26 de setembro de 2025

TURMA DA MÔNICA JOVEM – ADOLESCÊNCIA E ROMANTIZAÇÃO DO TÓXICO?

Os gibis sempre tiveram um papel fundamental na formação de leitores. Sua força está na união entre texto e imagem, que facilita a compreensão mesmo para quem ainda não domina completamente a leitura. Mais que isso: introduzem crianças e adolescentes no mundo das narrativas, oferecendo personagens, dilemas e conflitos que ajudam a pensar sobre a vida, a amizade, o amor e a sociedade.

Estudos mostram que os quadrinhos são portas de entrada para a leitura, favorecem a alfabetização, ampliam a criatividade e permitem trabalhar temas sociais e éticos em sala de aula. Justamente por isso, não podem ser vistos apenas como diversão leve: carregam também uma responsabilidade educativa, ainda que indireta. O que um gibi transmite tem potencial para moldar percepções, especialmente em leitores adolescentes que estão formando noções sobre identidade, valores e relacionamentos.

A “Turma da Mônica Jovem” nasceu com uma proposta ousada: acompanhar o crescimento dos personagens mais icônicos dos quadrinhos brasileiros, levando-os à adolescência. A ideia parecia promissora: se as crianças crescem, seus heróis também podem crescer, lidando com novas descobertas, dilemas e responsabilidades. No entanto, conforme a série avançou, uma sensação incômoda foi se formando em parte dos leitores: de que os temas escolhidos não visam tanto a construção coerente de personagens, mas o impacto imediato, a polêmica que desperta curiosidade e, em última instância, vendas.

É nesse ponto que surge a questão da “Turma da Mônica Jovem”. Ao crescer junto com seus leitores, a série passou a explorar romances, ciúmes, conflitos afetivos e inseguranças típicas da adolescência. Até aí, tudo certo: falar de emoções faz parte do amadurecimento. O problema é o modo como esses romances são representados.

Em várias histórias, o namoro da Mônica com o Cebola ou com o Do Contra apresenta comportamentos claramente tóxicos — controle, ciúme excessivo, manipulação emocional — tratados como se fossem apenas dramas românticos. Sua função não parece ter sido mostrar um amadurecimento genuíno, mas criar conflito suficiente para manter os fãs divididos entre “times” e, assim, prender a atenção da audiência.

Da mesma forma, a insistência em transformar beijos e namoros em prêmios, disputas ou conquistas soa menos como exploração sensível da adolescência e mais como estratégia para gerar discussão e expectativa a cada edição.

Esse padrão não se restringe ao romance. Em diversos momentos, as tramas parecem escolhidas não pelo potencial de enriquecer os personagens, mas pelo choque momentâneo que podem causar. Seja ao colocar Mônica em dilemas que a fragilizam de modo artificial, seja ao prolongar triângulos amorosos até o desgaste, a sensação é de que a prioridade está em provocar barulho, não em construir coerência.

O problema é que esse recurso funciona a curto prazo, mas cobra caro a longo prazo. Uma HQ voltada para adolescentes, ao insistir em polêmicas superficiais, arrisca transformar personagens fortes e consistentes em peças de roteiro descartáveis.

Ler a edição “Dentuça, eu?” (TMJ #94) me deixou uma sensação estranha, quase incômoda. A proposta era simples: acompanhar a Mônica lidando com inseguranças sobre usar aparelho de dentes — um tema perfeito para falar de autoestima, saúde e aceitação. Mas a condução confirmou algo mais sério: a romantização de um relacionamento tóxico.

No meio da história, vemos o Do Contra se opor ao aparelho. O motivo não é a saúde dela, nem um questionamento profundo sobre mudança. É pura e simplesmente a aparência. Ele gosta da Mônica como “a diferente”, a garota que não se encaixa, e não aceita que ela altere nada nesse molde. É um controle sutil, disfarçado de carinho: “eu te amo assim, não mude”. Parece bonito, mas é aprisionador. O recado que fica é que ela só merece o amor dele se permanecer exatamente como ele a idealizou.

Do outro lado, temos o Cebola — justamente o personagem tantas vezes acusado de ciúmes e orgulho. Aqui, ele aparece mais preocupado com a saúde dela, mostrando que, ao contrário do Do Contra, não estava preso à estética. É curioso perceber esse contraste: o suposto “maduro” revela-se limitador de maneira velada, enquanto o “ciumento” se mostra mais consciente.

Mas há outro aspecto do Cebola que precisa ser dito com todas as letras: sua insistência em “vencer” a Mônica — superá-la, demonstrar superioridade em algum critério, vencê-la — como pré-condição para pedi-la em namoro. Essa lógica de desempenho transforma o afeto em moeda de validação: antes de amar, é preciso dominar. Para leitores adolescentes, o subtexto é perigoso: o garoto precisa “se afirmar” sobre a garota para então “merecer” o relacionamento — e ela, por sua vez, só “vale” quando aceita essa hierarquia tácita.

Essa exigência performática do Cebola ecoa padrões de masculinidade competitiva e desloca o centro do vínculo para uma disputa de poder. O amor vira prêmio por vitória, não encontro entre iguais. Ainda que o roteiro tente enquadrar isso como travessura, charme ou “dinâmica do casal”, o efeito formativo é claro: condicionar o pedido de namoro a uma vitória sobre a parceira legitima a ideia de amor como prova de força, não como exercício de respeito.

O ponto mais delicado em “Dentuça, eu?” é como o roteiro decide encerrar a relação com o Do Contra: ele é quem termina com a Mônica. E ela, em vez de se libertar, fica com culpa. Pensa que poderia ter feito mais, que talvez não tenha se esforçado o suficiente para agradá-lo. Essa é a dinâmica clássica de um relacionamento tóxico: a vítima se sente insuficiente quando, na verdade, estava sendo manipulada.

O que incomoda é que a HQ não reconhece isso como questão. Não há um momento em que alguém diga claramente: “Ei, não está certo ele te impor como você deve ser”. O conflito é tratado como um drama romântico, como se fosse apenas mais um obstáculo no namoro. A mensagem que fica para o leitor adolescente é perigosa: “se ele não aceita sua mudança, talvez a culpa seja sua”.

O namoro da Mônica com o Do Contra não nasceu de um amor genuíno, mas de uma função de roteiro. Ele entrou para tensionar a relação dela com o Cebola, obrigando o Cebola a amadurecer, a repensar seu jeito ciumento e controlador. Em termos de construção narrativa, isso até poderia ser válido — muitas histórias no mundo todo usam personagens secundários para chacoalhar os protagonistas. O problema é que, aqui, a execução foi fraca.

O Do Contra não foi desenvolvido o suficiente para sustentar uma posição de protagonista romântico: não compartilha do mesmo vínculo afetivo que dá peso aos conflitos entre os quatro principais, e por isso seu namoro com a Mônica soa longo demais e artificial. O efeito não foi de amadurecimento narrativo, mas de desgaste, tanto para a personagem quanto para o leitor. Pior ainda é que, em vez de amadurecido, o Do Contra se revelou egocêntrico e restritivo de forma sutil, aceitando a Mônica apenas dentro da versão idealizada que tem dela.

É aqui que a importância dos gibis se cruza com a necessidade de cuidado. Se os quadrinhos são instrumentos tão poderosos de educação e formação cultural, então não é irrelevante como representam relacionamentos. O que é apenas entretenimento para um adulto pode ser modelo de comportamento para um adolescente. O que é conflito narrativo para um leitor crítico pode ser normalização de abuso para quem ainda está aprendendo a diferenciar ciúme de cuidado, intensidade de respeito.

Não se trata de exigir que HQs virem manuais de boas práticas afetivas. Mas, assim como os gibis são usados com sucesso para ensinar saúde, cidadania e consciência social, também podem assumir a responsabilidade de mostrar relações de forma mais saudável. Ou, no mínimo, deixar claro que comportamentos controladores e manipuladores não são românticos, mas perigosos.

A “Turma da Mônica Jovem” tinha — e ainda tem — o potencial de mostrar que crescer significa também aprender a identificar quando um relacionamento não faz bem. No entanto, ao preferir o suspense amoroso e a dramatização do triângulo entre Cebola, Do Contra e Mônica, a série acaba romantizando o que deveria ser questionado. E nisso, perde a chance de transformar seus leitores não apenas em bons leitores, mas em jovens mais conscientes das relações que constroem e aceitam.

Uma das coisas que mais me incomodam é a forma como a Mônica é escrita quando o assunto é romance. Não bastasse o triângulo interminável entre Cebola e Do Contra, ainda existem outros interesses, como o Toni e até personagens que aparecem em edições isoladas. O resultado é um padrão: a Mônica está sempre apaixonada ou prestes a se apaixonar.

Na prática, isso transmite uma mensagem estranha. Parece que a vida dela gira em torno de quem é o próximo garoto a ocupar espaço no seu coração. Não existe pausa, não existe tempo sozinha, não existe uma fase de autodescoberta sem romance. Se não é o Cebola, é o Do Contra. Se não é o Do Contra, é o Toni. E se não é nenhum deles, aparece outro flerte qualquer.

Essa repetição reforça uma ideia perigosa: a de que garotas adolescentes são instáveis emocionalmente, que “se apaixonam por qualquer um” que lhes dê atenção. O gibi acaba transmitindo um estereótipo machista — o da menina que nunca é fiel a si mesma, porque está sempre dividida entre garotos.

E isso tem impacto direto no leitor. Um garoto que lê pode absorver que meninas são “volúveis” ou “confusas”. Uma garota que lê pode sentir que é normal se medir pelo interesse dos outros, e não pelo próprio valor. A HQ não deixa claro que esse padrão é problemático — ao contrário, romantiza como se fosse natural.

Com isso, “Turma da Mônica Jovem” perde a chance de mostrar a Mônica como exemplo de alguém que, além de amar, também sabe ficar sozinha, crescer e se descobrir sem depender de relacionamento. A mensagem que fica é pobre: a de que sempre precisa haver um romance. E não. Não precisa.

Entre os arcos mais polêmicos, a história da Casa Assombrada se destaca por um detalhe que parece inofensivo à primeira vista, mas carrega uma mensagem perigosa: o “prêmio” para quem vencer os desafios é beijar a Mônica.

Quando li essa trama, fiquei sem palavras. Uma HQ voltada para adolescentes não pode tratar o beijo de uma personagem como se fosse um troféu, um objeto a ser conquistado. Isso reduz a Mônica — uma das protagonistas mais fortes e emblemáticas dos quadrinhos brasileiros — a uma recompensa pelo esforço alheio. Não é sobre romance, não é sobre sentimentos: é sobre posse.

O problema é que essa lógica não fica apenas na ficção. Para leitores jovens, a mensagem é clara: o corpo da menina é um prêmio a ser ganho, não uma escolha pessoal dela. Isso reforça estereótipos nocivos: de que garotas não têm autonomia sobre seu afeto, de que um beijo é moeda de troca, de que o valor feminino está em ser desejada.

Em vez de abrir espaço para a Mônica se posicionar, para mostrar que ela tem voz ativa sobre quem beija ou não, o roteiro transforma o beijo em objeto de disputa. Essa construção narrativa legitima uma ideia perigosa: a de que insistência, esforço ou coragem “merecem” ser recompensados com afeto. Na vida real, esse raciocínio abre caminho para pressões, assédios e relacionamentos abusivos.

O mais irônico é que a Mônica sempre foi símbolo de independência, de uma garota que não se deixa dobrar. Mas nesse arco, sua autonomia é deixada de lado. Ela não é sujeito da história, mas objeto da competição. Para uma HQ direcionada a adolescentes, isso é gravíssimo.

Quadrinhos podem — e devem — retratar os dilemas da juventude: paixões, inseguranças, descobertas. Mas não podem naturalizar a ideia de que o amor ou o carinho de alguém é um prêmio a ser conquistado. Isso não é só um deslize narrativo: é um recado enviesado, que pode moldar de maneira distorcida a visão de jovens sobre relações.

Em vez de ensinar respeito, ensina conquista. Em vez de mostrar escolha, mostra prêmio. E isso, para uma HQ tão popular entre adolescentes, não deveria ser aceitável.

Voltando a “Dentuça, eu?”, o caso do aparelho revela com clareza o que significa um relacionamento baseado em controle sutil e manipulação emocional. Quando o Do Contra reage decepcionado à ideia do aparelho, ele transforma a escolha dela em culpa. Ela precisa se justificar, tem de convencer. O Do Contra não grita, não prende, mas prende pela expectativa: “Se você mudar, vai me perder. Se eu estiver decepcionado, a culpa é sua”.

O mais doloroso é ver a Mônica, uma personagem historicamente forte, reduzida a alguém que titubeia, que internaliza a culpa. Ao perguntar “Isso é tão difícil de aceitar?”, ela expõe a ferida de quem não é validada. E o roteiro não denuncia isso — apenas deixa correr como mais um drama romântico.

Em vez de mostrar que amor saudável é respeito à mudança, a revista deixa a mensagem de que “é romântico lutar contra quem você ama para manter um relacionamento”. O resultado é perigoso: um manual implícito de como aceitar a manipulação emocional sem perceber.

No fundo, a grande falha da “Turma da Mônica Jovem” não é trazer romances adolescentes. O problema é que, muitas vezes, faz isso com pouco cuidado: prefere o suspense romântico à crítica, prefere manter o triângulo amoroso ao invés de explorar a autodescoberta. O resultado é uma romantização de situações que, na vida real, são sinais claros de relações abusivas.

O público-alvo é justamente quem ainda não tem maturidade para diferenciar paixão de manipulação, ciúme de cuidado, idealização de aceitação. A HQ, em vez de ajudar a reconhecer sinais perigosos, romantiza. O tóxico vira parte do “charme” da relação — e isso é prejudicial.

Porque o adolescente que lê não vai interpretar como metáfora ou crítica social. Ele vai pensar que é normal. Vai achar que sentir ciúmes é prova de amor, que mudar a si mesmo para caber na expectativa do outro é obrigação, que nunca estar sozinho e sempre ter alguém é sinal de valor.

Uma HQ para adolescentes não precisa ser um manual de comportamento. Mas precisa ter responsabilidade mínima. Precisa mostrar que amar também é respeitar, que crescer inclui aprender a dizer “não”, que ninguém deve se sentir culpado por ser quem é.

É aí que a “Turma da Mônica Jovem” falha com mais frequência: a série sempre se propôs a acompanhar a adolescência com seus dilemas e descobertas, mas repetidamente perde a chance de ser didática de verdade. Em vez de mostrar que relacionamentos saudáveis exigem respeito, abre espaço para a naturalização da manipulação emocional.

A “Turma da Mônica Jovem” poderia ter se tornado um marco na educação sentimental de gerações, mostrando de forma honesta o que significa crescer, errar e aprender. Mas, ao insistir em tramas montadas mais para dividir opiniões do que para construir sentido, acaba se aproximando de uma novela prolongada, em que a próxima polêmica vale mais que a coerência da história. E isso mina justamente aquilo que sempre fez a força da Turma: a identificação genuína dos leitores com personagens que, apesar das diferenças, pareciam de verdade.

Não se está pedindo que a HQ seja panfletária, e sim que seja clara. A romantização desse tipo de situação faz com que muitos leitores não identifiquem o que há de errado e levem para a vida real a ideia de que é normal se esforçar ao máximo para caber na idealização de alguém. Não é. Nunca foi.

E quando uma HQ lida com um público tão jovem, não dá para fingir que isso não importa. Porque importa. Importa muito.

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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