8 de janeiro de 2026

ALCHEMISED – CONFUSO, CRUEL E AINDA ASSIM NÃO CONSEGUI ABANDONAR

Alchemised é um dark romance e fantasia de guerra. Conta a história da Helena Marino, que acorda cega, em um tanque, com todos os aliados mortos, sem noção nenhuma do que está acontecendo. Ela vira um instrumento de guerra que acaba nas mãos de Kaine Ferron, o maioral do exército inimigo, que precisa descobrir onde estão as memórias dela, que ela mesma não faz ideia de quais são, nem de como ficou viva.

Esse aqui definitivamente é meu guilty pleasure total. Sinceramente, eu tenho tanta coisa a dizer desse livro que mal sei por onde começar. Até criar uma sinopse sem dar spoiler, pra mim, é complicado.

Se você acompanha minimamente o mundo literário, vai saber que esse livro era uma fanfic de Harry Potter, que foi uma das primeiras coisas que me influenciou a ler, e confesso que fui cheia de preconceitos. É importante frisar que eu não li a fanfic, e acredito que isso mudou completamente minha experiência e deixou a história mil vezes melhor. No começo, até tentei fazer uma correlação entre os universos, mas se durou 20 páginas foi muito, porque o início do livro, sinceramente, é a pior coisa dele.

O começo é confuso e mal explicado, parece que autore se perdeu na própria criação. Se a Helena não entende o que está acontecendo, quem dirá a gente. Os poderes e o universo não são apresentados direito: termos totalmente novos são jogados no leitor, que segue mais perdido do que a própria protagonista. É muita informação enfiada goela abaixo, e a leitura avança mesmo sem compreensão real do que está em jogo.

Fica claro que autore tentou transmitir ao leitor a sensação de estar perdido e sem memórias, mas a execução falha um pouco. A diferença é que a Helena não lembra apenas do que aconteceu com ela, enquanto o leitor não sabe absolutamente nada sobre aquele mundo. Essa primeira parte carrega muito a sensação de fanfic, como se você já tivesse que conhecer o funcionamento daquele universo antes mesmo de começar, o que não faz sentido em uma obra que se propõe a reescrever tudo do zero.

Mas aqui entra minha primeira defesa. Eu fui com cinco pedras na mão e julguei muito a falta de apresentação do universo, especialmente em um livro com mais de 900 páginas. Depois de terminar, percebi que, se tudo fosse explicado logo no início, eu jamais teria sido enganada pelos mistérios da narrativa. Se o funcionamento dos poderes fosse claro desde as primeiras pistas, os mini plots, que são a parte mais interessante de Alchemised, perderiam completamente o impacto.

A Helena parece uma tonhona que só sofre, mas ela é muito inteligente. Ela só precisa de uma sombra de pista para desvendar as coisas, derrubar mentiras e entender o que ninguém quer que ela saiba. Você fica pensando que todos têm muita sorte dela não lembrar de nada, porque ela é implacável quando está determinada. O leitor acaba sendo exatamente como a Helena, perdido apenas porque falta informação.

A partir daqui, eu preciso dar spoilers para que minhas defesas façam sentido. Se você não leu e não gosta de spoiler, é melhor parar por aqui.

O livro é dividido em três partes. A primeira mostra a Helena completamente perdida na realidade. Ela é trancada na mansão do Kaine, traumatizada, ansiosa e tendo alucinações. A mulher do Kaine é um demônio, e ele é o típico cara frio, assassino e violento, mas que, por algum motivo, demonstra um certo cuidado com ela. Clichê que funciona. Eu li toda essa parte já esperando abuso e me perguntando como essa mulher iria se apaixonar por alguém que destruiu a cabeça dela.

Quando você acha que não pode piorar, vêm as cenas mais difíceis. A primeira é curta e, ao meu ver, acerta no tom. Foca totalmente na dissociação dela e deixa claro que para todos ali foi traumático. Depois vem a parte que ninguém pediu, onde ela é drogada para sentir prazer. A descrição é uma das piores coisas que eu já li. É gore, proposital e cheia de gatilhos. É nojento e aterrorizante ver como ela se sente traída pelo próprio corpo, implorando mentalmente para tudo acabar, o que resulta em uma gravidez.

Muita gente diz que o Kaine poderia simplesmente tê-la matado, eu já vejo diferente. O Morrough revivia todo mundo. Mesmo se ele a matasse, o destino do corpo dela seria o mesmo. E, com o conhecimento que ele tinha da Helena, era óbvio que o Kaine sabia que jamais seria perdoado. Se ele se recusasse, ela seria mandada para a central, onde não seria apenas ele a fazer aquilo com ela. Outros já queriam ela dessa forma.

A primeira parte termina de forma horrorizante, e então entramos na segunda, a maior parte do livro, que mostra como a Helena chegou àquele ponto. Aqui existe uma crítica muito forte à fé corrompida e usada para controle e poder. Fica claro que aqueles que se acham bons em uma guerra não têm todo o contexto. São marionetes guiadas por quem tem coragem de fazer tudo. Não se vence uma guerra sendo bom e honesto, e quem conta a história sempre pinta o vencedor como justo, enquanto quem fez os verdadeiros sacrifícios desaparece em busca de um mínimo de paz.

Conforme a guerra avança, você percebe que a Helena não era cega apenas fisicamente no começo da história. Ela também era cega para a própria guerra. Tinha esperança e fé em pessoas que também não tinham todas as informações.

Eu gosto muito desse desenvolvimento, de como pequenas revelações vão fazendo sentido e de como cenas da primeira parte ganham contexto. Fica claro que a Helena era muito maior e mais poderosa do que todos queriam que ela acreditasse. Ela era um peão que não podia saber da própria força, e os planos de usá-la foram praticamente o que matou todo mundo.

A relação da Helena com o Kaine nasce na guerra. São duas pessoas usadas por lados diferentes que encontram uma pequena misericórdia naquele mundo. Eles sabiam que se traíam mutuamente, e mesmo assim, quando o momento chegou, se escolheram acima de tudo.

É essa escolha que coloca a Helena exatamente onde a encontramos no começo do livro. Ela nunca consegue enxergar o próprio valor. No fim, eu nem acho que ela se escolhe por amor próprio, mas porque sabe que o que o Kaine pode e vai fazer, se ela não priorizar a própria segurança, é pior que a morte dela. É a morte de todos.

Ele é obcecado, e ela tem sérios problemas de autoestima. Mais uma vez, peões não podem se achar suficientes, porque perdem seu valor, e foram extremamente eficientes em tirar tudo dela.

Quando voltamos para o presente na terceira parte, fica claro que não existe vitória. Quase todo mundo morreu, o país foi reduzido a cinzas, e não há nada a fazer além de tentar sobreviver em algum lugar minimamente seguro. Depois de tanto sofrimento, eles não ganham absolutamente nada.

A guerra acaba quando já não resta pelo que lutar. Os países vizinhos avançam sobre os poucos recursos que sobraram, a morte do Morrough é apática, sem catarse, e a esperança do povo nasce mais uma vez de uma mentira. Helena e Kaine não ganham glória nem redenção. Ficam isolados, marcados pela guerra, tendo apenas um ao outro e a criança que foi forçada aos dois.

É um final desestimulante, sim. Mas talvez seja exatamente isso que uma guerra deixa. O que sobra para quem vence, além da destruição de tudo? O país vai se reerguer em cima de mentiras, quem fez o trabalho sujo não será lembrado e, mesmo com um final teoricamente feliz, fica um vazio enorme. É pouco demais para tanto sofrimento, e talvez essa seja a mensagem mais honesta do livro.

Alchemised é problemático, pesado e cheio de escolhas questionáveis, mas ainda assim me prendeu completamente. Eu acredito que esse não é um livro para todo mundo, não é extremamente profundo e faz mais uso do gore do que seria necessário. A verdade é que eu enrolei muito para chegar na página 300 e depois passei o final de semana trancada no meu quarto, porque não conseguia largar e precisava terminar de ler.

Se você gosta de dark romance, com cheiro de clichês e leves críticas sociais, eu recomendo sim, entretanto não leia esse livro achando que vai ser a melhor coisa que você vai ler na vida. Eu queria dar uma nota quatro, fui pega em tudo, apesar de não ser leitora de dark eu realmente gostei, mas vou ser sincera e dar três, pois é melhor que os piores. E isso, vindo de quem só gosta de final feliz e gente não tóxica, é quase um dez.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: SenLinYu
TRADUÇÃO: Helen Pandolfi, Laura Pohl, Ulisses Teixeira, Sofia Soter
EDITORA: Intrínseca
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 960
COMPRE: Amazon

Thayná Neiva

Sou Thayná Neiva, jornalista, autora de histórias não publicadas, leitora profissional de fanfic e uma eterna apaixonada em BL. Escrevo críticas movida por sentimento, mas com juízo (na maioria das vezes).

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