Terminei “Do teu fantasma vejo só o coração” com a impressão de que é um livro feito para incomodar. E, em muitos trechos, cumpre esse papel. Não é uma narrativa que ofereça conforto, nem que facilite julgamento; ela expõe contradições de forma direta. Ao mesmo tempo, a leitura me frustrou, porque a proposta é forte, mas a maneira como o texto é conduzido acabou me afastando mais do que aproximando.
O romance acompanha Fanta, uma protagonista construída para não caber em rótulos. O percurso dela é apresentado em um arco deliberadamente contrastante: infância e juventude atravessadas pela Igreja neopentecostal, depois uma fase ligada a um cinema subversivo, até chegar ao ponto em que assume um posto que tenciona toda a trajetória anterior: o de ministra de um governo de extrema-direita. A história não trata isso como “reviravolta”, mas como núcleo do livro. A contradição não aparece como falha de personagem; funciona como motor narrativo, como se o texto insistisse que nem sempre há coerência estável quando a vida vira negociação constante.
A Fanta não é apresentada isoladamente. A narrativa se organiza também pelas relações que a cercam e que funcionam como pontos de fricção. A primeira delas é o tio alcoólatra, por quem ela decide se responsabilizar de modo persistente. O cuidado existe, mas não é enquadrado como cura, nem como gesto isento de consequência. Há um ponto moralmente ambíguo quando a Fanta o interna enganando-o, o que tira qualquer idealização da situação. O vínculo fica marcado por culpa e controle, mais próximo do que costuma acontecer em relações familiares tensionadas do que de um arco “redentor”.
Depois entra o filho, que muda o foco do livro. Ele é descrito como alguém de convivência difícil, com traços de autismo e superdotação, e a relação é atravessada por distância. A maternidade não vira reparação, nem reconciliação automática. O livro trata isso como um campo de falha e desencontro, sem o apelo do clichê da “mãe guerreira”. Aqui, vínculo não é garantido por amor ou por presença; criar não significa, necessariamente, aproximação.
Por fim, aparece a jovem do passado, o primeiro amor, que retorna como parte estrutural da narrativa. Ela não entra apenas como lembrança; entra para reorganizar o que ficou pendente e para oferecer outra perspectiva sobre o que parecia encerrado. Isso se encaixa no título: há personagens que viram ausência, mas permanecem como recorte, como resto ativo, como algo que continua operando mesmo sem a presença inteira.
Esse conjunto ganha mais força quando o livro introduz um elemento central de conflito: o vazamento de um vídeo/filme antigo da Fanta — biográfico e homoerótico — que explode como escândalo e derruba sua passagem pelo governo. Não é apenas “queda pública”; o episódio opera como comentário sobre a punição social que transforma passado em sentença e usa imagem e intimidade como ferramenta de controle. A partir disso, o romance encosta em temas grandes sem recorrer a explicações didáticas: sexualidade, religião, exposição, moralidade pública, ultradireita, controle do corpo e disputa pela narrativa sobre quem alguém é.
O eixo que atravessa tudo isso, do jeito que li, é a recusa do livro em trabalhar com um esquema simples de “bons e maus”. A Igreja pode funcionar como abrigo e opressão. A arte pode ser liberdade e vaidade. O poder pode envolver ambição, medo, autopunição e sobrevivência ao mesmo tempo. E o afeto pode operar como suporte e como prisão. O livro não parece interessado em oferecer uma moral pronta; ele coloca a identidade como um campo irregular, com rachaduras, em que erros também participam da construção de quem alguém vira.
O ponto de atrito, para mim, é que essa força temática não se converteu em fluidez de leitura. O romance aposta alto em estrutura e estilo, o que tende a dividir leitores — comigo, virou desgaste. A narrativa brinca com o tempo, mistura épocas, embaralha acontecimentos e exige que o leitor monte as peças. Em tese, isso combina com uma protagonista que não se deixa dominar por completo. Na prática, muitas vezes eu tive a impressão de que o texto estava mais empenhado em parecer “bem composto” do que em sustentar a história com clareza.
A alternância de foco e até de pessoa narrativa (aproxima, afasta, muda) às vezes soa como recurso consciente para reforçar instabilidade e contradição. Em outros momentos, parece um tropeço: em vez de intensificar, afasta. E isso se junta ao principal ponto da minha avaliação: eu acho que essa história poderia ter me comovido muito mais se a prosa não fosse tão cansativa, confusa e cheia de malabarismos linguísticos exagerados. Em muitos trechos, percebi uma preocupação grande em produzir frases diferentes, evitar o óbvio, construir um texto “estiloso”. E, nesse processo, o enredo perde espaço e se dilui. A sensação foi de que havia material para impacto, mas eu precisava atravessar uma camada de forma que, para mim, não era necessária.
Existe diferença entre escrever com personalidade e escrever como se a forma precisasse o tempo inteiro provar que é forma. Aqui, fiquei com a impressão de que a balança pendeu para o acabamento linguístico e para a composição, com a ideia de frase “trabalhada” ocupando o centro. O resultado, na minha leitura, foi perda de impacto: não por falta de tema ou de personagens, mas porque o texto cansava antes de o livro conseguir atingir o que tinha em mãos.
Isso chama atenção porque a Fanta é um tipo de personagem com potencial alto para sustentar um romance de grande impacto. Ela reúne matéria narrativa para isso: fé, repressão, desejo, arte, poder, queda, família, exposição pública, culpa e tentativa de reconstrução. Só que o mergulho psicológico nem sempre chega com a intensidade esperada. Em vez de me sentir dentro da experiência dela, eu me via frequentemente do lado de fora, tentando entender o que o texto estava fazendo. Quando um livro sobre contradição vira mais um exercício de decifração do que de leitura, ele perde parte do efeito que poderia produzir.
Mesmo assim, eu não classifico a leitura como “ruim”. Eu a classifico como frustrante, porque há elementos consistentes. O livro não transforma a Fanta em exemplo, nem em heroína, nem em vítima ideal. O vazamento do filme tem peso social e não funciona apenas como artifício de trama. As relações são ambíguas de forma verossímil, especialmente com o tio, onde cuidado e violência emocional convivem. O filho entra sem romantização da maternidade. E o retorno do primeiro amor funciona como engrenagem de memória e lacuna. São escolhas claras e, em vários aspectos, corajosas. Ainda assim, eu precisava de menos labirinto formal e mais espaço para a história se sustentar.
No geral, “Do teu fantasma vejo só o coração” tende a funcionar melhor para quem gosta de romances que exigem participação ativa, não seguem linha do tempo linear e tratam contradição como essência, sem receio de encostar em religião, sexualidade e política. Para mim, é um livro com uma proposta grande, mas preso a um tipo de escrita que, em vários momentos, parece mais interessada em impressionar do que em sustentar a narrativa com clareza.

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