4 de fevereiro de 2026

GAROTA ASSOMBRA GAROTO – ENTRE O LUTO E O SOBRENATURAL

Avaliação

ENREDO
7/10
PERSONAGENS
7/10
ESCRITA
6/10
RITMO
8/10
ORIGINALIDADE
8/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
8/10
Geral
7.3/10
AUTOR: Cesar Vitale • 2025 • PÁGINAS: 192

A trama acompanha Cole Sanchez, um adolescente tentando recompor os cacos após a morte repentina do pai. É nesse contexto que acontece a mudança: ele e a mãe deixam o caos de Nova York para trás e partem para Spectral Valley, uma cidade pequena que promete o clássico combo de recomeço, paz e ar puro. Contudo, a calmaria dura pouco. A casa nova parece carregar uma presença própria — sons estranhos, objetos que mudam de lugar e quadros que caem do nada sugerem que Cole não está exatamente sozinho naquele espaço.

O elemento que amarra toda a narrativa surge na forma de um anel verde cintilante, escondido em uma caixa. Ao tocá-lo, o sobrenatural ganha contornos reais: Cole passa a enxergar quem sempre esteve ali. Trata-se de Beatrix Jenkins, a Bea, uma garota-fantasma que assombra o lugar há um século por um motivo que nem ela compreende totalmente. Um dos maiores méritos do livro é como ele conduz essa relação sem transformar Bea em uma entidade maligna ou em uma vítima melancólica; ela possui presença, personalidade e uma humanidade pulsante.

O que me cativou de imediato foi o contraste de energias entre os dois. Cole chega emocionalmente destruído — e a morte do pai não é um mero pretexto para a mudança, mas o verdadeiro motor emocional da história. Enquanto ele tenta reorganizar seu mundo, sua rotina e a própria identidade, surge Bea: divertida, aventureira e com uma vontade de viver que, ironicamente, desafia sua condição de fantasma. Essa dinâmica funciona muito bem porque ela não é feita apenas de tristeza, mas de uma curiosidade genuína pelo mundo que deixou para trás.

A casa, inclusive, assume o papel de um personagem à parte. Mais do que um cenário assombrado, ela simboliza um espaço onde o passado se recusa a ir embora, sugerindo que o presente não consegue se estabilizar enquanto houver algo pendente. Honestamente, essa é uma metáfora brilhante para o luto. A dor da perda faz exatamente essa bagunça interna: desloca sentimentos, faz barulho no silêncio e impõe uma presença invisível no cômodo, mesmo quando estamos tecnicamente sozinhos.

O anel é outro recurso narrativo muito inteligente. Ele não é só um objeto estético; é o mecanismo que cria a ponte e, simultaneamente, estabelece o limite entre os mundos. Como existe uma regra — uma “chave” para enxergar Bea —, o objeto vira uma analogia direta: há coisas que só enxergamos quando decidimos tocar naquilo que nos incomoda. No momento em que Cole decide “ver” Bea, ele também deixa de fingir que pode seguir em frente como se nada tivesse acontecido. O anel representa essa escolha constante entre encarar a realidade ou ignorá-la.

Quanto ao romance, o livro me conquistou justamente por fugir do clichê do “final feliz automático”. O vínculo entre Cole e Bea nasce de uma intimidade quase inevitável, amarrada pela música — uma linguagem emocional poderosa que preenche os silêncios onde as palavras falham. De forma gradual, o que começa como medo e curiosidade evolui para a convivência, transformando-se em um laço profundo e permanente.

No entanto, quando você já está totalmente investido no casal, a história lança a pergunta que dói. Cole descobre um meio de desfazer a maldição que prende Bea à casa, mas libertá-la significa, inevitavelmente, perdê-la. O coração do livro reside nessa escolha angustiante: o que é melhor, amar alguém que está preso a você ou amar alguém livre, mesmo que longe?

A mensagem mais forte da obra está nesse dilema. Por mais que venha embalada em elementos fantásticos, ela fala de sentimentos muito reais: o amor não como posse, mas como cuidado. E, às vezes, cuidar exige o desapego de deixar ir. O peso emocional é amplificado pelo fato de Cole já carregar o buraco deixado pela perda do pai; ele é testado justamente em sua maior ferida, precisando olhar para quem ama e aceitar a ideia do adeus mais uma vez. Não é apenas um romance impossível, é um personagem sendo confrontado por sua própria dor.

No fim, “Garota Assombra Garoto” se destaca no gênero Young Adult por entender a intensidade adolescente sem cair no melodrama vazio. O livro respeita esse período da vida em que tudo parece definitivo e usa essa energia para chegar a uma reflexão madura: a vida nem sempre oferece o final perfeito, mas ainda pode oferecer um final significativo.

É uma história que veste o sobrenatural para falar sobre o que resta quando alguém vai embora; sobre recomeçar sem apagar o passado. Terminei a leitura com uma sensação mista de doçura e aperto no peito, percebendo que o que realmente impacta é a certeza de que algumas pessoas cruzam nosso caminho justamente para nos ensinar que amar também é saber soltar.

Para completar, há uma camada extra de interesse na conexão direta com o filme. Ter a arte da produção na capa já estabelece uma identidade visual imediata. Em vez de rostos abstratos, os personagens já vêm com uma estética e uma energia prontas, mergulhando o leitor nesse universo cinematográfico antes mesmo da primeira página ser virada.

 

 

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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