22 de julho de 2025

COMO NASCEM OS FANTASMAS – CRÍTICA SOCIAL, HORROR E REALISMO FANTÁSTICO

Ao terminar a leitura de “Como nascem os fantasmas“, fiquei com a nítida sensação de que este é um livro que não busca agradar ou suavizar. Verena Cavalcante propõe um mergulho direto em temas difíceis como luto, opressão familiar e identidade. Trata-se de uma narrativa que mistura realismo fantástico com horror psicológico, situada em um Brasil muito reconhecível — mais precisamente, nos anos 1990.

A história gira em torno de Beatriz, uma menina de 11 anos criada pelos avós após a morte da mãe no parto. A avó, Divina, é uma médium influente na comunidade, respeitada por sua ligação com o mundo espiritual. Desde pequena, Beatriz é ensinada a seguir os passos da mãe morta, usando suas roupas, imitando seus gestos e sendo tratada quase como uma substituta. Isso dá início a um processo de apagamento da própria identidade, que é o ponto central do romance.

A ambientação é um dos pontos fortes do livro. A década de 90 não aparece apenas como pano de fundo nostálgico, mas como um retrato social e cultural que contribui para a construção do enredo. As referências à cultura da época, à mídia sensacionalista, à violência urbana e ao misticismo popular criam uma atmosfera coerente e bem integrada à história. Tudo isso contribui para reforçar a sensação de um tempo confuso e cheio de contradições, o que se alinha com a experiência da protagonista.

A linguagem usada por Verena é intensa, carregada de imagens fortes e metáforas. Em muitos momentos, o texto é marcado por um lirismo sombrio, que mistura o poético e o grotesco. Há quem veja nisso um excesso, e de fato algumas passagens podem parecer estilisticamente pesadas, dificultando a fluidez da leitura. No entanto, no contexto da obra, essa escolha parece proposital: a linguagem reflete o peso emocional e simbólico da trama.

Os personagens são bem construídos, com destaque para a dupla central: Beatriz e Divina. Beatriz é apresentada como uma criança em conflito constante, tentando entender quem é sob a sombra da mãe ausente. Divina, por sua vez, é uma figura ambígua — ao mesmo tempo cuidadora e opressora, afetuosa e impositiva. A relação entre as duas sustenta a maior parte da tensão narrativa, funcionando como um espelho dos temas de herança familiar e repetição de padrões.

O elemento sobrenatural aparece de maneira integrada ao cotidiano. A mediunidade, os fantasmas e os rituais espirituais não funcionam apenas como recursos de gênero, mas como representações simbólicas do trauma, do silêncio e da dor acumulada. Os “fantasmas” do título não são apenas entidades espirituais, mas também lembranças, expectativas e violências herdadas, que atravessam gerações.

A presença da menina Mayara, assassinada e posteriormente vista por Beatriz como espírito, introduz o aspecto mais direto do horror. Essa parte da narrativa também serve como ponto de ruptura na relação entre Beatriz e sua avó. O sobrenatural, aqui, não é negado, mas reprimido. A recusa de Divina em aceitar a mediunidade da neta revela uma contradição profunda: a mesma mulher que convive com os mortos rejeita os sinais da neta por medo, controle ou negação.

Outro ponto relevante é a relação entre Beatriz e Lipe, um amigo da mesma idade. A amizade dos dois, marcada por afeto e estranhamento, oferece pequenos respiros na narrativa, mas também revela os efeitos da criação opressiva sobre as relações da protagonista. Beatriz tem dificuldade em aceitar carinho e confiança, pois cresceu condicionada a se moldar, não a ser acolhida como é.

A narrativa não oferece resoluções fáceis. O desfecho é coerente com o que o livro constrói desde o início: um percurso doloroso, sem idealizações ou redenções artificiais. O final pode não agradar a todos, mas é honesto dentro da proposta da obra. Há um peso real nas escolhas de Beatriz, e isso é mantido até a última página.

Como nascem os fantasmas” é um livro difícil — não pela complexidade da trama, mas pela carga emocional e simbólica que carrega. Trata de questões familiares, espirituais e sociais com franqueza e sem suavizações. Verena Cavalcante constrói uma história forte, que mistura crítica social, horror e realismo fantástico com um estilo próprio. Não é uma leitura para todos.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: Verena Cavalcante
EDITORA: Suma
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS:152
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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