3 de novembro de 2025

IMPOSTORA – A ÉTICA DEIXADA DE LADO

As escritoras June Hayward e Athena Liu se formaram em Yale e publicaram seus romances de estreia na mesma época. Tudo indicava que chegariam juntas ao estrelato, mas, pouco depois da graduação, Athena começou a colher louros literários, enquanto June recebeu apenas migalhas de reconhecimento. Afinal, ninguém aguenta mais ler histórias de mulheres brancas ― ao menos é o que June pensa.

Quando Athena morre em um estranho incidente, June decide que chegou seu momento de brilhar. Por impulso, ela rouba o manuscrito do novo livro da amiga, uma obra experimental sobre a relevância dos trabalhadores chineses durante a Primeira Guerra Mundial.

O texto é brilhante. E June recebe uma proposta de publicação de sua editora, que sugere um reposicionamento de mercado. E se ela passasse a usar um nome ambíguo, como Juniper Song? June aceita, pois se uma história é boa, precisa ser contada. E as listas de mais vendidos a fazem acreditar que está no caminho certo.

Mas alguém parece saber que a obra-prima de Athena Liu foi roubada, e debates sobre plágio e identidade racial ganham as redes sociais. June então percebe que não poderá escapar desse fantasma para sempre. Do que ela será capaz para proteger o sucesso que acredita merecer?

Tem uma hora em que um livro deixa de ser só história e vira produto. “Impostora” mostra exatamente esse momento, com uma mistura de humor e crueldade. Não ataca a escrita em si, mas escancara o que acontece quando uma obra entra no mercado e cai no radar das redes sociais.

O livro expõe como os debates sobre autoria, ética e representatividade não nascem no vácuo — eles acontecem dentro de um sistema que exige vitrine, calendário e engajamento. E, nesse jogo, até a ideia de “verdade” começa a ser moldada para caber no formato.

Tudo começa com o jeito que o mercado editorial funciona. Hoje em dia, as editoras querem parecer super diversas. Colocam um monte de autor diferente no catálogo para passar a imagem de que se importam com representatividade. Mas, na real, muitas vezes isso é só fachada. O objetivo principal continua sendo vender. E, para isso, elas seguem apostando no que está bombando, no que parece menos arriscado, no que vai manter a boa reputação da marca.

Quando um livro entra numa polêmica, por exemplo, ninguém discute de verdade o que ele está dizendo. A conversa vira: “isso vai ajudar a divulgar ou vai atrapalhar as vendas?”. Se for bom para o marketing, a ética vai para o ralo. É desconfortável perceber isso, mas infelizmente é assim que o jogo funciona. O sistema precisa continuar lucrando — então transforma debates sérios e importantes em frases de efeito para colocar em post, em capa, em campanha de divulgação.

Percebo um paradoxo que o livro escancara com força: vozes historicamente silenciadas só ganham espaço quando vêm embaladas num “pacote” que o marketing sabe vender — e isso quase sempre envolve dor. Quando essas vozes tentam sair da prateleira do trauma para explorar outras formas de narrativa, muitas vezes são barradas. A identidade vira marca. E essa marca parece ditar o que alguém pode ou não escrever.

Impostora” pergunta: quem é que tem “permissão” para contar certas histórias? O livro cutuca esse limite entre empatia, pesquisa e apropriação cultural. E mostra que isso não é só sobre ética — é sobre grana. Quem já tem capital simbólico, bons contatos e o nome na capa de uma editora grande sai na frente. Cobra-se “autenticidade” dos autores, mas o próprio mercado embala vivências alheias num formato que vende. Aí entra a grande contradição que “Impostora” revela com precisão: pedem sinceridade, mas premiam quem entrega a versão com mais apelo comercial.

Me chamou atenção como Kuang usa uma narradora branca para contar a história do roubo de um manuscrito escrito por uma autora asiática. Isso dá peso à crítica sobre quem “pode” narrar o quê. Mas notei como a escolha escancara outra camada: a própria autora parece responder a críticas que já ouviu. Às vezes, senti que algumas personagens deixaram de ser pessoas para virar porta-vozes de tese — o que me gerou um certo incômodo. Essa tensão entre personagem e ideia aparece o tempo todo, e acho que faz parte tanto do efeito quanto da frieza que senti em alguns trechos.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi como o hype manda em tudo. Antes mesmo das pessoas começarem a ler um livro de verdade, ele já está sendo divulgado em tudo quanto é canto: tem resenha de influenciador, lista de “mais esperados do ano”, trend no TikTok, clube do livro, post no Instagram… Ou seja, o livro já chega para o leitor com um monte de expectativa em cima e, às vezes, até com polêmica junto.

O problema é que, com tanta bagunça em volta, o que realmente importa na obra acaba ficando em segundo plano. A discussão vira mais sobre o barulho que o livro gera do que sobre o que ele tem a dizer de verdade. E “Impostora” mostra isso muito bem. O livro escancara como até a ideia de “autenticidade” — que era para ser algo importante — virou moeda de troca. Vende mais quem parece mais legítimo, mais sofrido, mais “real”. Só que, com isso, alguns autores acabam sendo colocados numa caixinha: esperam que eles escrevam sempre sobre dor, trauma, sofrimento… como se a única função deles fosse representar a própria ferida. E a imaginação? Fica de lado.

A sátira acerta quando mostra o combo já conhecido: engajamento, crise, gestão de danos. A mesma máquina que organiza lançamentos já sabe lidar com cancelamentos. Acusações, notas oficiais, desculpas públicas e reposicionamentos viram etapas do cronograma. Muita coisa não se resolve; se negocia. O debate literário vira teatro. A pergunta deixa de ser “o que esse livro tem a dizer?” e passa a ser “quem falou primeiro?” ou “quem gritou mais alto?”. E o mais inquietante é ver como esse espetáculo vende. “Impostora” me lembrou várias situações recentes em que o mundo literário girou em torno do escândalo do dia. Ninguém aprende nada, mas sempre tem alguém lucrando.

Tem também todo um bastidor que ninguém vê, mas que pesa muito. Tem o pessoal da edição, marketing, jurídico, os leitores de sensibilidade, os agentes… Muita gente envolvida, muita decisão sendo tomada — só que, na hora que dá ruim, quem leva a culpa em público é sempre uma pessoa só. E geralmente é quem tá mais desprotegido, mais fácil de “trocar”. O sistema meio que espalha a responsabilidade entre vários, mas joga a culpa toda num rosto só.

Eu achei importante que “Impostora” mostre essa lógica, porque ela é real. Mas, para ser sincero, senti que a forma como o livro retrata isso às vezes ficou meio superficial. Rápido demais, direto demais, como se tivesse sido escrito no ritmo de um feed. Em vez de aprofundar e mostrar algo que vai além do que a gente já vê todo dia nas redes, o livro em certos momentos só repete o que já tá na boca do povo. Faltou um mergulho maior nesse bastidor.

Tem uma coisa que Imp“Impostora”ostora mostra e que me incomoda demais: como transformam a dor das pessoas em produto. Falar sobre dor é importante, claro. Mas o problema começa quando essa dor vira algo “bonitinho” só para vender — tipo, editada, resumida, encaixada direitinho num pitch de marketing, numa capa chamativa ou num post de divulgação. Coisas que deveriam ser tratadas com cuidado e profundidade viram conteúdo rápido, pronto para viralizar.

No fim, o que importa é o que dá mais clique. A forma de apresentar a dor vira mais importante do que o que realmente tá sendo dito. E aí o autor começa a ser visto como uma marca. A identidade vira um rótulo — algo que define o que ele “tem que” escrever. Até iniciativas legais, como a hashtag #ownvoices (que era para dar visibilidade para quem escreve a partir da própria vivência), acabam virando prisão. Em vez de abrir caminho, colocam o autor numa caixinha e trancam ali dentro.

No fundo, “Impostora” desmonta a fantasia do mérito puro. Talento importa, sim, mas não é tudo. Rede de contatos, imagem pública, capital cultural e sorte pesam muito. Admitir isso é desconfortável porque atinge a vaidade de todo mundo: quem escreve quer ser lido, quem edita quer lucro, quem lê quer acreditar na história — e espalhar. O mérito, nesse cenário, é instável. A própria estrutura do livro reforça isso: ao escolher uma narradora branca para contar um roubo de autoria, Kuang acentua a crítica à assimetria do sistema. Mas, em alguns momentos, senti que a camada “meta” engole a emoção. Parecia que as pessoas estavam virando alegorias.

O que mais me pareceu atual, porém, foi o retrato das redes como tribunal. Nelas, vence a narrativa que viraliza, não a mais justa, nem a mais verdadeira. Trechos são recortados, contextos ignorados, e a versão mais simples ganha força. O algoritmo premia intensidade, não precisão. Isso contamina o debate: ninguém mais quer discutir o texto, só reagir ao que rende mais like. E “Impostora” capta com precisão essa sensação de “engraçado e sinistro” que existe no mundo literário online: a tentação do linchamento espirituoso, a troca de farpas por curtidas, o outro virando alvo.

Hoje em dia, parece que sentir raiva virou uma forma de ganhar atenção. Se indignar rende curtida. Apontar o erro dos outros dá moral. E aí, do nada, debates super importantes (como representatividade ou quem tem direito de contar certas histórias), viram só uma caça ao vacilo. A galera não quer mais conversar, quer achar o culpado da vez.

Tudo vira espetáculo. Fazem dossiê, colam rótulo, interpretam qualquer coisa da pior forma possível. E “Impostora” acerta muito ao mostrar isso: em como é fácil esquecer que, por trás de tudo isso, tem uma pessoa real sendo julgada. Mesmo quando a pessoa errou, ainda existe um ser humano ali, sentindo o impacto de tudo.

O livro mostra bem como causas que nasceram para fazer diferença podem acabar sendo usadas para alimentar ego — ou para ganhar ponto no algoritmo. Tipo: não importa mais o que você defende, e sim como isso performa no feed.

Em “Impostora”, como na vida atual, o cancelamento aparece como controle de reputação. O ciclo é previsível: acusação, posicionamento, nota medida ao milímetro, e logo a próxima pauta. As plataformas lucram com o engajamento. As marcas ganham tempo. O dano raramente é reparado.

Me impressionou o retrato frio desse sistema, mas confesso que senti falta de um final com impacto emocional à altura. Depois de tanto acelerar, o livro termina com um freio que reforça: o ciclo continua. E talvez esse seja mesmo o ponto. O incômodo com o fim, no meu caso, não foi por querer redenção, foi por esperar uma consequência dramática.

Mesmo com todas as críticas que o livro faz ao mercado, às redes e ao sistema literário, o que mais me pegou de verdade foi a relação entre a Athena e a June. É uma mistura intensa de amizade, inveja, competição, traição… uma coisa meio espelho distorcido. Quando essa parte da história entra em foco, tudo fica mais vivo, mais verdadeiro.

Tem memória dolorosa, tem rancor guardado, tem gesto pequeno que machuca. São feridas que a gente reconhece. E em vários momentos o livro chega perto do terror psicológico, aquele desconforto real que vem de dentro, não de susto. Para mim, é nessas partes que a Kuang brilha de verdade como escritora de ficção.

Mesmo assim, o livro não dá resposta pronta — e acho que nem deveria. Ele critica o oportunismo de quem se aproveita do sistema, mas também mostra que querer reconhecimento é uma vontade legítima. Ele aponta a hipocrisia das instituições, mas não deixa de mostrar o ego e as contradições das pessoas. Ninguém sai ileso.

No fim das contas, o que ficou para mim não foi “quem está certo?”, mas “quem ainda está disposto a parar e pensar?”. Porque se quase ninguém está, então faz sentido que a verdade hoje em dia vire só mais uma peça no jogo do marketing. E mesmo assim, ainda acho que vale a pena continuar lendo, conversando, trocando ideia fora do barulho — onde o texto pode ser só texto de novo, sem precisar virar post de efeito.

E para quem sentiu que o livro devia terminar com uma grande explosão, eu deixo uma pergunta: que final faria sentido num mundo como o que “Impostora” mostra? Um mundo que nunca fecha o ciclo, porque ele vive justamente de continuar girando.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: R.F. Kuang
TRADUÇÃO: Yonghui Qio
EDITORA: Intrínseca
PUBLICAÇÃO: 2024
PÁGINAS: 352
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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