7 de agosto de 2025

MARGÔ ESTÁ EM APUROS – E EU TAMBÉM

Como — como começar a escrever sobre “Margô está em apuros“?! Em apuros estou eu, com a quantidade de pensamentos, conexões e pautas que pensei em escrever ou relacionar com o livro.

Eu quase sempre fico curiosa sobre a vida dos autores dos livros que leio. Quase. Poucos, pouquíssimos mesmo, me fazem ter vontade de ir atrás, procurar rede social, ler entrevistas. Na verdade, sendo muito sincera, essa curiosidade raramente é suficiente para me fazer agir como uma stalker literária. Mas a Rufi Thorpe… ah, essa mulher é danada. Fiquei curiosa sobre sua personalidade, causas, anseios, desejos. Fiquei mesmo.

E isso é culpa exclusivamente dela — Rufi Thorpe.

Nessa de não ser uma stalker literária, acabei encontrando o site da Rufi (somos íntimas agora) com algumas informações bacanas sobre ela que, após a leitura, não mudaram completamente minha visão sobre o livro, mas deram uma perspectiva mais completa, mais cheia de camadas.

A Rufi tem mestrado, já publicou quatro livros, e esse foi o primeiro com o qual tive contato. Em uma das seções do site, ela compartilha que cresceu no sul da Califórnia, filha única de uma mãe solo que sempre foi uma leitora voraz (e ainda é, e também escreve). Ela se descreve como uma criança meio infeliz, meio esquisita, e diz que os livros foram sua salvação.

Na adolescência e juventude, mudou bastante de lugar — estudou o ensino médio em New Hampshire, fez graduação na The New School, em Nova York, e depois um mestrado na UVA, na Virgínia. Durante esse tempo, trabalhou como garçonete, até que começou a dar aulas de escrita acadêmica em faculdade, e amou. Isso tudo faz muito sentido. Depois que li esse relato dela, as escolhas estéticas e narrativas do livro fizeram ainda mais sentido.

Margô está em apuros” não é uma biografia. Pelo menos, não encontrei nada que indicasse isso. Mas também poderia ser. É o tipo de história que facilmente poderia ser a de alguma adolescente brasileira (ou americana). Afinal, quantas jovens entre 15 e 19 anos tornam-se mães solo no Brasil e no mundo? Segundo um estudo do Centro Internacional de Equidade em Saúde da UFPel (2024), uma em cada 23 adolescentes dessa faixa etária engravida a cada ano no nosso país.

Mas calma. Seguimos.

A questão é que, ao construir a narrativa, a Rufi entrega um jogo entre a história da Margô e uma conversa com o leitor. Meio clichê? Talvez. Mas tudo bem. É como se a autora estivesse ali, te cutucando o tempo inteiro. E, ao mesmo tempo, isso pouco importa.

Ao meu ver, “Margô está em apuros” tem uma linguagem que conversa diretamente com jovens de 18 a 21 anos. Estamos na cabeça da Margô, na da Rufi, num tipo de narrador onisciente. Estamos em todos os lugares. E esse é um efeito muito claro das mídias sociais, uma estratégia narrativa que te mantém atento, reflexivo e, claro, obcecado. Mas paciência, vou explicar. Ou pelo menos tentar.

Não é um livro revolucionário. Mas é uma escolha ousada dentro do que a história se propõe — e funciona. Funciona bem. É divertido acompanhar.

Quando comecei a leitura, dei um berro. Exagero meu. Foi mentalmente. Mas quase. O primeiro parágrafo viralizou numa publicação de uma plataforma aí que você já sabe qual é. E na hora, eu lembrei das discussões sobre até que ponto aquilo era legal ou cringe.

Com a Rufi? É super legal, tá?

Ela não se deixa cair em estereótipos desnecessários. E isso exige coragem. A história vale a pena. Por mais que a Rufi apareça em poucos parágrafos, ela está presente o tempo todo. E ela faz questão de lembrar que existe. E eu gostei disso.

Vamos à história, né?

Nossa personagem principal, a Margô, engravida aos 19, de um professor da faculdade. Ou seja, muitíssimo perigoso já aí. Primeiro que, não vou me limitar nas questões morais, não cabe a mim dizer ou julgar o tipo de personalidade que a autora escolheu dar para a Margô. E eu digo isso porque estou fazendo uso da própria tática que a Thorpe faz na construção do seu livro: ela brinca com você, leitor.

O que é real?

Em uma das primeiras cenas em que o Mark (o professor infiel e canalha) aparece, ele está no meio de uma aula de literatura cuja discussão faz com que o cultíssimo Mark (revirar de olhos) explane para a classe: “Mas o personagem não seria interessante se fosse uma pessoa real. Você nunca iria conhecer alguém assim, nunca se tornaria amigo dele. Os personagens são interessantes porque não são reais. O interesse reside na falta de autenticidade. Na verdade, eu chegaria ao ponto de dizer que todas as coisas genuinamente interessantes não são tão reais” (p. 11).

O que de primeira lida assim, parece um UOU, que grande reflexão. Mas não é. É bacana, cabe na história, afinal o Mark é um professor de literatura. Canalha? Canalha. Mas ainda assim, um professor.

E aí, nesse ponto, trago (entre tantos que gostaria) dois pontos.

A Margô é uma adolescente que se acha muita coisa e, ao mesmo tempo, não se acha nada. Ela acha que escolheu se envolver com o Mark. Acredita que foi decisão dela ter relações sexuais com ele. Se acha superior e mais madura que ele por ter certos tipos de pensamento. Mas não é. Digo, ela é obviamente mais sensata que o Mark, mas é assim que funcionam certos tipos de relação.

Quando mulheres mais novas se relacionam com homens mais velhos, já casados, com filhos — como o Mark, que tem 37 anos nas costas — é complicado discutir sobre isso. Acho que a Rufi conseguiu construir uma linha de raciocínio para a Margô em que ela percebe algumas coisas. Ainda assim, sinto que foi uma linha muito delicada de se abordar. Homens são predadores. E a Rufi descreveu o Mark perfeitamente como um, mas com uma perspectiva ainda muito suavizada.

E eu entendi que isso também pode ter sido uma escolha. Uma escolha de focar no empoderamento da Margô. Mas isso também é complicado. Desde os primórdios, desde que o mundo é mundo, mulheres acabam tomando certas responsabilidades como suas, como uma forma de superar ou até mesmo de não encarar a dor. É sensível e não dá pra ser breve nisso. Existe uma força simbólica nessa construção, e talvez a Rufi tenha vivido algo que a fez escrever dessa forma.

Depois que li no site dela que cresceu com uma mãe solo, que os livros foram sua salvação, que trabalhou como garçonete, que se sentia uma criança infeliz e deslocada, algumas escolhas no desenvolvimento da Margô ficaram mais compreensíveis. Não justificáveis no sentido de exatas, mas compreensíveis no sentido de serem legítimas dentro do que ela quis narrar.

E eu acho que isso também faz parte do jogo da Thorpe. Nessa mesma aula que trouxe a citação acima, o Mark rebate um outro aluno dizendo: “A questão é que o narrador não faz x ou y porque tem transtorno de personalidade borderline. Ele faz x ou y porque o autor está obrigando. Você não está tentando ter um relacionamento com o personagem. Você está tentando ter um relacionamento com o autor por meio do personagem” (p. 12).

Então, Rufi, qual a nossa relação?

Agora que somos íntimas, acho que posso ser sincera e perguntar, com a mais profunda estima e apreciação que senti ao ler seu livro, que tipo de relacionamento você quer com os seus leitores?

Enfim, continuando.

Nos primeiros capítulos, acompanhamos muito rapidamente (afinal, o Mark não é tão importante para ter tantas páginas), mas vemos ele como professor da Margô. Ela, uma jovem obviamente com alguns (muitos) problemas paternos, vê nele um tipo de figura de acalento, por mais que não admita inicialmente.

O bacana da Margô é que a Rufi escreveu ela como uma personagem muito autoconsciente. E o problema das pessoas (personagens) autoconscientes é que elas possuem um certo tipo de problema com a razão. Quando se é autoconsciente demais, você acaba perdendo certos detalhes emocionais.

E o Mark, gente… ele é um pé no saco. O cara escreve poesia (nada contra, ok??), trai a esposa (a Margô não é a primeira e ele admite), tem dois filhos e ainda quer ser o dono da moral e dos bons costumes. É realmente de cair o cu da bunda.

Depois que descobre a gravidez, a Margô não quer abortar. Ela pensa sobre. Mas desde o início você já sabe que aquele pensamento nunca realmente se concretizou dentro dela.

E temos um ponto sentimental bastante interessante: a Margô também foi filha de mãe solo. Viveu como a filha de uma mulher que precisava se desdobrar em várias para dar conta das coisas dentro de casa. Os diálogos dessa decisão dela são bonitos. Nestes momentos, senti mais a Rufi do que quando ela verdadeiramente escreve conversando comigo.

É bonito ver a linha de raciocínio de uma pessoa que começa a carregar outra. A Rufi tem dois filhos. Acredito que ela tenha usado um pouco das próprias experiências para tornar as cenas mais verídicas. Funcionou. São emotivas e boas de ler.

— Becca, sou eu que fui criada por mãe solo, e não é nada glamouroso. Não estou dizendo que eu ficaria com o bebê porque seria divertido ou fácil. Estou dizendo que acho que ficar com o bebê pode ser o que uma pessoa boa faria” (p. 25).

Oi? O que é ser uma pessoa boa?

Essa fala da Margô eu achei um tantinho complicada. Não acho que quem faz aborto é uma pessoa ruim. E a Margô também não. E acho que a Rufi também não. Pelo menos, é o que eu espero. Esse lance do ser bom ou ruim meio que reverbera durante a história em vários momentos. Afinal, a Margô estava trepando com um homem casado. O que tem de bom nisso? Além do sexo, é claro.

Continuemos.

Margô decide continuar com a gestação, não para ser um tipo de heroína, mas porque quer escolher por si mesma. Depois de algumas reflexões pessoais, ela percebe que nunca foi ambiciosa o suficiente para ter certos desejos. Mas ter o filho se torna um. E ela aceita essa decisão. Depois de algumas páginas pensando sobre, a Margô decide ter o bebê. E, cara, não é nada glamouroso (já usei essa palavra, né?).

O insuportável do Mark simplesmente desaparece. A mãe da Margô, Shyanne, é meio maluca, um pouco descompensada das ideias, e já deixa claro, logo que escuta a notícia: “Se você decidir ter esse bebê, eu não vou cuidar dele. Vai ser o seu filho” (p. 29).

É meio cruel, mas também é o tipo de personalidade da Shyanne. Bem, pelo menos é o tipo de personalidade que a Margô, escrita pela Rufi, visualiza da mãe.

Ela é uma perua, sendo sincera.

O processo de decidir não voltar para a faculdade, comprar enxoval de bebê sem suporte financeiro, dividir o apartamento com outras três colegas de faculdade, tudo isso segue até a Margô finalmente parir o Bodhi. E não dá pra ser mais realista.

A Margô dá à luz, é liberada e sai sozinha do hospital, aos 19 anos, com um recém-nascido cujo corpo é pequeno demais, tão frágil que ela demora vários minutos para subir alguns lances de escada, com medo de deixá-lo cair ou esmagar seu filho.

Deixada de resguardo sozinha (nos Estragos Unidos existe o conceito de resguardo?), Margô volta a trabalhar. Na ocasião, sua mãe não consegue ficar mais do que algumas horas com o Bodhi pela primeira vez e pede para que a Margô vá buscá-lo, porque não aguenta mais o choro.

E, sejamos justas, a velha avisou. Margô leva o bebê para o trabalho, e a dona do lugar, que é meio que sua “amiga”, cuida dele até o fim do expediente. Mas no final, joga a bomba: ou arranja uma babá ou está demitida. Amigos, amigos, negócios, negócios, meus colegas!

No fim, Margô é demitida do emprego. Todo mundo tinha avisado que ter um filho ia destruir sua vida. Encarar, nas páginas, o abandono da Margô no início me deixou um pouco desesperada. É possível sentir, com o efeito construído pela Rufi, um tipo de empatia que ultrapassa a leitura. Você deseja ser o suporte emocional da Margô, quer ser a babá do Bodhi para que ela possa trabalhar, quer dizer a ela que é forte, corajosa e muito, muito mais.

Que o mundo não é gentil com mães solo a gente já sabe. Mas é de doer o coração quando a Margô percebe que a empatia não veio. Perdeu o emprego, as colegas de apartamento, a rede de apoio.

E, sem saída, cria um perfil no OnlyFans. Escreve resenhas de paus. É isso mesmo. Comparando pintos com Pokémons. E por que não? Hoje em dia se faz resenha de tudo.

Quando a Margô decide criar seu perfil no OnlyFans, a gente já está numa parte boa do livro. Mas o que a sinopse não entrega é que existe uma linha de acontecimentos que a fazem chegar nesse ponto.

E acho que isso foi uma pauta muito relevante que a Rufi trouxe sobre esse universo. Nenhuma mulher cresce pensando que vai vender fotos dos próprios seios para tarados na internet ou que seria legal receber fotos de paus e escrever resenhas sobre eles.

Então vamos repassar. Margô engravida, é abandonada pelo genitor, a mãe e o próprio pai não são confiáveis, as “amigas” se afastam quando percebem que um bebê chora, caga e incomoda mesmo. Ela perde o emprego, não tem com quem deixar o Bodhi, babás são caras demais, cobram por hora, e Margô também precisa pagar aluguel. As companheiras de apartamento vão embora sem aviso prévio. Ela começa a entrar em desespero até que escuta como garotas no OnlyFans vendem fotos de partes do corpo, sem tocar, sem ver pessoalmente, sem mostrar o rosto. Existem tarados o suficiente para pagar por isso. Então, por que não?

E como a Margô é nossa garota diferente das outras, é claro que o perfil dela no OnlyFans não seria comum. Afinal, ela era uma estudante de literatura. Margô estuda, pesquisa sobre o OnlyFans — na verdade, a Rufi pesquisou, né. Nas dedicatórias, ela escreveu um agradecimento às profissionais do aplicativo que lhe ajudaram com as pesquisas.

É interessante saber como funciona o algoritmo do OnlyFans? Talvez. Não está nos meus planos abrir uma conta por lá, mas achei pertinente dentro da história. Saber que o OnlyFans não tem um feed impulsionador como o TikTok, por exemplo, faz diferença na lógica da narrativa.

Depois que a Margô abre esse perfil, a história ganha um rumo diferente. A Rufi não glamouriza o trabalho. Não é um conto de fadas em que basta abrir uma conta, postar fotos dos seios por 1,99 e viralizar com 200 mil assinantes. Não é assim.

A Rufi escreveu a Margô de um jeito muito humano. Não sei quantos anos os filhos dela têm, mas pra mim, ela conseguiu expressar, até em cenas simples como abrir o YouTube ou o TikTok no fim do dia enquanto faz a janta, ou ligar a TV para ver um filme, uma vivência que transborda realismo. Ações cotidianas que, à primeira vista, poderiam parecer descartáveis, mas que acabam sendo parte da construção afetiva do livro.

Outra coisa que eu gostaria de citar é sobre o pai da Margô, o Jinx (as leitoras de manhwa vão lembrar deste). Acho que ele é meu personagem favorito. Sério. Ele é um homem que definitivamente não foi um pai adequado. Era lutador profissional e tem um problema, como muitos, com entorpecentes. Um viciado. Em remissão, mas ainda um viciado.

Jinx volta depois de anos sendo um pai ausente e, novamente, nossa querida Margô o abriga. Porque, afinal, ela tem problemas com falta de pai. Um clássico.

Eu não sei se a Rufi quis realmente que a Margô fosse o tipo de personagem consciente, mas também refém dos próprios traumas. Mas é o que ficou.

O pai não esteve presente o suficiente, ela se envolve com um homem mais velho, engravida, passa por um período traumático de abandono parental e do Estado. Depois o pai retorna buscando apoio, e ela abre as portas da sua casa. Porque, na linha de raciocínio da Margô, ela entende o pai, entende a mãe. E isso é um problema. Não um problema para a história, mas um problema que mulheres continuem num ciclo vicioso de autoresponsabilidade sobre os outros, quando já foram, por tanto tempo, abandonadas.

Bons escritores sabem inserir visões de mundo e pautas políticas sem forçar. Rufi Thorpe faz isso. Sutilmente. As reflexões estão ali, sem serem panfletárias. A pornografia é um tema central. E não tem como não sentir o desconforto. Mas a autora não apela. Não romantiza. Não se esconde. É uma tática arriscada. Muito. Uma faca de dois gumes.

Ou você se conecta com Margô e se entrega à narrativa, ou se afasta. Mas, honestamente? É difícil não se apegar à Margô. Talvez eu também seja uma pessoa má.

Acho que não dá pra fingir que “Margô está em apuros” é apenas mais uma história sobre juventude, maternidade, internet. Não é. É sobre valores, escolhas, identidade, dinheiro, moral, pornografia, culpa e autonomia. Tudo isso costurado com irreverência e um humor que, às vezes, nem parece humor, mas sim sobrevivência.

Estou em apuros porque fico pensando: Rufi, minha querida amiga, você também se sentiu abandonada quando engravidou? O que era você, real, ali naquela história, e o que foi inventado? O que era falso?

De todas as reflexões literárias e estilísticas que você trouxe no meio do seu livro, a que eu mais gostaria de destacar é que acho que, mesmo um personagem não existindo no plano físico e material, ele existe. E, pra falar disso, precisamos — antes de discutir o que é real ou não — pensar no que significa existir pra você.

Só porque algo não é tocável com as mãos, não significa, necessariamente, que não exista. E atenção: isso aqui não é uma alegoria religiosa.

A Margô pode não ser real, mas ela existe. Muitas jovens engravidam na adolescência e são abandonadas não só pelos seus familiares e amigos, mas também pelo Estado. Muitas mulheres veem em aplicativos de criação de conteúdo adulto uma oportunidade de sair de uma situação que a própria sociedade as colocou.

E esse foi um assunto que fiquei muito pensando sobre como escrever aqui. Não é fácil falar sobre pornografia. Não é fácil escrever dizendo “sou contra”, “sou a favor” ou “fico no meio termo”. São especificidades demais para relativismos.

E não dá pra falar sobre isso sem construir um texto muito longo e bastante acadêmico, com citações para embasar as minhas falas. Afinal, quem sou eu para dizer algo?

Mas se posso resumir, da forma mais simples possível, é que eu acho que a pornografia não é apenas uma representação sexual. É uma forma de discurso político que reforça e perpetua o poder dos homens sobre as mulheres.

Mesmo quando uma mulher acha que está decidindo, escolhendo, que está no comando… será que está mesmo?

Primeiro que, como disse lá em cima, ninguém nasce sonhando em trabalhar com pornografia. Então, a ideia de escolha e de liberdade não existe se a pessoa precisou entrar nesse universo por conta de contextos de violência, pobreza, abuso ou falta de alternativas reais. Então, até mesmo quando parece que é uma “escolha” feita como forma de poder, ainda é a cultura patriarcal moldando o desejo e a identidade femininas de forma a adaptá-las à opressão.

Independentemente da vontade individual, a pornografia é produzida por homens e para homens (Quem é o dono do OnlyFans? Um homem).

A pornografia retrata o corpo feminino como território de conquista. Padroniza a sexualidade feminina a partir da perspectiva masculina, apagando a complexidade e a autonomia do desejo da mulher. A construção do conteúdo sexual é feita para agradar aos olhos masculinos. E que tipo de liberdades são essas?

Mesmo que uma mulher se diga empoderada ao participar da pornografia, o efeito cultural é outro. Ela continua a ser apresentada como objeto.

Enfim, é um assunto complicado e longo. No mais, acho que posso acrescentar que a interpretação sobre determinados assuntos da vida contemporânea está diretamente relacionada ao código que cada um aprendeu e apreende ao longo da sua vida.

Tudo é contexto. Uma mulher que vive em São Paulo possui interpretações totalmente diferentes das minhas, que vivo no Tocantins. Nossas realidades, como mulheres, apesar de similares em alguns pontos mais gerais, divergem em outros.

Margô está em apuros” é um livro muitíssimo interessante. Ele mistura humor ácido, crítica social e uma protagonista carismática em meio ao caos da maternidade solo e da precariedade financeira.

É fácil se identificar com a Margô. Hall e Foucault já falaram várias vezes: a identificação é construída a partir do reconhecimento de alguma origem comum, ou de características que são partilhadas com outros grupos ou pessoas, ou ainda a partir de um mesmo ideal. É fácil se identificar com ela porque são muitas as características reconhecíveis em todos nós, seres do século XXI.

Para os curiosos, a adaptação do livro está em desenvolvimento pelo estúdio A24 para a Apple TV (amamos?!). São 300 páginas, publicadas pela Editora Rocco. Inclusive, acho que esta é minha primeira resenha de um livro da Rocco aqui no blog. Perdão pela demora equipe Rocco!! Foram mais de 15 dias até o livro chegar aqui no Tocantins, ok?!


AVALIAÇÃO:


AUTORA: Rufi Thorpe
TRADUÇÃO: Marcela Isensee
EDITORA: Rocco
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 304
COMPRE: Amazon

Francielly Oliveira

Sou Francielly Oliveira, jornalista, mestre em Comunicação e Sociedade (UFT). Amo narrativas (de todos os formatos) e histórias aleatórias: da romantasia às distopias, das HQs aos clássicos.

REDES SOCIAIS

Mais Lidos

4

A PACIENTE SILENCIOSA

21 de julho de 2021
Gabriel é um fotógrafo talentoso e conhecido, que faz trabalhos para revistas famosas. Alicia é uma pintora excepcional, seus quadros possuem características
5

DUPLO EU

27 de agosto de 2019
O índice de massa corporal (IMC) é uma medida internacional para verificar se uma pessoa está no seu peso ideal. Esse cálculo
Ir paraTopo

Don't Miss

GAROTA ASSOMBRA GAROTO – ENTRE O LUTO E O SOBRENATURAL

A trama acompanha Cole Sanchez, um adolescente tentando recompor os

S.T. ABBY – VIDA, OBRA E A SOMBRA DA AUTORA DE MINDF*CK

No universo da literatura de romance, segundo os fãs, poucas