Téo é um estudante de medicina, jovem e solitário, que divide a rotina entre cuidar da mãe paraplégica e passar horas em aulas de anatomia dissecando cadáveres. Numa tarde, acompanha a mãe a contragosto num churrasco. Lá, conhece Clarice — uma jovem cheia de vida, espontânea, com um espírito livre que contrasta totalmente com o dele. Logo no primeiro contato, ela rouba um beijo.
A partir desse momento, a vida de Téo passa a girar em torno dela. O que começa como curiosidade vira obsessão. Ele tenta se aproximar, insiste, força conversas, mas recebe sucessivas recusas. Até que toma uma decisão extrema: sequestra Clarice. Coloca-a sedada no carro e inicia uma viagem pelas estradas do Rio de Janeiro, convencido de que, com tempo e isolamento, ela acabará se apaixonando por ele.
Durante a viagem, eles passam por cenários descritos como “oníricos”: um chalé isolado em Teresópolis, uma praia deserta em Ilha Grande, paisagens que soam quase cinematográficas. Mas por trás da fotografia bonita, existe uma rotina marcada por abusos, manipulações e violência. Clarice oscila entre momentos de resistência, desespero e resignação — e, em certos trechos, chega a corresponder aos delírios de Téo. O efeito é perturbador: não porque a narrativa denuncia a violência, mas porque ela normaliza.
“Dias Perfeitos” não é apenas uma história de violência, mas um exemplo de como a forma de narrar pode validar o olhar do agressor e apagar a vítima. Desde a sinopse, Teo é apresentado como um jovem solitário “movido pelo amor”, descrito como calmo, lógico, até admirável em sua frieza. Clarice, por outro lado, aparece como “espírito livre” que teria até roubado um beijo dele — e, no cativeiro, como alguém que “oscila entre desespero e resignação”, chegando a “corresponder” aos delírios do sequestrador. Essa escolha não é neutra: ela sugere que a vítima, no fundo, aceita a violência, enquanto o agressor é quem merece ser compreendido.
O problema se agrava com os recursos estéticos: a viagem de sequestro é narrada em cenários “oníricos”, chalés e praias desertas, o que romantiza o cárcere e dá uma aura quase poética a uma sequência de abusos. Ao fazer isso, o livro reforça estereótipos perigosos: a ideia de que a mulher provoca, resiste um pouco, mas acaba cedendo; e de que o homem violento é “apaixonado obsessivo”, não um criminoso.
Essa abordagem é perigosa porque naturaliza a lógica do agressor: ele não é mostrado como psicopata, mas como alguém que apenas reage à rejeição feminina. E Clarice não é mostrada como sujeito, mas como objeto narrativo. O resultado é uma narrativa que não denuncia a violência, mas a embeleza, a justifica e a repete em silêncio — passando a mensagem subliminar de que a mulher, no fim, está ali por escolha própria.
Abaixo, uma lista do que pior existe no livro, na minha opinião:
1. Embora seja escrito em terceira pessoa, o livro quase nunca sai da perspectiva de Téo. O leitor acompanha seus pensamentos, suas justificativas, suas estratégias — enquanto Clarice raramente tem espaço para ter memórias, planos ou voz própria. Essa escolha não é neutra: ao priorizar a mente do agressor e ignorar a da vítima, a narrativa valida o olhar dele.
2. Téo é constantemente descrito como “obsessivo”, um termo ambíguo, que pode até soar romântico. Mas seus atos — sequestro, estupro, manipulação, assassinato — definem outra coisa: ele é um criminoso perigoso. Ao suavizar os termos, o texto reforça o velho estereótipo do “homem que ama demais”, diluindo a gravidade da violência.
3. Em vez de expor a brutalidade do cárcere, o livro o disfarça. Chalés serranos, praias desertas, estradas tranquilas: os cenários são descritos como “oníricos”, como se o sequestro fosse parte de uma road trip estilizada. Essa estética desloca o tom, transformando a violência em um passeio visualmente agradável.
4. Clarice tem diversas oportunidades para tentar fugir, mas é escrita como passiva, resignada, instável. Na maior delas, o texto opta por fazê-la tentar o suicídio — trocando a possibilidade de liberdade por um clichê de “histeria” feminina.
5. O livro estrutura os ataques de Téo como respostas “naturais” a ações de Clarice. O sequestro acontece depois de um insulto. O estupro vem após uma “provocação” e é “justificado” pelo álcool. A paralisia, após tentativa de fuga. Essa narrativa transforma a violência em reação inevitável, reforçando uma visão machista e perigosa.
6. A cena do estupro traz uma desculpa explícita: “ele estava bêbado”. Ao colocar o álcool como fator atenuante, o texto suaviza a responsabilidade de Téo e normaliza a agressão como um acidente — um recurso ético e narrativamente problemático.
7. Clarice fica paraplégica após Téo enfiar uma faca em sua coluna. Qualquer exame básico revelaria que a lesão foi causada por um objeto cortante, mas o livro força a narrativa de que foi um “acidente”. Uma escolha que desconsidera completamente a realidade médica para manter a versão do agressor.
8. Em um trecho, Téo e Clarice são parados pela polícia. Ela está desacordada, com sinais claros de violência, e ninguém desconfia de nada. Numa situação real, é praticamente impossível que um policial não investigasse — mais um exemplo de como a narrativa protege Téo.
9. Em todas as estadias, seja em pousadas ou hotéis, ninguém estranha o comportamento de Téo ou o estado de Clarice. Lugares com alta rotatividade e limpeza constante inevitavelmente teriam vestígios, mas o livro força uma “cegueira” coletiva para manter a trama funcionando.
10. Quando Téo mata o namorado de Clarice, a cena é apresentada como um acidente, um ato de defesa. O esquartejamento do corpo, por sua vez, é tratado como solução prática, quase lógica. Além de ignorar o impacto real (sangue, cheiro, vestígios), o texto evita retratar Téo como cruel — mais um atenuante para o agressor.
11. Téo convence Clarice de que ela mesma matou o namorado, por estar sob efeito de remédios, mesmo que ela se lembre de todo o resto. Essa amnésia seletiva não faz sentido narrativo nem psicológico. É um recurso frágil, criado apenas para culpabilizar a vítima.
12. Clarice fica quase 90 dias sem ser vista pelos pais. Eles aceitam poucas ligações telefônicas, sem estranhar o comportamento, sem pedir provas, sem acionar a polícia. Na prática, esse cenário é altamente improvável, mas o livro depende dessa ausência para manter Téo no controle.
13. No final, o médico oferece uma explicação absurda para a perda de memória de Clarice, apagando apenas o que a faria se lembrar dos abusos. Essa solução soa mais como um recurso de novela do que como um thriller realista.
14. A cena final, em que Clarice menciona o nome “Gertrudes” — usado por Téo para apelidar um cadáver —, sugere que ela recuperou a memória, mas permanece com ele por escolha. Isso é gravíssimo: transforma uma vítima de sequestro e estupro em alguém que “aceita” o agressor, romanticizando um ciclo de violência.
15. O livro trata personagens gordos e anões como caricaturas grotescas, incômodas, decorativas. Sem qualquer reflexão crítica, reproduz gordofobia e capacitismo como parte da estética.
16. Téo tem dificuldades financeiras após a morte do pai, mas, ao longo do livro, banca viagens, hospedagens, remédios, combustível e equipamentos. Essa incoerência nunca é explicada: ele é pobre quando a narrativa precisa, mas rico quando convém.
17. O livro usa dois acidentes de carro como atalhos narrativos: o primeiro, com a mãe de Téo, o “liberta” de responsabilidades; o segundo, no final, justifica a amnésia seletiva de Clarice. É a repetição de um mesmo recurso para abrir e fechar a história.
18. A fixação de Téo por Clarice surge do nada. Não há construção emocional que sustente essa virada. Além disso, sua percepção sobre a aparência dela muda conforme o enredo precisa: primeiro ele a acha feia, depois exótica, depois linda. Não há coerência psicológica; há conveniência narrativa.
19. Clarice escreve um roteiro durante a história, mas ele não tem peso narrativo, não dá voz à personagem, não avança o enredo. Parece existir apenas para ecoar obras como “O Colecionador“, mas sem desempenhar a mesma função de resistência que essas referências tinham.
20. Obras como “O Colecionador” e “Encaixotando Helena” também falam sobre cárcere feminino, mas não tentam justificar o agressor. Em “Dias Perfeitos“, ao contrário, a escolha de uma terceira pessoa colada em Téo, somada a todos os atenuantes, normaliza o sequestro e silencia Clarice.
21. Alguns leitores defendem que o livro pode ser “cru” por ser terror. Mas o argumento não se sustenta. Bom terror denuncia a violência; não a estetiza, não a romantiza, nem reforça a narrativa de que “a mulher provoca e o homem reage”.
22. Na primeira vez que Téo ataca Clarice, ele usa um livro de Clarice Lispector para acertá-la na cabeça. Lispector é uma das maiores vozes da subjetividade feminina na literatura. Usar sua obra como arma contra uma personagem chamada Clarice ecoa uma metáfora não-intencional: a palavra feminina sendo usada para silenciá-la.
O realismo que “Dias Perfeitos” tenta sustentar não resiste a uma análise mínima. Médicos, policiais, familiares e amigos falham de formas improváveis, convenientes. A narrativa suaviza os crimes, embeleza os cenários, silencia Clarice e mantém Téo no centro, sempre frio, lógico.
Para entender por que “Dias Perfeitos” é tão problemático, vale olhar para outras histórias que partem de premissas semelhantes: o cárcere, a obsessão e a relação entre agressor e vítima. Um exemplo é “O Colecionador“, de John Fowles. No livro, Frederick sequestra Miranda e a mantém presa, mas o texto jamais tenta justificar o agressor. O romance alterna perspectivas: primeiro acompanhamos a narrativa de Frederick, mas depois temos acesso ao diário de Miranda. Isso dá voz à vítima, permite que o leitor conheça seu medo, sua resistência, seus desejos e frustrações. O sequestro não é romantizado; ele é mostrado como violento, patético e trágico.
Outro exemplo é o filme “Encaixotando Helena“, dirigido por Jennifer Lynch. A história acompanha um cirurgião obcecado que prende uma mulher e, em um ato extremo, amputa seus membros para que ela dependa totalmente dele. O filme, porém, não valida a perspectiva do algoz: o desconforto é intencional, e a narrativa trata o protagonista como alguém doente, perigoso e cruel. Não há atalhos para limpar sua imagem, nem qualquer sugestão de que a vítima “corresponde” aos delírios dele.
Enquanto as duas obras anteriores constroem narrativas críticas, que desmascaram o horror e evidenciam a violência, “Dias Perfeitos” faz o oposto: normaliza o abuso e silencia a vítima. A consequência é uma história que, consciente ou não, reproduz estereótipos e reforça dinâmicas perigosas.
O resultado é um livro que não choca pelo horror que revela, mas pelo horror que normaliza. É menos um retrato do mal e mais um espelho de estereótipos — onde os “dias perfeitos” só existem enquanto a mulher não tem voz.
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| AUTOR: Raphael Montes EDITORA: Companhia das Letras PUBLICAÇÃO: 2014 PÁGINAS: 320 |

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