6 de novembro de 2025

KATÁBASIS – ETERNO RESUMO DE UM ARTIGO NÃO DESENVOLVIDO

A história de “Katabasis” promete muito. Quando me propus a ler, já esperava uma narrativa cheia de referências científicas, até porque é uma dark academia, e de fato recebi todas. Tantas, que foram 472 páginas de citação e nenhuma conclusão ou aprofundamento real de nenhum dos temas.

A premissa segue Alice Law, uma doutoranda em magia analítica que sobreviveu a um dos professores mais arrogantes da academia, Grimes, só para ele morrer antes dela concluir o doutorado. Obcecada pela validação dele, Alice decide ir ao inferno para tentar trazer sua alma de volta. O rival dela, Peter Murdoch, o único outro orientando de Grimes, vai junto nessa jornada.

O inferno é ótimo, cheio de simbologia filosófica e teológica, com referências a Dante e até a Alice no País das Maravilhas. Tinha tudo para ser brilhante. É o cenário perfeito para discutir moralidade, culpa, ambição e a fragilidade da mente humana. Mas tudo morre na referência. O debate não existe, só a menção.

As primeiras páginas são promissoras, trazendo exposição sobre o machismo, a misoginia e a exaustão mental da Alice, mas conforme a história avança, a reflexão sobre os assuntos nunca chega. Nada é aprofundado, e você fica com a sensação de querer falar sobre algo, mas nunca chegar ao assunto.

E os personagens… Peter é um arrogante que se acha moralmente superior, que até tenta ser melhor, mas no fundo é só uma versão mais jovem do próprio Grimes. E Alice, emocionalmente rasa e irritantemente dependente de validação masculina, é uma personagem difícil de engolir. Ela é invejosa, cria rivalidade com qualquer mulher que cruza o caminho dela e tem uma necessidade constante de ser aquela que vai mudar o cara, a que vai transformar o homem emocionalmente distante, frio e machista em alguém melhor por causa dela. Essa busca por aprovação e poder travestida de amor é o que move toda a trajetória dela, e é justamente o que mais me afastou da personagem.

Alice está claramente quebrada, mentalmente em frangalhos, com pensamentos suicidas e uma saúde mental péssima, mas ainda assim acredita que tudo vai se resolver se o Grimes a enxergar, se o Peter a desejar, se algum homem disser que ela é boa o suficiente. É quase doloroso ver uma personagem com tanto potencial se reduzir a isso e seguir nesse ciclo até o fim. Mesmo quando percebe tudo o que aconteceu com ela, ainda assim não evolui. Acredito sim que seja proposital, mas me mata essa conclusão fria de que ela é e sempre vai ser assim.

R. F. Kuang sabe muito e faz questão de mostrar isso o tempo todo, mas o livro inteiro soa como um resumo infinito de um artigo que eu nunca consigo ler. Ela joga uma enxurrada de referências, cita filósofos, poetas, mitologia, religião, ciência, mas não debate nada. Passa pelo machismo, pela misoginia, pela loucura da academia, pela saúde mental, e não aprofunda em nenhum. Tudo fica na superfície, como se o objetivo fosse provar erudição e não provocar reflexão.

O ritmo da narrativa é arrastado justamente por causa disso. São tantas referências que chega um momento em que a leitura se torna cansativa. Você quer saber sobre os personagens, sobre o que eles sentem, mas o texto está sempre voltando para o que eles pensam sobre autor X ou teoria Y. E por mais que as referências sejam bem colocadas, depois de um tempo elas drenam a emoção e quebram o ritmo.

Uma crítica clara ao vazio da academia, a como a análise e a teoria desumanizam tudo, mas ficou tão vazio que mesmo entendendo a dor dela, tendo passado pelas mesmas coisas, não dá para se conectar com a personagem.

A escrita da Kuang é boa, disso não dá pra duvidar. Ela escreve de forma simples, bonita, fluida. E mesmo com tantas referências, o texto é totalmente explicativo: você não precisa ter lido nada do que ela cita para entender o livro. É legal quando você reconhece algo, mas não muda nada quando não reconhece, porque tudo é explicado. Você pode ler sem pesquisar uma linha fora do texto e ainda assim não vai perder nada essencial da história. No começo, isso torna a leitura prazerosa, você sente vontade de seguir, de descobrir mais, mas a falta de profundidade e o parlatório sem sentido acabam com toda a glória do que ela escreve e tornam o livro arrastado.

Em muitos momentos me peguei pensando: nossa, mas esse tanto de referência só pra dizer isso? Eles estão no inferno debatendo teorias, e mesmo quando tudo dá errado, e geralmente é resolvido por terceiros, falta emoção. São poucos os momentos em que há um vislumbre de sentimento, tanto da Alice quanto do Peter, o que para mim tornou a experiência ainda pior.

É claro que há potencial na história, mas as emoções são sempre colocadas de lado pelas discussões sobre referências, pela mitologia, pela lógica, pela análise dos autores e não pelos sentimentos dos personagens. No fim, parece um artigo sem conclusão: muito bem escrito, mas preso entre a fantasia e a ciência.

O romance é quase inexistente. Você espera por algo que nunca vem, uma fagulha, um sentimento real, mas tudo é interrompido por mais teoria. Alice e Peter atravessam o inferno como se estivessem num intercâmbio acadêmico, discutindo Cambridge e citações, sem vida fora disso. Não sabemos nada sobre o que eles sentem de verdade, nem sobre suas histórias fora da universidade. Tudo gira em torno do doutorado, como se nada mais existisse.

É trágico, e não do jeito bom. É um livro que quer ser inteligente, mas esquece de ser humano. Falta emoção, falta alma, falta fogo. No final, sobra frustração. Acredito que Kuang tenha feito isso de propósito, para mostrar o vazio da academia e da obsessão intelectual, mas mesmo com essa leitura simbólica, para mim, não funciona.

Infelizmente, não posso comentar mais sem dar spoilers, mas posso dizer que essa sensação de vazio e de promessa não cumprida acompanha até o último capítulo. Fica um gosto de que tudo poderia ter sido muito mais.

Depois de 472 páginas, fiquei com raiva de todos os personagens e torcendo para que morressem. Talvez quem goste de símbolos e referências e não se importe com o emocional ache algo de valor aqui. Mas para mim, foi cansativo, frio e vazio.

Um livro que tenta descer ao inferno, mas nunca sai da superfície.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: R.F. Kuang
TRADUÇÃO: Marina Vargas
EDITORA: Intrínseca
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 480
COMPRE: Amazon

Thayná Neiva

Sou Thayná Neiva, jornalista, autora de histórias não publicadas, leitora profissional de fanfic e uma eterna apaixonada em BL. Escrevo críticas movida por sentimento, mas com juízo (na maioria das vezes).

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