1 de setembro de 2025

GAROTA À BEIRA-MAR – QUANDO A DOR DA ADOLESCÊNCIA VIRA MATERIAL DE CONSUMO?

Em “Garota à beira-mar”, a tentativa de preencher o vazio da alma enquanto não se encontra o caminho apontado pelo destino é o principal tema abordado por Inio Asano. Sexo, violência e sonhos surgem como possíveis respostas. Viver, por si só, é muito dolorido e, ao mesmo tempo, toda decisão traz suas consequências.

Antes de mais nada, preciso deixar claro que “Garota à beira-mar” exige tipos distintos de leitura. Vou me concentrar na obra enquanto proposta artística: seus temas, suas tensões internas, o modo como trata desejo, silêncio, consentimento, luto e voyeurismo sob a ótica de uma adolescência emocionalmente desarticulada. Trata-se de uma análise que parte do pressuposto de que há intenção estética e ética no que Inio Asano constrói — e que vale a pena investigá-la com seriedade.

Mas também é verdade que a obra circula num mercado com códigos próprios, onde certas imagens — especialmente envolvendo adolescentes e sexualidade — são historicamente consumidas sob uma ótica fetichista. O que virá em seguida, aborda esse outro lado: o contexto editorial, a ambiguidade de sua publicação original em revista adulta, e a forma como esse enquadramento pode distorcer ou mesmo comprometer a leitura crítica da obra, especialmente diante de temas tão sensíveis.

São, portanto, olhares distintos sobre o mesmo livro — e ambos, acredito, necessários.

Mas ainda acrescento um pensamento final e inevitável sobre as decisões narrativas que me incomodaram profundamente após a leitura. São escolhas que, embora possam ser justificadas dentro da estética elíptica e anti-melodramática do autor, produzem efeitos difíceis de ignorar.

CONSENTIMENTO E ANESTESIA EMOCIONAL

Inio Asano cria em “Garota à Beira-Mar” um estudo minucioso sobre o que significa crescer num mundo onde o corpo é visto antes de ser compreendido. À primeira vista, o mangá pode parecer um relato sobre adolescentes que vivem um relacionamento sexual casual. Mas basta se demorar um pouco nas entrelinhas para perceber que a obra pulsa com perguntas perturbadoras sobre desejo, consentimento, voyeurismo e a busca desesperada por anestesia emocional.

Koume, a protagonista, é introduzida como uma figura que não deseja exatamente o sexo em si, mas a suspensão do vazio. Depois de uma violência sexual sofrida por um adulto próximo, ela propõe a Isobe — colega de escola, isolado e calado — um acordo: fazer sexo regularmente, sem envolvimento emocional. É menos sobre prazer, e mais sobre tentar reaver algum tipo de controle. O que poderia soar como emancipação, no fundo, revela-se um pacto silencioso de dor.

O acordo entre os dois funciona como uma farsa de maturidade. Eles tentam se comportar como adultos, falando como viram em filmes, agindo com frieza, performando o que acham que é “estar no controle”. Mas as rachaduras aparecem cedo: o ciúme, a raiva, o medo de ser abandonado, o nojo de si mesmo. São adolescentes brincando de apagar o que sentem — e o mangá sabe disso. Cada vez que uma emoção real ameaça emergir, o “contrato” range, se desestabiliza. Porque, no fundo, é impossível dissociar o desejo do afeto quando se é humano.

Asano nos força a encarar essa dissociação através de um estilo visual muito particular. Os fundos são hiper-realistas, quase fotográficos — becos, blocos de concreto, calçadas esfareladas. Já os corpos são limpos, esquemáticos, sem textura. Essa escolha estética esfria a cena íntima, recusa a sedução. Ao invés de erotizar, o desenho distancia. E é nesse distanciamento que Asano insere o leitor: não para julgar, mas para observar com desconforto.

Consentimento, aqui, é menos sobre o “sim” literal, e mais sobre os contextos que pesam sobre ele. O sim de Koume não é fetichizado — é um sim contaminado por trauma, por medo de ser rejeitada, por vergonha do próprio corpo. Isobe, por sua vez, também não entende direito o que está fazendo, mas aceita porque vê ali uma oportunidade de proximidade, talvez de pertencimento. A troca é atravessada por ruídos que não têm nome: como dizer “eu não quero, mas preciso de você”? Como negar algo quando dizer sim parece mais seguro?

A escola funciona como um tribunal invisível. Sussurros, apelidos, risos abafados nos corredores. Os adolescentes se policiam e se julgam. E nesse ambiente, o “poder” circula em formas que nem sempre são óbvias. Quem sabe de quem? Quem espalha o quê? Quem tem as imagens, quem olha pelas frestas, quem controla o rumor? O voyeurismo é uma camada constante na narrativa: janelas, escadas, cartões de memória com fotos. Nada do que é íntimo está realmente protegido.

O leitor, nesse jogo, é também implicado. As molduras visuais — portas entreabertas, ângulos altos, enquadramentos espiados — nos colocam na posição de quem olha sem ser visto. É impossível não se sentir invasor. E é exatamente esse desconforto que torna “Garota à Beira-Mar” uma obra ética. Ela não nos oferece moral da história, nem redenção. Apenas a dúvida sobre o que estamos fazendo ao continuar lendo.

No fundo, há um luto que atravessa tudo. Isobe perdeu o irmão, e parece querer colar os pedaços de si através da relação com Koume. Ela, por sua vez, perdeu a inocência de um modo brutal e tenta apagar o trauma com um novo script corporal. Mas nenhum dos dois consegue substituir o que foi arrancado. A relação que constroem é uma tentativa de pausa, uma maneira de suspender o tempo e evitar o abismo. Quando falha, a frustração se converte em agressividade: insultos, abandono, delação.

O mar, sempre presente, é mais do que cenário. É símbolo de passagem, de indiferença, de força incontrolável. Ele nunca reage aos gestos dos personagens, nunca oferece respostas. Está ali, como um lembrete de que há algo maior do que a dor deles — mas que esse “maior” não resolve, só contextualiza. O mar não cura. Ele absorve.

Comparado a “Boa Noite, Punpun”, “Garota à Beira-Mar” parece menos alucinatório, mais cru. Enquanto “Punpun” mergulha no delírio e na metáfora visual (com seu protagonista-passarinho), “Garota” ancora tudo no real: o concreto da escola, os detalhes dos corpos, a brutalidade das interações. A violência aqui não é cósmica, é cotidiana. E por isso, talvez, mais difícil de processar.

Com “Solanin”, a conexão é outra: a sensação de “vida suspensa”, de querer algo mas não saber o quê. A diferença é que “Solanin” se passa nos vinte-e-poucos, quando já existe algum vocabulário emocional. Em “Garota”, tudo ainda é ensaio, tentativa. Não há sequer a promessa de reorganizar a vida: só o esboço de um desejo de continuar. A adolescência aqui não é um tempo de possibilidades, mas de ruídos.

O mangá não oferece modelos. Os adultos estão ausentes ou são negligentes. O que sobra são jovens tentando montar um quebra-cabeça com peças faltando. E isso Asano retrata com frieza — não por insensibilidade, mas por respeito. Não há trilha sonora, nem lágrimas fáceis. Há vento, há chuva, há cenas em branco. Há silêncio que fala mais que o diálogo.

Ler “Garota à Beira-Mar” exige cuidado. Não porque a obra seja perigosa, mas porque é fácil projetar nela nossos desejos de redenção, de sentido, de fechamento. Mas Asano resiste a tudo isso. Sua ética está justamente em não preencher o vazio. Em deixar que ele ecoe. Em nos perguntar por que continuamos observando, mesmo quando tudo dói.

A pergunta não é “o que acontece com eles?”, mas “por que isso nos afeta tanto?”. Que parte nossa também já disse “sim” para não ser deixado de lado? Que partes tentamos anestesiar? Que pactos silenciosos fizemos com o vazio?

Mais do que um retrato da adolescência, “Garota à Beira-Mar” é uma anatomia do desconforto. Uma obra que incomoda porque se recusa a confortar. E talvez seja justamente por isso que mereça ser lida — e relida — com atenção.

No fim, o horizonte continua lá, plano e indiferente. Não há resposta, mas há algo que se move em nós depois da última página. Algo como um eco, ou um nó. Algo como crescer.

O RISCO DE FETICHIZAÇÃO E PEDOFILIA

Se na primeira parte desta resenha analisamos “Garota à Beira-Mar” como proposta estética — com seu olhar sobre adolescência, consentimento e anestesia emocional —, é preciso agora abordar um segundo eixo: o lugar onde a obra nasceu. Porque, por mais que haja intenção crítica, não se pode ignorar que este mangá foi publicado originalmente na Manga Erotics F, revista adulta japonesa conhecida por acolher quadrinhos com forte conteúdo sexual e experimental. E esse contexto editorial pesa.

A Manga Erotics F, da Ohta Publishing, foi entre 2009 e 2013 uma espécie de refúgio alternativo para o que o Japão chama de “artsy sex comics” — obras que combinam ambição formal e conteúdo sexual frontal. No mesmo catálogo estavam títulos como “Lychee Light Club”, com sua violência grotesca e homoerotismo estilizado, e “Utsubora”, que flerta com a pornografia psicológica. Não é uma revista pornográfica no sentido comum, mas é um espaço onde a sexualidade gráfica é esperada, permitida e — em certa medida — capitalizada.

Asano sabia disso. Em entrevistas, ele mesmo reconhece que só conseguiu fazer “Garota à beira-mar” naquele momento, porque depois o clima editorial no Japão se tornou menos receptivo a cenas sexuais em obras não rotuladas como eróticas. Em outras palavras: a revista oferecia viabilidade comercial e narrativa para o tipo de obra que ele queria (ou podia) construir — e isso moldou seu conteúdo.

E é justamente aí que começa a tensão: até que ponto a obra, mesmo com sua ambição crítica, se ajusta ao molde da revista que a acolhe? Até que ponto repete, estende ou estiliza cenas de sexo não para construir tese, mas porque é permitido — e talvez esperado — fazê-lo naquele circuito editorial?

Não se trata apenas de “mostrar demais”. O risco de fetichização aparece quando certos elementos se acumulam: repetição de cenas semelhantes sem mudança dramática real; enquadramentos que fragmentam corpos e excluem reações; tom neutro ou silencioso que suaviza conflito ou culpa; e ausência de consequência emocional após o ato. Quando isso acontece em sequência, o efeito deixa de ser diagnóstico — e vira espetáculo.

Garota à Beira-Mar” caminha perigosamente nessa borda. Em diversos momentos, Asano esfrega o sexo contra a frieza do mundo: os corpos estão cercados de concreto, vento e indiferença; as consequências sociais vêm (vergonha, fofoca, raiva); e a relação se deteriora. Mas em outros trechos, há repetição programática, com gestos sexuais retomados cena após cena — o que, no formato de serialização em revista, pode ter sido uma estratégia de coesão temática entre capítulos espaçados, mas que, lidos em volume único, soam como acúmulo.

Além disso, os quadrinhos — como linguagem — oferecem ao leitor uma forma de linger: o olhar pode pairar, voltar, recortar. Mesmo quando a intenção é crítica, o explícito gráfico pode ser apropriado como fetiche por parte do público. E não são poucos os leitores que relatam ter se sentido confusos, incomodados ou enganados por uma obra que, vendida como “romance adolescente melancólico”, entrega longas sequências de sexo entre menores — com pouca introspecção e muito corpo.

A ambivalência é real. Em alguns momentos, a explicitude é narrativamente funcional — ela mostra anestesia, raiva, rumor. A relação muda, o poder muda. Em outros, não há deslocamento. E a pergunta justa que se impõe ao final de certas cenas é: o que mudou? Se a resposta for “nada”, então a cena se aproxima mais da reafirmação estética do ato do que de sua problematização.

A crítica mais dura a “Garota à Beira-Mar” nasce justamente aí: há quem sinta que, por mais que Asano queira pensar o olhar voyeurístico, ele também oferece alimento a esse olhar. Que o livro denuncia a vigilância, mas também se torna objeto de consumo para o mesmo público voyeurista que critica. E isso não é contradição menor. É estrutural.

No Ocidente, a embalagem da obra reforça essa ambiguidade. A edição foi lançada e marcada como 18+, e mesmo assim vendida por vezes ao lado de romances gráficos juvenis, com capas sóbrias e sinopses enganosas. A forma como a obra é apresentada comercialmente convida um tipo de leitura que contrasta com o que o autor, supostamente, gostaria de provocar.

Nada disso invalida os méritos da narrativa — mas complica o seu percurso. Ler “Garota à Beira-Mar” com maturidade exige não só interpretar o que está no papel, mas também entender onde, como e para quem essa obra foi publicada. Porque contexto também é conteúdo. E o veículo de publicação condiciona a forma, o ritmo, a ênfase.

O resultado é um mangá paradoxal: ao mesmo tempo em que denuncia o esvaziamento do sexo e o olhar invasivo, ele depende do explícito para existir, e opera dentro de um circuito que favorece — e em certa medida exige — esse tipo de entrega gráfica. A crítica ao fetiche e o risco de fetichização coexistem, e o leitor adulto precisa reconhecer essa tensão sem reduzi-la a um “ou/ou”.

Portanto, não é exagero dizer que “Garota à Beira-Mar” se equilibra entre duas forças: a denúncia do olhar e o risco de ser tragada por ele. É uma obra que tenta tensionar os limites da representação, mas que nunca consegue escapar completamente da lógica do lugar que a gerou. Talvez por isso seja tão incômoda — e talvez por isso mereça ser lida com olhos atentos, desconfiados e, sobretudo, conscientes do que está em jogo.

O que podemos inferir com razoabilidade — e sem alarmismo — é que toda obra que representa sexualidade entre menores em tom gráfico, por mais que tenha intenção literária ou dramática, está sujeita a apropriações indevidas, especificamente de pedófilos. E isso não depende da vontade do autor, mas do modo como a obra se apresenta, circula e é percebida.

No caso de “Garota à Beira-Mar”, o texto é ambivalente por natureza: ele critica o olhar, mas também fornece imagens que o alimentam. Ele denuncia o voyeurismo escolar e social, mas desenha sequências que podem ser recortadas e consumidas fora de contexto. Ele propõe pensar o consentimento e o vazio afetivo da adolescência, mas o faz por meio de cenas repetidas de sexo gráfico, envolvendo corpos explicitamente menores de idade. E, ainda que o estilo de Asano inclua mecanismos de esfriamento e distanciamento (como cenários hiper-realistas e elipses que evitam glamour), isso não impede que parte do público leia a obra sob outro viés — inclusive sexualizado.

Isso não significa que a obra foi “feita para” um público pedófilo. Mas abre-se a porta. E o próprio mercado editorial ocidental parece reconhecer isso: a classificação 18+ são formas de tentar mitigar o risco de circulação indevida, sem qualquer sucesso. São mecanismos imperfeitos, mas refletem um cuidado que, ao menos parcialmente, tenta responsabilizar o circuito de recepção, uma vez que são os maiores de 18+ pedófilos que consomem esse conteúdo.

É justamente nessa zona de intersecção — entre intenção autoral, forma de publicação, ambiente legal e possibilidades de apropriação — que a obra reside. E é por isso que a pergunta “essa obra atrai leitores que buscam excitação com menores?” não pode ser respondida com um “sim” ou “não” absolutos. O conteúdo, por si só, permite essa leitura. A forma, em muitos momentos, tenta bloquear essa apropriação. E a recepção, como sempre, escapa ao controle total.

Para quem lê com intenção crítica e sensibilidade, “Garota à Beira-Mar” oferece um estudo duro sobre adolescência ferida, desejo deslocado e anestesia afetiva. Mas não se pode ignorar que a mesma obra, com o mesmo traço e as mesmas páginas, pode ser lida com outros olhos — e para outros fins. Reconhecer isso não é acusar, mas encarar o limite ético da arte que representa o corpo adolescente de forma explícita em um mercado onde o corpo é mercadoria e o olhar, uma moeda.

ANTI-CLÍMAX OU ENGODO?

Há dois momentos decisivos em “Garota à Beira-Mar” que parecem redirecionar completamente a narrativa — não por ruptura formal, mas por uma reconfiguração da promessa que a obra vinha fazendo ao leitor. Um deles é o arco do possível suicídio do protagonista. O outro, a recusa abrupta do vínculo afetivo quando a protagonista, enfim, admite o que sente. São dois gestos que parecem encerrar a história num tom coerente com a estética da obra: elíptica, fria, anti-melodramática. Mas, lidos de perto, carregam outra possibilidade: a de um truque narrativo e um gesto de vingança de gênero.

O primeiro caso é emblemático. O mangá planta com habilidade uma série de sinais de que Isobe pode ter cometido suicídio: ele desaparece, deixa um bilhete (“desculpa”), a cidade é atingida por uma tempestade, e a protagonista mergulha numa espera silenciosa. O leitor é levado a habitar a angústia da perda iminente. Mas então ele reaparece — bem, motivado, com um novo plano de vida — e diz que “nunca pensou nisso”. Não há ironia na fala, nem reflexão posterior sobre o susto causado. O gesto não é só de frustração da expectativa, é de negação da própria tensão construída.

Esse tipo de virada, embora possa ser defendido como método — o famoso “anti-clímax” do Asano, que diz preferir finais onde “viver é mais difícil do que morrer” —, aqui soa desequilibrado. O texto alimenta por páginas e páginas apenas uma leitura possível, sem sugerir alternativas. Ao negar tudo de repente, sem reprecificar o que veio antes, a virada tende mais ao engodo do que à ambiguidade. Não há real ambivalência construída; há condução. E condução que se anula bruscamente costuma deixar a sensação de ter sido enganado pelo autor.

Mais grave do que frustrar a expectativa é não pagar o custo emocional da frustração. Se o personagem mentiu para si mesmo, onde estão os sinais disso? Se enganou os outros, onde está a consequência? Se mudou de rumo, onde está a hesitação, o atrito, o remorso? A ausência de qualquer tensão depois da quebra nos força a reler toda a sequência como performance vazia — e pior: como uma performance que o texto parece ter valorizado até o último segundo, só para descartá-la com frieza.

Já o segundo caso — a recusa de Isobe após a confissão amorosa de Koume — é ainda mais delicado. O autor já declarou que concebeu “Garota à Beira-Mar” como uma “história de amor ao contrário”: começaria com sexo, terminaria com sentimento. Mas o que vemos no final vai além da inversão esperada. Quando Koume, depois de tudo, finalmente se mostra vulnerável, Isobe não só recusa o vínculo — ele o invalida. Não há empatia, nem hesitação. A cena não é de distanciamento doloroso, mas de indiferença triunfante. E isso carrega outra conotação: a de uma vingança masculina simbólica.

Durante boa parte da narrativa, Isobe é o lado mais calado, rejeitado, invisível. No fim, ele tem a oportunidade de “vencer” a dinâmica emocional: quando ela deseja, ele já não quer. Isso, por si só, não seria um problema — histórias não devem satisfazer expectativas românticas. Mas o modo como a cena é construída (com ênfase no desinteresse dele, na surpresa silenciosa dela, e sem custo narrativo posterior para ele) reforça a assimetria como punição, não como maturidade. Parece mais um gesto de revanche do que de evolução.

É possível ler isso como parte do “programa estético”: o mangá quer frustrar, inverter papéis, desmontar idealizações. Mas também é possível — e necessário — reconhecer que o efeito criado é o de um triunfo emocional unilateral. Isobe sai maior, mais resolvido, mais dono de si. Koume termina em silêncio, sem resposta, diminuída. A obra que prometia desmontar performances de poder termina reiterando uma: a da negação masculina como forma de controle emocional.

Esse duplo fechamento — a recusa do suicídio como gesto de continuidade fria e a rejeição amorosa como gesto de superioridade silenciosa — pode ser lido, sim, como parte da tese do autor. Mas isso não anula seus efeitos simbólicos, nem torna inválida a leitura crítica que vê aí um castigo disfarçado de coerência. Afinal, se a virada do suicídio foi plantada como única possibilidade, e a recusa amorosa vem após todo um arco de conexão física e emocional, é justo perguntar: por que agora? por que desse jeito? por que sem custo?

Literatura não é só o que o autor quis dizer — é também o que o texto produz. E aqui, o texto produz um desconforto ético. Não pelo tema, não pela frieza, mas pela forma como manipula a expectativa e a aflição do leitor para depois recuar, sem elaboração, como se dissesse: “isso nunca foi sobre você”.

No fundo, talvez seja. Talvez “Garota à Beira-Mar” seja, também, sobre o autor — sobre o poder de negar ao leitor a resposta esperada, e aos personagens o vínculo possível. Sobre criar a tensão máxima e depois dissolvê-la sem cerimônia. E sobre, no último momento, afirmar que o controle sempre esteve na mão dele — do garoto, do narrador, do autor.

É uma leitura incômoda, mas legítima. E se ela emerge com força ao final do livro, é porque o texto abre esse espaço — não só pelo que mostra, mas pelo que escolhe não enfrentar. A frieza, aqui, já não é só método. É também poder. E como toda obra que lida com poder, merece ser lida com desconfiança.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Depois de percorrer a proposta estética da obra, seu contexto editorial ambíguo, suas viradas narrativas questionáveis e os riscos éticos da sua circulação, resta uma pergunta que talvez “Garota à Beira-Mar” não consiga mais contornar: até que ponto sua mensagem sobre o vazio da adolescência resiste ao modo como ela se apresenta, se organiza e é apropriada?

Porque sim, o mangá começa com uma premissa potente — dois adolescentes lidando com dor, trauma e isolamento por meio de um contrato físico que deveria anestesiar o que não conseguem nomear. Mas conforme avançamos, o que se impõe não é o crescimento ou mesmo a falência afetiva desses dois jovens, e sim a reconfiguração de poder entre eles: um ciclo que começa com a garota propondo o contato e termina com o garoto negando o vínculo — no momento exato em que ela, enfim, se mostra vulnerável. A recusa fria, sem elaboração, não parece amadurecimento: parece retaliação.

E então voltamos ao corpo: exposto repetidas vezes, em ângulos e enquadramentos que — embora pretendam frieza — também oferecem material recorrente, explícito, sexualizado. O que era, em tese, um retrato ético da anestesia emocional da juventude, torna-se, na forma, um objeto possível de excitação para quem busca justamente o que a obra dizia criticar.

Isso não invalida completamente a leitura inicial. Mas a compromete. Quando a mensagem é soterrada pela mise-en-scène, pelo gesto de punição masculina no desfecho e pelo risco concreto de apropriação fetichista, a pergunta que sobra é incômoda: o que resta da denúncia quando o meio reforça justamente o que deveria denunciar?

Não há resposta simples. A arte pode — e deve — lidar com o que é difícil. Mas há uma diferença entre representar o mal-estar e reproduzi-lo como forma. E o que “Garota à Beira-Mar” talvez não consiga sustentar até o fim é esse equilíbrio. Ao contrário: parece tropeçar nas próprias intenções, oferecendo frieza demais quando a cena exigia consequência, e corpo demais quando a tese exigia distanciamento.

A obra começa querendo mostrar como o desejo, o rumor e o olhar podem esmagar o afeto. Mas termina dando ao olhar tudo o que ele queria. E nesse gesto, talvez — só talvez — o vazio que ela queria narrar seja engolido pela forma como escolheu (ou precisou) mostrá-lo. A pergunta que fica, e que talvez nunca se apague, é esta: quando a dor da adolescência vira material de consumo, ainda estamos diante de um retrato — ou já assistimos, de novo, ao espetáculo?


AVALIAÇÃO:


AUTOR: Inio Asano
ARTE: Inio Asano
TRADUÇÃO: Caio Pacheco
EDITORA: JBC
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 416
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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