo de intimidade particular: cada texto é íntimo, mas a intimidade não depende de você conhecer a pessoa que escreve. Essa é a magia do formato epistolar (ou do que ele imita). A carta tem um “eu” muito forte e, ao mesmo tempo, deixa espaço para que o leitor ocupe o lugar do “você”, mesmo que esse “você” seja abstrato. O livro se apoia nessa estratégia: transformar o leitor em destinatário, não por manipulação emocional, mas por estrutura.

Por isso, mesmo que as cidades mudem — de Buenos Aires a Tóquio, como a própria editora resume — o que sustenta o livro não é a geografia: é o gesto de dizer.

Outro ponto essencial: essas cartas não funcionam como guias turísticos e nem tentam “representar” cidades de modo definitivo. O livro não quer resolver Barcelona, Londres ou Istambul. Ele quer registrar o que acontece quando uma cidade conquista uma pessoa por motivos únicos.

Ou seja: as cidades aparecem como gatilhos de memória, como superfícies de contato, como ruídos, cheiros, cansaços e descobertas. Às vezes, a cidade é uma promessa; às vezes, é um choque; às vezes, é o cenário de uma euforia; às vezes, é só o pano de fundo para um tipo muito específico de solidão. Em muitos casos, você sente que o lugar visitado é menos “destino” e mais “espelho” ou “sonho” ou “esperança”.

E aqui surge uma qualidade que faz a obra crescer: ela entende que viajar não é necessariamente viver uma sequência de momentos felizes. Viajar pode ser maravilhoso, sim — mas também pode ser um lugar de vulnerabilidade. Você está longe do seu idioma, do seu ritmo, do seu colchão, da sua rotina. E a obra parece interessada justamente nesse ponto em que a experiência do mundo começa a refletir a experiência do corpo: fome, frio, ansiedade, excitação, tédio, medo, desejo.

O que une as narrativas, então, não é o assunto “viagem”, mas o tema subterrâneo que a viagem escancara: a impermanência.

O livro todo gira em torno de algo que a gente só entende completamente quando volta para casa: a consciência de que tudo é temporário. Em viagem, isso aparece de forma bruta porque cada lugar é provisório: a cama do hostel, a esquina onde você se perde, o café que você nunca mais vai ver.

Mas o livro vai além da viagem geográfica: ele parece dizer que há algo em nós que sempre está de passagem. A pessoa que você é numa cidade estrangeira é uma versão sua que talvez não exista em nenhum outro lugar. E o que dá o tom agridoce do livro é isso: você percebe que viveu algo real, mas já perdeu no mesmo instante em que viveu.

Queria ter ficado mais” não é só “queria conhecer mais pontos turísticos”. É: queria ter ficado mais naquele estado de ser alguém diferente. Queria ter ficado mais perto do que eu descobri em mim. Queria ter ficado mais no dia em que eu me senti viva. Queria ter ficado mais antes de virar memória.

Essa é uma obra profundamente interessada na memória — mas não naquela memória épica, grandiosa. A memória aqui é frágil, pessoal, falha. Ela é feita de sensações que resistem: a luz do fim de tarde, uma rua específica, um idioma ouvido ao fundo, um cheiro de comida, o gesto pequeno de alguém que passou.

Como antologia, “Queria ter ficado mais” assume um risco: quando se junta muita gente escrevendo, há sempre o perigo de o livro virar uma soma irregular de estilos. Só que, nesse caso, a irregularidade vira parte do encanto. Porque uma experiência de viagem também é irregular. Cada pessoa viaja de um jeito. Cada pessoa repara em um tipo de detalhe. Cada pessoa registra o mundo com uma lente própria.

A lista de autoras é diversa e inclui nomes como Barbara Heckler, Bruna Tiussu, Cecília Araújo, Cecilia Arbolave, Clara Averbuck, Clara Vanali, Florencia Escudero, Isis Gabriel, Ligia Braslauskas, Livia Aguiar, Luciana Breda e Olivia Fraga. E esse conjunto cria um mosaico que, curiosamente, não parece exigir uniformidade: ele convida o leitor a apreciar a diferença.

Em termos literários, isso cria um efeito de alternância saudável. Quando um texto é mais contemplativo, o seguinte pode vir mais intenso. Quando um mergulha no íntimo, o outro pode abrir mais para o espaço externo. Quando um se apoia na reflexão, o outro pode se sustentar por cena. E isso impede o livro de ficar monótono.

No fim, o leitor tem a sensação de que viajou não só por cidades, mas por vozes. E talvez seja essa a viagem mais rica: entrar e sair de perspectivas.

É impossível falar dessa obra sem falar de como ela existe fisicamente. A própria Lote 42 explica que o projeto gráfico explora o universo das viagens fazendo com que cada capítulo seja impresso em folhas soltas e dobradas dentro de envelopes, como cartas enviadas dos lugares visitados.E ainda há as ilustrações em aquarela de Eva Uviedo, inspiradas nos textos.

Isso não é um “capricho”. Isso é parte da leitura.

Porque o gesto de abrir um envelope, puxar o papel, desdobrar, segurar a folha… tudo isso cria uma intimidade diferente. O texto chega como um objeto pessoal. Você não apenas vira páginas: você recebe correspondência. O livro reforça, no corpo, aquilo que ele faz em linguagem: a sensação de mensagem privada.

E tem outro detalhe importante: ler cartas em envelopes te obriga a aceitar a separação. Você lê uma, guarda, pega outra. É um ritmo de leitura menos contínuo e mais episódico, que combina com a própria ideia de viagens fragmentadas. De certa forma, o livro diz: “não corra”. Você não atravessa países correndo; você se desloca, para, espera, embarca. O livro vira uma viagem também no modo como se manuseia.

Outra consequência desse formato é que o leitor vira um tipo de colecionador. Você não termina o livro com uma “história completa” na cabeça. Você termina com um punhado de resíduos emocionais: pequenos lugares dentro de você que agora têm nome de cidade, têm cor, têm “cheiro”.

E isso é muito honesto, porque é assim que as viagens ficam na gente. Ninguém guarda uma viagem como uma linha reta. A gente guarda como flashes: um momento de rir sem motivo, uma conversa curta, uma janela, um metrô, uma música tocando em algum lugar.

Queria ter ficado mais” é importante porque ele propõe uma relação com a leitura que é, ao mesmo tempo, literária e afetiva. Ele lembra ao leitor que uma narrativa não precisa ser grandiosa para ser marcante. E que o mundo, quando atravessa a gente, vira história.

Além disso, ele coloca em destaque um conjunto de vozes femininas viajando, narrando, registrando o mundo com autonomia e autoria — e isso tem um peso cultural bonito. Não é “a viagem como façanha”, mas como experiência interior.

O livro é, no fim, um conjunto de despedidas pequenas que somam uma despedida grande: a despedida do instante.

E é por isso que, quando você fecha o último envelope, o título volta como eco, não só como impressão de leitura, mas como sentimento real: a gente sempre quer ficar mais… mesmo quando não sabe exatamente onde.

Abaixo, pontuo o assunto de cada carta:

Barcelona — Barbara Heckler
Em uma viagem solitária a Barcelona, a autora conhece um rapaz meio por acaso. O texto termina com o trecho de uma carta enviada por ele, deixando a impressão de que ele se envolveu emocionalmente muito mais do que ela com os dias que compartilharam.

Valência — Bruna Tiussu
O relato da experiência de acompanhar uma Copa do Mundo de futebol em um país diferente — e de como isso muda até a forma de viver a cidade.

Israel e Cisjordânia — Cecília Araújo
A primeira viagem da autora como jornalista para dois países do Oriente Médio, com o peso do ineditismo e do olhar de quem está ali trabalhando, mas também absorvendo tudo pela primeira vez.

Buenos Aires — Cecilia Arbolave
Para mim, a mais emocionante e introspectiva. A história gira em torno dos encontros com um guia em um museu de Buenos Aires — alguém que, em outra vida e com outras escolhas, poderia ter mudado a vida dos dois.

Londres — Clara Averbuck
A segunda melhor, na minha opinião. A autora narra suas aventuras em Londres com um tom intenso e direto, e a primeira frase já entrega o que vem pela frente: “Quando eu era linda e drogada…”.

Roma — Clara Vanali
Uma viagem com a família que, aos poucos, vira um texto sobre tempo e sobre a compreensão do que é envelhecer — principalmente quando esse envelhecer é percebido nos pais.

Yangshuo — Florencia Escudero
Um relato marcado pelo choque cultural: a autora percebe, na prática, o que é estar inserida em uma cultura totalmente diferente daquela à qual estava habituada.

Paris — Isis Gabriel
A experiência de visitar Paris, com foco na sensação de estar ali — vivendo a cidade além do imaginário que ela carrega.

Berlim — Ligia Braslauskas
Um texto sobre sobrevivência: tocar violão no metrô de Berlim como forma de se manter, e, a partir disso, entender melhor o próprio lugar no mundo.

Istambul — Lívia Aguiar
O relato da experiência de conhecer Istambul e observar a cidade por dentro, no ritmo de quem está vivendo o lugar em vez de apenas “passar por ele”. 

Tóquio — Luciana Breda
Mais um registro de como é conhecer uma cidade completamente diferente, agora com Tóquio como cenário e ponto de contraste cultural.

Nova York — Olívia Fraga
No último relato, a autora passeia por Nova York, num texto que fecha a coletânea com a sensação de despedida e de cidade vivida em movimento.


AVALIAÇÃO:


AUTORAS: Clara Averbuck, Clara Vanali, Florencia Escudero, Isis Gabriel, Ligia Braslauskas, Lívia Aguiar, Luciana Breda, Olívia Fraga, Barbara Heckler, Bruna Tiussu, Cecilia Araújo, Cecilia Arbolave
ARTE: Eva Uviedo, Luciana Martins
EDITORA: Lote 42
PUBLICAÇÃO: 2014
PÁGINAS: 108
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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