28 de julho de 2025

FOBIA – NOSSOS MAIORES MONSTROS

Prepare sua mente para encarar seus maiores medos. “Fobia” traz uma coletânea de histórias que farão até sua alma se arrepiar de pavor. Ao longo de cinco contos repletos de terror e de um suspense sufocante, sua própria sanidade será testada além do limite.

Ao mergulhar em “Fobia“, fui imediatamente envolvido pela maneira como Katsunori Hara constrói o terror a partir do ordinário. Desde as primeiras páginas, senti uma tensão quase física, que cresce silenciosa, implacável, até explodir em cenas profundamente perturbadoras.

Cada volume reúne cinco contos independentes, mas, para mim, eles funcionam como capítulos de uma única investigação sobre a fragilidade da mente humana. Em vez de recorrer a monstros sobrenaturais, Hara direciona o olhar para aquilo que mais nos assombra: nossos próprios medos, silenciosos e persistentes, que vivem dentro de nós.

No conto de abertura, conhecemos Tiemi Hashida e sua fobia de frestas. É inquietante perceber como algo aparentemente banal — um zíper entreaberto, a boca aberta num bocejo — pode ser o gatilho para um desespero absoluto. Essa história me fez refletir sobre como pequenas rachaduras na psique podem abrir passagem para o terror.

Logo depois, Risa encarna uma ansiedade cotidiana: o medo de exalar mau cheiro. À primeira vista, parece um incômodo banal, quase cômico. Mas conforme o enredo avança, seu desespero se torna sufocante, e percebi o quão devastadora pode ser uma fobia aparentemente trivial quando ela começa a controlar cada gesto, cada pensamento.

A história de Yuichiro, um homem bem-sucedido que subjuga uma modelo ao terror das alturas, me atingiu com força pela reviravolta cruel. Ver o agressor se tornar vítima do próprio jogo de poder me lembrou que, muitas vezes, quem provoca o medo pode acabar esmagado por ele.

Em Nishizawa, encontrei uma metáfora potente sobre a exploração do corpo feminino. A fobia de multidões não é apenas sobre aglomerações, mas sobre o olhar constante, invasivo, que reduz uma mulher a objeto de desejo — um reflexo cruel de uma sociedade que consome corpos com naturalidade.

O conto de Iguchi, preso em um cubículo que se enche de água, é um dos mais angustiantes. Mais do que claustrofobia, é sobre a sensação de impotência diante de forças invisíveis e incontroláveis. A água que sobe devagar é o espelho do trauma que aperta por dentro, sem aviso.

A arte de Yukiko Goto amplifica tudo isso de forma precisa. Seus traços limpos, sua composição cuidadosa entre luz e sombra, transmitem cada nuance de desespero. A expressão dos personagens, muitas vezes silenciosa, reverbera com força — e eu senti isso no corpo, como se o medo escorresse das páginas.

Durante a leitura, aprofundei meus estudos sobre fobias e descobri que esses transtornos de ansiedade podem imobilizar vidas de maneiras inesperadas. Isso deu nova dimensão à obra: percebi que Hara não exagera, mas retrata com precisão o tipo de resposta extrema que o medo é capaz de provocar.

Preciso dizer, no entanto, que algumas cenas com conteúdo sexual explícito me causaram incômodo. Entendo a intenção de explorar a sobreposição entre prazer e pavor, mas, em certos momentos, tive a impressão de que o erotismo extrapolava seu papel narrativo e soava mais como hipersexualização do que metáfora eficaz.

Ainda assim, reconheço que a força de “Fobia” está justamente em sua recusa em suavizar os horrores. Nem a mente, nem o corpo saem ilesos. Há algo de clínico, quase frio, na forma como o mangá expõe o que temos de mais vulnerável — e é essa coragem que o torna tão singular no gênero do terror psicológico.

Minha experiência com a obra foi de espanto e reflexão. Esses contos, nascidos de situações banais, continuaram comigo dias depois, mudando minha percepção do cotidiano. Passei a reparar em gestos, sensações, olhares — em tudo aquilo que, por hábito, costumamos ignorar.

Se você busca um mangá que vá além dos sustos fáceis e se aprofunde em fobias reais, revelando o quanto a linha entre o normal e o patológico pode ser frágil, “Fobia” merece sua atenção.

Apesar do conteúdo gráfico e das temáticas difíceis, considero esta obra uma exploração corajosa do que nos paralisa por dentro — e um lembrete doloroso de que nossos maiores monstros não vivem lá fora, mas no labirinto dos nossos próprios pensamentos.


AVALIAÇÃO:


AUTOR: Katsunori Hara
ILUSTRAÇÕES: Yukiko Gotou
EDITORA: JBC
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 200
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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