26 de março de 2026

A VAN: ADOLESCÊNCIA EM FUGA — DIRETO AO ABSURDO

Avaliação

ENREDO
3/10
PERSONAGENS
5/10
ESCRITA
3/10
RITMO
3/10
ORIGINALIDADE
3/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
1/10
Geral
3.0/10
AUTOR: Alexandre Maduenho • EDITORA: LABRADOR • 2025 • PÁGINAS: 304

Li A Van: Adolescência em fuga” com a expectativa de encontrar um romance de estrada sobre cinco adolescentes tentando escapar, ainda que de forma confusa, daquilo que os oprime.

A primeira parte do livro quase sustenta essa promessa. É nela que conhecemos Caio, Marina, Laura, Tomás e Léo, todos estudantes do mesmo colégio, reunidos também por uma defasagem escolar que os coloca no mesmo ano apesar das idades diferentes. Há ali um ponto de partida interessante: um grupo heterogêneo, marcado por frustrações, repetências, afetos mal resolvidos e um impulso juvenil de ruptura. Mesmo com uma narração já excessiva, carregada de imagens filosóficas e metáforas longas demais, esse início ainda consegue sugerir uma aventura adolescente possível.

O problema é que o livro não constrói de forma convincente por que esses cinco fogem. Razões são mencionadas ao longo da narrativa, mas quase nunca aprofundadas. Falta peso dramático, falta conflito desenvolvido, falta a sensação de que a fuga nasce de algo inevitável. O que resta é um gesto de rebeldia vaga, que até pode soar plausível em personagens de 16 ou 17 anos, mas perde força quando o romance inclui um personagem de 18 anos sem lhe dar uma consciência mais amadurecida da própria decisão. A impressão que tive é que a obra quer transformar inquietação juvenil em motor narrativo, mas não oferece base suficiente para isso.

Entre os cinco, Caio ocupa um lugar central, e sua imaturidade é uma marca constante. Ele é apaixonado por Marina, e o livro insiste nesse sentimento como um eixo emocional importante. O problema não está em haver indefinição amorosa, algo compatível com a adolescência, mas em a narrativa manter essa relação praticamente no mesmo ponto do começo ao fim. Marina às vezes parece corresponder com carinho, às vezes apenas sustentar uma amizade afetuosa, mas o romance nunca se desenvolve de fato. Os pensamentos de Caio giram em torno dela, enquanto, nos momentos em que o narrador se aproxima da interioridade de Marina, quase nada indica que Caio ocupe o mesmo lugar dentro dela. Essa assimetria até poderia render tensão, mas o livro não a trabalha com a precisão necessária. O resultado é uma relação estagnada, repetida, mais sugerida do que construída.

Marina, aliás, é apresentada como a menina mais bonita do colégio, além de carregar traços como depressão e automutilação. São elementos delicados e graves, mas tratados de maneira superficial, quase como marcas externas de composição da personagem. O romance menciona esses aspectos sem lhes dar espessura emocional ou narrativa. Eles acabam funcionando mais como atributos de impacto do que como experiências incorporadas à construção dela.

O mesmo acontece com Laura, cuja caracterização gira em torno das decepções amorosas com outras garotas, e com Tomás, descrito de forma oscilante, às vezes sugerido como homossexual, em outras como bissexual, sempre cercado por uma imagem de alguém que “beija todos e todas”. O problema aqui não é a fluidez em si, mas a forma como isso aparece no livro: sem clareza, sem elaboração, sem consistência interna. A narrativa termina produzindo uma confusão que empobrece os próprios personagens e dá margem à ideia de que orientação sexual é apenas uma indecisão aleatória da adolescência, variando conforme o interesse imediato do momento. É um tratamento frágil para um tema que exigiria mais cuidado.

Léo, o mais velho do grupo e o único maior de idade, também não rompe essa lógica. Seu passado, marcado por conflitos com o pai e por uma amizade com um tio que mal chega a ter presença real na narrativa, é esboçado sem profundidade. E, apesar da idade, ele não age com mais maturidade do que os demais. Isso enfraquece ainda mais a dinâmica do grupo, porque o romance não cria contrastes fortes entre eles. Os cinco são apresentados como figuras com algum potencial, mas esse potencial raramente se converte em desenvolvimento real das relações ou das consequências de seus atos.

Esse é, para mim, um dos principais limites do livro: os personagens não evoluem. As tensões entre eles, os afetos, os conflitos internos e as situações que provocam surgem e logo são abandonados. Nada amadurece. Nada se complexifica de forma orgânica. O romance parece lançar elementos esperando que sua simples presença já seja suficiente, mas quase sempre recua antes de transformá-los em experiência narrativa.

Também me incomodou bastante a narração em terceira pessoa, que entra em choque com a idade dos personagens e com a história que está sendo contada. Os diálogos, em muitos momentos, soam convincentes para adolescentes. Há naturalidade na fala, um registro compatível com a faixa etária. Mas o narrador assume uma postura excessivamente filosófica, cheia de comparações estranhas, metáforas bizarras e trechos extensos que parecem querer produzir profundidade pela via do exagero. Em vez de ampliar a história, esse estilo quebra o ritmo. Há passagens em que a metáfora se alonga tanto que a cena praticamente desaparece. A leitura perde impulso justamente quando deveria ganhar força.

A estrutura do romance se divide com clareza em três blocos, e essa divisão evidencia o desalinhamento do livro consigo mesmo. O primeiro é o mais promissor: apresenta os adolescentes, suas memórias, suas relações e as motivações ainda difusas para a fuga. Mesmo com todos os excessos de linguagem, é a parte em que a narrativa mais se aproxima da aventura adolescente que anuncia. O segundo bloco é longo demais e desvia radicalmente desse eixo. Novos personagens entram em cena, mas sem acrescentar densidade aos cinco protagonistas. Servem, sobretudo, para introduzir drogas, bebidas, festas estranhas, relações deslocadas e situações que parecem pertencer a outro romance. Em vez de aprofundar o grupo central, o livro dilui sua energia em episódios paralelos que não conduzem a lugar algum.

Esses personagens da segunda parte não possuem construção significativa e tampouco ajudam a entender melhor Caio, Marina, Laura, Tomás ou Léo. Funcionam como gatilhos para o desvio da trama. O que parecia caminhar para uma jornada pelas estradas, com riscos, descobertas e amadurecimento, se converte em uma sucessão de episódios estranhos, sem senso de aventura e sem progressão dramática consistente. Para mim, esse é o momento em que o romance começa a desmontar a melhor promessa que havia feito.

A própria urgência pública da fuga também me pareceu exagerada. A velocidade com que o desaparecimento dos cinco se transforma em notícia, ganha repercussão e pressiona os personagens soa artificial. Em vez de nascer organicamente das circunstâncias, essa cobertura parece imposta pela necessidade de aumentar a tensão do enredo. O efeito é menos de realismo e mais de atalho narrativo.

E então vem a conclusão, curta, apressada e ainda mais destoante do que tudo que a antecede. O livro abandona de vez qualquer possibilidade de fechamento coerente para seguir um caminho dramático que me pareceu desproporcional e sem propósito claro. A sensação que tive não foi a de uma tragédia inevitável, preparada pela narrativa, mas a de um choque fabricado para produzir impacto. O final soa como castigo, como se o desejo de liberdade dos personagens precisasse ser punido de forma exemplar. É possível ler esse desfecho como um alerta sobre os riscos de uma rebeldia sem rumo, mas, do jeito como é executado, ele parece menos uma reflexão e mais uma guinada absurda, desconectada da proposta inicial do livro.

Além dos problemas de estrutura e construção, a edição me parece muito falha. Há erros de gramática, trechos confusos, problemas de revisão e um uso inconsistente dos diálogos. Em alguns momentos aparecem aspas, em outros travessões, e não raro os dois surgem misturados na mesma fala, o que torna a leitura visualmente desorganizada. Também há cenas em que personagens comentam acontecimentos que o livro não mostrou adequadamente, obrigando o leitor a deduzir o que deveria ter sido narrado. Não se trata apenas de uma escolha estilística: em vários trechos, a sensação é de descuido editorial.

No fim, fiquei com a impressão de que “A Van: Adolescência em fuga” tinha material para ser um romance juvenil de deslocamento, amizade, tensão amorosa e desejo de ruptura, mas escolhe se afastar justamente daquilo que tinha de mais interessante. A primeira parte quase convence, porque apresenta cinco personagens que, apesar das fragilidades, parecem capazes de sustentar uma história de estrada. Mas o livro desmonta essa expectativa ao trocar desenvolvimento por dispersão, conflito por estranhamento gratuito e conclusão por choque. Para mim, o romance começa sugerindo uma aventura adolescente e termina preso a um drama excessivo, pessimista e pouco coerente com o que ele próprio havia prometido.

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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