O livro “Naruse vai dominar o mundo” é uma grandiosa alegoria poética sobre a beleza do cotidiano, mas, acima de tudo, é uma reflexão sincera e potente sobre o existir.
Naruse existe no seu mundo, no de sua melhor amiga, no de seus vizinhos. Existe até mesmo quando não está fisicamente ali. Naruse é tão individualmente diferente quanto é, comparativamente, humana e comum.
Mas calma, vamos por partes.
Mina Miyajima é uma mulher de 42 anos, formada em Letras, e este é seu romance de estreia. E ela brilha. Brilhou, obviamente, ao receber o “Honya Taisho Booksellers Award 2024“, o maior prêmio literário do Japão. Suponho eu, totalmente desprovida de mais informações contextuais sobre a premiação, que ela funcione para o Japão de forma similar ao nosso “Prêmio São Paulo de Literatura“. Ou seja, obras sensíveis e potentes. Histórias que, no mar de lançamentos editoriais, possuem alma. E que têm o que dizer.
Aliás, falando em dizer: preciso falar da capa. Não sei se é justo, mas não tem como não dizer. A capa de “Naruse vai dominar o mundo” é de uma graciosidade sagaz. E faz jus à história, sim.
O livro é consideravelmente curto, com 189 páginas de parágrafos fluidos, diálogos rápidos e uma fonte serifada em um tamanho que parece pensado para quem, como eu, precisa de óculos (agradecimentos sinceros da minha miopia e astigmatismo). A sensação que tive é que o conteúdo ocuparia menos páginas, o que de maneira alguma é uma crítica. A leveza do projeto gráfico casa com o que a história quer ser. Rápida, mas não vazia.
Digo isso para constatar que “Naruse vai dominar o mundo” é uma leitura rápida. É o tipo de livro que se lê numa lapada só. Embora eu tenha demorado mais de um mês para concluí-lo (a culpa foi exclusivamente minha e da minha vida profissional).
Mas o que importa é que “Naruse vai dominar o mundo” pode ser lido rápido. Ou devagar. E, de todo jeito, funciona.
Ao iniciar a história pelo ponto de vista de Miyuki Shimazaki, que ainda não é a melhor amiga de Naruse, pensei que teria dificuldade. Temi que os regionalismos e as referências culturais de um slice of life japonês criassem uma barreira. Eu me enganei. O que eu não tive de contexto cultural, Mina Miyajima me entregou em sentimento.
Acompanhamos Shimazaki se aproximando de Naruse, uma menina complexamente objetiva e ingenuamente perspicaz. Naruse não é meio-termo, mas também não é dual; ela é diferente. Ela vive pelo que acredita e acredita veementemente em si mesma.
O primeiro fio condutor é a sua reação ao fechamento iminente da Seibu Otsu, uma galeria de lojas local. Enquanto o jornal da cidade faz uma série de reportagens em contagem regressiva para o fechamento, Naruse decide aparecer atrás das câmeras, todos os dias, até o fim.
Rapidamente entendemos que a Seibu Otsu não é apenas um ambiente de comércio. Ela é um símbolo, um lugar de afeto e memória coletiva. É a lembrança do sorvete depois da escola, dos trabalhos em grupo no terraço, dos almoços em família. É um pilar da identidade daquela comunidade. Naruse não está defendendo o comércio; ela está defendendo as lembranças. Bem, pelo menos, é o que eu supus durante a leitura.
No início, pensei que acompanharia toda a trama sob a perspectiva de Shimazaki. E foi quando o livro me surpreendeu positivamente.
No meio da obra, a autora quebra a expectativa e nos entrega um capítulo sob o ponto de vista de outro personagem, alguém de outra série escolar, que apenas tangencia o círculo social de Naruse. A princípio, causa estranhamento. Depois, entendi a genialidade, a Mina usa essa outra voz para reforçar o pilar afetivo da Seibu Otsu e, ao mesmo tempo, nos mostrar como Naruse é percebida por quem está de fora.
Quando eu já esperava outra mudança abrupta, o livro me surpreende novamente, retornando ao círculo social de Naruse, agora com a perspectiva de outro personagem. É tipo um possível interesse amoroso; não dela, mas dele (e aqui me contenho para não dar spoiler).
Depois de lermos tantas pessoas falarem sobre Naruse, sobre o que pensam dela, de suas atitudes e de suas falas, temos o arremate final, os últimos capítulos são, enfim, com a perspectiva da própria Naruse.
Ler tantas percepções externas para, só no fim, acessarmos a fonte, foi um fechamento com chave de ouro. Mina nos faz entender que a existência de Naruse é validada primeiro pelo impacto que causa no mundo, para só então nos permitir entrar em sua mente.
A costura desses pontos de vista nos leva de volta a ela. E, no final, temos Naruse por ela mesma. Um pouco por sua própria voz, um pouco por uma narração externa. E isso, pra mim, fechou bem demais.
Depois de tantas lentes, você finalmente vê o que há no centro. E é genuíno. Como quando Shimazaki diz para Naruse que ela aposta em grandes ideias e depois as abandona. E Naruse pensa:
“Tem algumas coisas que não dá pra saber se não tentar. Naruse não se incomodava com isso. Ela plantava sementes, esperando que uma florescesse. Mesmo que nenhuma flor desabrochasse, a experiência se tornava fertilizante” (p. 175).
Fica engraçado quando você lembra que elas estão falando sobre Naruse ter dito que seria a maior comediante do Japão. Ou que viveria até os 200 anos. Ou que, depois de raspar o cabelo, contaria quantos centímetros ele cresceria.
Eu poderia, aqui, escrever sobre como supus que Naruse talvez estivesse em algum lugar do espectro autista. Mas a autora não escancara isso. É sutil e, ao mesmo tempo, não.
É um livro sobre a coragem de ser quem se é, com todas as complexidades e contradições. Naruse vai dominar o mundo não pela força ou pela estratégia, mas pela simples e revolucionária decisão de, autenticamente, existir.
AVALIAÇÃO: ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
| AUTORA: Mina Miyajima TRADUÇÃO: Natália Rosa EDITORA: Intrínseca PUBLICAÇÃO: 2025 PÁGINAS: 192 COMPRE: Amazon |

REDES SOCIAIS