8 de fevereiro de 2026

O CARNAVAL E A LITERATURA

Estamos em fevereiro e o carnaval volta a ocupar espaço no noticiário cultural, nas conversas e no calendário emocional das cidades. Para além do evento em si, ele também reaparece como um tema recorrente na literatura brasileira, não apenas como pano de fundo festivo, mas como recurso para observar comportamentos coletivos, regras sociais em suspensão, disputas de linguagem e formas de representar o país.

Quando a gente coloca lado a lado romance, conto, teatro, poesia e ensaio, fica claro que carnaval na literatura funciona em várias camadas: pode ser ideia, pode ser recorte de tempo, pode ser ambiente dramático e pode ser, inclusive, uma forma estética.

Um ponto de partida eficiente, porque já anuncia a ambição simbólica, é “O País do Carnaval“, de Jorge Amado, publicado em 1931. O fato de o carnaval estar no título desloca a festa do lugar de tema episódico para a posição de chave interpretativa: o Brasil é pensado a partir dessa imagem. Não é preciso transformar o romance em tratado sociológico para perceber que o carnaval, aqui, é usado como uma espécie de síntese, um modo de falar do país por meio de um elemento cultural que concentra contradições e expectativas. Nesse sentido, a obra serve como porta de entrada para discutir como a literatura brasileira frequentemente recorre ao carnaval para construir um retrato do Brasil, e não apenas um registro de temporada.

Essa ideia fica mais organizada quando se aproxima de uma leitura social do carnaval como ritual. Em “Carnavais, malandros e heróis“, Roberto DaMatta oferece um vocabulário que ajuda a sustentar o ensaio sem depender de impressões: o carnaval aparece como um drama social, um rito em que tensões entre norma e transgressão, hierarquia e inversão, formalidade e improviso se tornam mais visíveis. A utilidade disso, para quem escreve um texto de crítica cultural mais leve, é simples: em vez de dizer que o carnaval revela a sociedade, você consegue mostrar que há uma tradição de leitura do carnaval como um mecanismo social e simbólico. E, a partir daí, fica mais fácil explicar por que tantas narrativas usam o carnaval como ambiente de exposição pública, deslocamento de papéis e aceleração de conflitos.

Mas nem sempre o carnaval entra na literatura pela via do símbolo nacional. Em alguns livros, ele aparece como marca de tempo, como parte do calendário que organiza o cotidiano. “O Amanuense Belmiro“, de Cyro dos Anjos, publicado em 1937, é um exemplo particularmente útil para esse ângulo porque descrições editoriais destacam o recorte temporal do diário indo do Natal de 1934 ao Carnaval de 1936. Para um ensaio, esse detalhe tem força: o carnaval funciona como referência de época e como ponto de ancoragem do ritmo social. Em vez do carnaval como explosão narrativa, ele aparece como um marco que ajuda a situar a vida comum dentro da cidade, do tempo histórico e do hábito brasileiro de medir o ano também por suas festas.

Quando o foco passa do calendário para o conflito, Aníbal Machado é uma espécie de eixo central. O conto “A morte da porta-estandarte” é um caso direto de carnaval como cenário estruturante: ele é associado ao ambiente de desfile e à figura da porta-estandarte como elemento central. Para a leitura crítica, o interesse não está em tratar o carnaval como alegria traída, mas em observar como a multidão e o espaço público mudam as relações. Em contextos carnavalescos, o que seria privado se torna público com mais facilidade, seja por proximidade física, por circulação de boatos, por exposição, por velocidade de reação. Isso dá ao conto uma função importante dentro de um ensaio sobre carnaval e literatura: mostrar como a festa pode operar como acelerador narrativo, porque ela reúne corpo, rua e visibilidade em poucos metros.

Esse mesmo autor também permite discutir o carnaval como uma questão formal, não apenas temática. “João Ternura“, romance publicado postumamente, tem um trecho reconhecido por leitura crítica como parte do Carnaval, analisado como um recorte com lógica própria. Esse ponto é valioso para sustentar uma afirmação mais precisa: em certos livros, o carnaval não aparece só como referência; ele organiza uma seção inteira, impõe um ritmo, autoriza uma percepção diferente do cotidiano e cria um regime narrativo que se separa do restante da obra. É uma maneira de dizer que o carnaval, na literatura, pode ser estrutura interna, quase como um capítulo de mundo com regras próprias.

No teatro, “Orfeu da Conceição“, de Vinicius de Moraes, ajuda a consolidar a relação entre carnaval, música e dramatização urbana. A peça foi escrita em 1954 e estreou em 25 de setembro de 1956, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e sua descrição explicita a transposição do mito de Orfeu para um contexto de favela carioca ligado ao samba e ao carnaval. Dentro do ensaio, essa obra cumpre duas funções práticas. Primeiro, ela mostra como o carnaval não está apenas na prosa ou na crônica: ele entra na construção de uma cena teatral que depende de sonoridade, performance e contexto cultural. Segundo, ela permite falar do carnaval como moldura dramática — não como ornamento — porque é essa moldura que define o ambiente social onde a história se desenrola e onde a tragédia se torna inteligível para o público.

Se até aqui o carnaval entrou como símbolo, calendário, cenário e estrutura, ainda falta uma camada importante: o carnaval como linguagem. Em poesia, “Carnaval“, de Manuel Bandeira, publicado em 1919, permite discutir o tema sem depender de descrição de rua. O próprio livro, associado com frequência ao poema “Os sapos“, oferece um caminho para falar do carnaval como operação estética: humor, sátira, desvio de solenidade, tensão entre forma e liberdade. Aqui o carnaval é menos evento e mais método, um modo de construir poesia que se permite variações de tom, atritos com o gosto dominante e uma relação mais aberta com o riso e com a quebra de protocolos. Para um ensaio de viés jornalístico-cultural, isso é especialmente útil porque desloca a conversa do carnaval como tema para carnaval como forma, uma distinção que costuma melhorar a qualidade do argumento sem transformar o texto em academicismo.

Outro ganho, ainda dentro do objetivo de fazer um panorama consistente, é evitar a redução do carnaval a uma única tradição urbana. “Arlequim de carnaval“, de Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima, ajuda justamente porque desloca o olhar para o carnaval recifense, com descrições destacando frevo e maracatu como elementos do universo do livro. No ensaio, isso funciona como um ajuste de escala: a literatura brasileira pode tratar do carnaval como experiência regional com repertório próprio, e a presença dessas marcas lembra que carnaval não é um objeto homogêneo. Para quem escreve em tom de blog literário, esse tipo de deslocamento é importante porque evita o caminho mais previsível e amplia o alcance do texto sem forçar generalizações.

Por fim, para dar sustentação histórica sem sair do registro leve, “A subversão pelo riso“, de Rachel Soihet, cumpre bem o papel de amarração. O livro se propõe a estudar o carnaval carioca popular da Belle Époque ao tempo de Vargas, um recorte em que a festa aparece como terreno de disputa cultural e de negociação de regras: o que pode, o que não pode, o que se tolera, o que se reprime e como o riso funciona como prática social. A presença dessa obra num ensaio literário tem duas vantagens. A primeira é contextual: ela ajuda a lembrar que o carnaval, como fenômeno urbano e popular, sempre esteve ligado a debates sobre costumes, controle e espaço público. A segunda é interpretativa: ela dá base para entender por que textos literários e dramáticos frequentemente associam carnaval a máscara, riso, inversão e exposição — não como metáforas abstratas, mas como aspectos da própria experiência social da festa.

Reunindo todas essas obras, o que se forma é um conjunto de usos relativamente nítidos do carnaval na literatura brasileira. Em “O País do Carnaval“, ele se coloca como ideia que permite discutir o Brasil. Em DaMatta, ele aparece como ritual que organiza tensões sociais, oferecendo uma moldura para ler a festa como mecanismo, não como decoração. Em “O Amanuense Belmiro“, ele atua como marcador temporal do cotidiano e do clima de época. Em Aníbal Machado, ele se torna cenário de conflito (“A morte da porta-estandarte“) e também estrutura interna (“João Ternura“). Em “Orfeu da Conceição“, ele entra como moldura cultural e sonora para uma dramaturgia urbana. Em Bandeira, o carnaval funciona como forma estética e como chave para discutir linguagem e ruptura. E, em “Arlequim de carnaval“, ele aparece como experiência regional com repertório próprio, lembrando que o carnaval brasileiro é múltiplo na prática e, por consequência, múltiplo na literatura. Soihet fecha o arco ao fornecer um pano de fundo histórico que ajuda a ler o carnaval como terreno de disputa, sem que o ensaio precise virar aula.

Uma coisa que eu quis fazer questão de acrescentar — porque ajuda a tirar o tema do pedestal e trazer para o presente — é olhar para o carnaval também fora do circuito mais óbvio da literatura consagrada. Enquanto eu pesquisava e organizava as obras para este texto, apareceu com muita força um outro tipo de produção: livros nacionais contemporâneos publicados de forma independente, além de títulos que convivem no mesmo espaço com editoras tradicionais. Isso é interessante porque mostra, de um jeito bem concreto, que o carnaval continua sendo um assunto literário vivo e produtivo, não só um tema histórico ou um símbolo já cristalizado.

Essas obras independentes têm um comportamento diferente do romance de catálogo tradicional: elas respondem rápido ao calendário, aproveitam o período como gatilho de leitura e apostam em formatos muito diretos: contos, histórias curtas, séries com volumes numerados, antologias temáticas. E o carnaval aparece nelas quase sempre como cenário e engrenagem narrativa: é o ambiente em que encontros e desencontros acontecem, em que a cidade vira palco, em que a festa cria situações improváveis ou acelera decisões. Mesmo quando o tom é romântico e mais leve, o mecanismo é parecido com o que eu observei nas obras do corpus principal: o carnaval funciona como um recorte de tempo social em que as regras mudam, a exposição pública aumenta e as relações ganham outra velocidade. A diferença é que, aqui, isso vem filtrado por uma escrita pensada para consumo imediato, com linguagem simples, capas chamativas e uma circulação digital muito mais rápida.

Para quem quiser explorar esse lado mais contemporâneo e popular da literatura nacional com carnaval como referência, deixo uma lista dos títulos e autoras/autores que aparecem nessa vitrine:

Carnaval — Luiza Trigo.
52 Dias de Carnaval: Ciência do Amor — Raquel Figueiredo.
(Des)Encontros de Carnaval — Nathalia Cabral e Henri B. Neto.
Loucuras de Carnaval — Clara Alves, Lola Salgado e outros.
Um Amor de Carnaval no Rio de Janeiro — Mila Coren.
Amor de Carnaval — Mila Coren.
Romances de Carnaval — Luciana Falcão.
Aquela Noite: Um inesquecível Carnaval — Julia Fernandes.
O Pierrot & o Arlequim – Carla de Sá.

O resultado, no fim, é menos uma celebração abstrata e mais um diagnóstico literário: o carnaval, quando entra na escrita, costuma entrar porque ele reorganiza o mundo por alguns dias — no símbolo, no calendário, na rua, no palco e na linguagem. Isso explica por que o carnaval continua sendo um tema útil para a literatura brasileira: ele oferece um recorte concentrado de vida pública e privada, com regras em transição, e fornece material para autores explorarem identidade, cidade, conflito e forma. Em um país em que o carnaval é, ano após ano, uma referência coletiva, a literatura faz o que sempre fez com fenômenos sociais fortes: transforma a experiência em estrutura, em narrativa e em linguagem.

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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