27 de março de 2026

HARRY POTTER — CONSUMIR É SUSTENTAR O ATAQUE

Eu não trato mais esse assunto como simples “polêmica de internet”. Para mim, já passou há muito tempo do ponto em que seria possível reduzir tudo a opiniões controversas de uma autora famosa. O que existe hoje é algo mais concreto: J.K. Rowling transformou sua posição sobre pessoas trans em atuação pública, política e financeira. Ela escreve, publica, pressiona, celebra vitórias jurídicas e financia estruturas voltadas a defender o que chama de “sex-based rights”, expressão que, na prática, tem sido usada para sustentar exclusões de mulheres trans de espaços, proteções e reconhecimentos legais.

Isso importa porque há uma diferença fundamental entre ter uma opinião e investir dinheiro, reputação e poder para convertê-la em efeito institucional. No caso de Rowling, essa passagem está documentada. Em seu site oficial, ela mantém textos extensos em que apresenta sua visão sobre “sexo e gênero” e associa pautas trans a riscos para mulheres em espaços segregados por sexo. Esse posicionamento não ficou restrito a um comentário isolado: ele se tornou linha de atuação contínua.

Um marco importante foi o apoio público a Maya Forstater, em 2019. Na época, Rowling saiu em defesa de Forstater depois que a pesquisadora perdeu um vínculo de trabalho por postagens sobre identidade de gênero. Aquela manifestação já indicava, com clareza, o lado em que Rowling escolheria se colocar nesse debate. Não era apenas uma reação espontânea; era um alinhamento público com a vertente “gender-critical”, que contesta o reconhecimento de identidades trans em vários contextos legais e sociais.

Em 2020, esse posicionamento ganhou escala global quando Rowling atacou a expressão “people who menstruate” e publicou um longo ensaio explicando por que decidiu “falar sobre sexo e gênero”. Nesse texto, ela afirma que pessoas trans merecem proteção, mas ao mesmo tempo sustenta argumentos usados há anos para justificar restrições contra elas, especialmente em banheiros, vestiários e outros espaços destinados a mulheres. É justamente essa combinação que torna seu discurso tão grave: uma linguagem de aparente razoabilidade embalada em argumentos que, no mundo real, alimentam exclusão.

Depois disso, Rowling não recuou. Em 2024, voltou ao centro da controvérsia ao desafiar a nova lei escocesa de crimes de ódio com postagens em que chamava mulheres trans de homens e praticamente convidava o Estado a processá-la. O episódio foi tratado por ela e por seus apoiadores como defesa da liberdade de expressão. Para mim, o mais importante ali é outro ponto: quando uma bilionária usa sua plataforma para normalizar o misgendering público e transformar isso em espetáculo político, ela não está apenas “participando do debate”. Ela está ajudando a tornar mais aceitável a humilhação pública de um grupo já vulnerável.

Mas o aspecto mais decisivo, e que costuma ser varrido para debaixo do tapete por fãs e defensores ocasionais, é o dinheiro. Rowling não se limita a falar. Ela financia. O exemplo mais conhecido é seu apoio ao grupo For Women Scotland, que levou aos tribunais uma disputa central sobre a definição legal de “mulher” no Reino Unido. Em 2025, a Suprema Corte britânica decidiu que, para fins da Equality Act, a palavra “woman” se refere ao sexo biológico. A decisão foi celebrada pelos grupos que promovem restrições à inclusão de mulheres trans, e a própria Rowling comemorou publicamente o resultado. A imprensa também registrou que ela apoiou financeiramente a campanha do grupo com dezenas de milhares de libras.

Aqui, eu acho importante ser preciso. Não se trata de dizer que Rowling inventou sozinha a ofensiva anti-trans no Reino Unido, porque isso seria simplificador. O que se pode dizer, com segurança, é que ela se tornou uma de suas figuras mais influentes e úteis. Sua fortuna, sua celebridade e seu prestígio cultural ajudam a dar escala, legitimidade e musculatura a essa agenda. Quando uma pessoa com esse alcance entra numa disputa, ela altera a correlação de forças.

Esse quadro fica ainda mais explícito com a criação do J.K. Rowling Women’s Fund. O próprio site do fundo informa que ele oferece apoio jurídico a indivíduos e organizações que lutem para preservar os chamados “sex-based rights” de mulheres e meninas, inclusive em ambiente de trabalho, esportes, clubes e “single-sex spaces”. O site também deixa claro que o fundo está priorizando casos que deem efeito prático à decisão da Suprema Corte no caso For Women Scotland. Em outras palavras: não estamos diante de uma autora apenas emitindo opiniões pessoais; estamos diante de uma estrutura criada para bancar litígios e consolidar precedentes numa direção bastante específica.

Para mim, esse é um dos pontos mais difíceis de ignorar. Porque a discussão deixa de ser abstrata. O dinheiro existe. O mecanismo existe. O objetivo é declarado. E o alvo político também. Quando alguém ainda tenta resumir tudo a “cancelamento”, “discordância legítima” ou “opinião conservadora”, eu vejo menos análise do que recusa em encarar a evidência.

Há também a fundação de Beira’s Place, descrita no site oficial de Rowling como um serviço gratuito, em Edimburgo, voltado a mulheres que sofreram violência sexual ou abuso, definido como “women-only”. O ponto aqui não é negar a importância de estruturas de acolhimento para vítimas de violência. O ponto é perceber como Rowling incorpora a exclusão de mulheres trans ao modo como organiza sua filantropia e sua intervenção pública. Isso importa porque reforça, institucionalmente, a ideia de que mulheres trans devem ser tratadas como uma presença indevida até mesmo em espaços de cuidado.

É justamente por isso que eu não compro a conversa de que “ler Harry Potter hoje não tem nada a ver com isso”. Tem, sim — ainda que não de maneira simplista. A obra alimenta a marca; a marca alimenta a fortuna; a fortuna alimenta a influência; e essa influência já está sendo usada para financiar iniciativas que restringem a vida de pessoas trans.

Esse elo é o centro moral da discussão. Consumir produtos de uma franquia desse tamanho não é um gesto neutro. Não porque cada compra vá se converter magicamente num panfleto anti-trans, mas porque cada compra ajuda a manter valor econômico, relevância cultural e capacidade de mobilização de uma marca associada à autora. Em franquias globais, relevância também é moeda. Bilheteria, streaming, licenciamentos, edições especiais, colecionáveis, parques, adaptações e engajamento permanente mantêm vivo um ecossistema que continua enriquecendo e ampliando o peso público da pessoa que o controla ou simboliza. O próprio site de Rowling apresenta a expansão contínua desse universo e destaca os direitos de publicação e marcas ligadas ao Wizarding World.

É por isso que eu acho raso quando tentam relativizar dizendo que “todo consumo é contraditório”. É verdade que quase todo consumo envolve contradições. Mas isso não apaga diferenças de grau, de proximidade e de efeito. Existe diferença entre usar uma infraestrutura digital quase inevitável e consumir deliberadamente uma franquia específica cuja autora emprega sua riqueza e sua visibilidade em campanhas que atingem diretamente uma minoria. Dizer isso não é pose de pureza moral. É só reconhecer que nem toda contradição pesa do mesmo jeito.

Também me incomoda profundamente o modo como parte do debate reduz pessoas trans a uma abstração conveniente. Fala-se de “ideologia”, “debate biológico”, “espaços protegidos”, “liberdade de expressão”, mas no fim quem absorve o impacto concreto são pessoas reais. Gente que já enfrenta violência, deslegitimação, humilhação pública, exclusão institucional e vigilância constante sobre o próprio corpo e a própria identidade. Quando uma bilionária transforma esse grupo em tema recorrente de campanha, ela não está “apanhando por falar a verdade”. Ela está mirando para baixo, com recursos que a maioria das pessoas atacadas jamais terá.

Por isso, para mim, o ponto não é medir quem é moralmente puro. O ponto é perguntar de forma honesta: onde meu dinheiro, minha atenção e minha defesa pública estão indo parar? Essa pergunta não exige perfeição. Exige responsabilidade. Se eu sei que uma figura pública usa sua fortuna para pressionar juridicamente e simbolicamente contra pessoas trans, continuar fortalecendo sua marca deixa de ser um gesto inocente. Pode até ser um gesto afetivo, nostálgico, automático. Mas inocente não é.

Eu entendo que muita gente tenha vínculo emocional com Harry Potter. Entendo de verdade. Para uma geração inteira, essa obra foi linguagem de infância, amizade, pertencimento e imaginação. Justamente por isso tanta gente resiste a encarar o que Rowling se tornou politicamente. Só que afeto não muda fato. Nostalgia não neutraliza dano. E admiração antiga não transforma em exagero aquilo que já está registrado em sites oficiais, reportagens e decisões judiciais.

No fim, é isso que eu considero impossível ignorar: J.K. Rowling não está apenas dizendo coisas ofensivas. Ela está ajudando a financiar uma infraestrutura política, jurídica e cultural que busca limitar o reconhecimento e a inclusão de pessoas trans. E, quando a fortuna que torna isso possível é sustentada também pela permanência comercial de sua obra, o consumo deixa de ser uma escolha isolada e passa a participar, ainda que indiretamente, desse circuito de poder.

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

REDES SOCIAIS

Mais Lidos

4 190.1K views

A PACIENTE SILENCIOSA

21 de julho de 2021
Gabriel é um fotógrafo talentoso e conhecido, que faz trabalhos para revistas famosas. Alicia é uma pintora excepcional, seus quadros possuem características
5 182.7K views

GENTE ANSIOSA

7 de outubro de 2021
Dez anos atrás, um homem pulou de uma ponte e morreu. Um garoto presenciou tudo, mas não conseguiu chegar a tempo de
Ir paraTopo

Não perca

TERMINEI MEU LIVRO. E AGORA? O QUE NINGUÉM CONTA SOBRE ESCREVER E PUBLICAR NO BRASIL

Quando eu terminei meu livro, achei que a parte difícil

8 DE MARÇO: UMA HISTÓRIA DE LUTA QUE AINDA NÃO TERMINOU

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março,