A ideia de que existem “leituras inferiores” e “leituras superiores” parece, à primeira vista, sustentada por critérios técnicos legítimos: domínio da linguagem, complexidade estrutural, inovação formal, densidade temática. Esses elementos existem, são estudados e fazem parte da crítica literária séria. O problema começa quando essa análise técnica escorrega para um juízo hierárquico rígido, como se a literatura fosse uma pirâmide estática e universal, onde alguns livros ocupam naturalmente o topo e outros estariam condenados à base.
A história literária mostra que essa pirâmide nunca foi fixa.
Muitos autores hoje consagrados passaram por períodos de desvalorização ou desconfiança crítica. Charles Dickens publicava em formato de folhetim, em capítulos semanais, voltados para o grande público. Era acusado por alguns críticos de sentimentalismo e apelo comercial. No entanto, sua construção de personagens, sua crítica social e sua habilidade narrativa o tornaram um dos nomes centrais da literatura inglesa.
Jane Austen foi durante muito tempo vista como autora de “romances domésticos”, quase triviais, centrados em casamento e etiqueta social. Hoje sua ironia, sua construção psicológica e sua crítica sutil às estruturas de poder são amplamente estudadas em universidades do mundo inteiro.
Edgar Allan Poe foi rotulado como sensacionalista e excessivamente melodramático. Seus contos eram associados ao efeito imediato, ao choque, à atmosfera sombria. Atualmente é reconhecido como um dos fundadores do conto moderno e uma influência decisiva na literatura policial e psicológica.
Fiódor Dostoiévski publicava em revistas populares e foi criticado por dramatização intensa. Hoje é considerado um dos maiores exploradores da mente humana na ficção.
Mesmo Virginia Woolf, frequentemente usada como símbolo da “alta literatura”, enfrentou resistência por romper com a narrativa tradicional. Sua escrita foi chamada de hermética, elitista e excessivamente introspectiva. O que hoje é visto como inovação formal já foi interpretado como afastamento do “bom senso narrativo”.
No Brasil, Machado de Assis iniciou sua carreira com romances românticos convencionais e publicações em folhetins. A consagração de sua fase mais experimental veio com o tempo, à medida que a crítica passou a valorizar a ruptura estrutural e a ironia metalinguística.
Esses exemplos mostram algo fundamental: o valor literário não é uma essência fixa. Ele é construído socialmente, historicamente e criticamente. O cânone é resultado de disputas culturais, institucionais e acadêmicas. O que hoje é central já foi marginal. O que hoje é considerado “menor” pode, em outro contexto, ser reavaliado.
Isso não significa afirmar que “tudo é igual” ou que critérios técnicos não importam. Eles importam — e muito. A análise formal é uma ferramenta poderosa. Estrutura narrativa, coesão, ritmo, construção de personagem, domínio estilístico: tudo isso pode ser estudado e comparado. Mas transformar esse estudo em instrumento de distinção social é outra coisa.
O sociólogo Pierre Bourdieu argumentava que o gosto cultural muitas vezes funciona como marcador de distinção. Não é apenas sobre apreciar uma obra; é também sobre se diferenciar de outros grupos. Quando alguém afirma que certos livros são “inferiores” e que sua leitura revela pobreza intelectual, o discurso frequentemente não está apenas descrevendo um critério técnico. Está delimitando pertencimento.
Há ainda outro ponto relevante: a literatura não cumpre apenas função estética formal. Ela também cumpre funções afetivas, sociais e simbólicas. Um romance popular pode oferecer identificação, catarse, conforto, entretenimento ou até reflexão em níveis diferentes daqueles valorizados pela crítica acadêmica. A experiência do leitor não é anulada por não se alinhar aos parâmetros formais mais consagrados.
Além disso, muitos gêneros hoje legitimados nasceram sob forte preconceito. O romance policial, a ficção científica, o horror, o próprio romance sentimental foram considerados por décadas formas menores. Hoje são estudados como espaços de experimentação estética e crítica social.
Existe também uma diferença entre dizer “essa obra tem limitações técnicas” e afirmar “essa leitura é inferior”. A primeira é uma análise específica, argumentável e contextualizada. A segunda é um rótulo absoluto que ignora que a literatura é múltipla em função, público e intenção.
Outro aspecto importante é o tempo. O que se considera formalmente inovador muda. O realismo já foi vanguardista. O modernismo já foi uma ruptura radical. O experimentalismo já foi acusado de destruir a narrativa. Cada geração redefine o que entende como arte qualificada.
Quando alguém afirma que estuda “os fundamentos formais da arte” para compreender o que é artisticamente válido, isso é legítimo. O problema surge quando essa busca se transforma em tribunal definitivo. A crítica literária mais sólida raramente opera com categorias simplistas de “superior” e “inferior” como verdades absolutas. Ela trabalha com contexto, intenção, tradição e recepção.
Existe literatura tecnicamente frágil? Sim. Existem livros mal estruturados? Também. Mas a existência de critérios não implica uma hierarquia moral entre leitores. Ler por prazer não é incompatível com ler por estudo. Ler entretenimento não impede leitura complexa. A própria história mostra que muitas obras que começaram como entretenimento acabaram absorvidas pelo cânone.
A ideia de que a arte pode ser organizada como uma escala rígida ignora a fluidez cultural. Ignora também que a leitura é um processo. O leitor iniciante de hoje pode ser o leitor erudito de amanhã, e talvez o caminho passe justamente por livros considerados “menores”. A formação de repertório raramente começa pelo topo do cânone.
A crítica às chamadas leituras “menores” muitas vezes está direcionada não apenas ao conteúdo, mas ao modo de produção e circulação dessas obras. O alvo frequente são romances independentes publicados na Amazon, especialmente os chamados “hots” femininos, com títulos sugestivos e capas apelativas.
Existe aí uma mistura de três preconceitos distintos: contra o formato independente, contra a literatura de gênero e contra o público majoritariamente feminino.
O modelo tradicional de validação literária sempre passou por editoras, crítica especializada, prêmios e universidades. A autopublicação rompe esse circuito. Quando uma autora publica de forma independente, sem o selo de uma grande editora, ela está fora do sistema clássico de legitimação. Para muitos críticos, isso é visto como ausência de filtro, como se a curadoria editorial fosse o único mecanismo possível de qualidade.
Mas a história mostra que os mecanismos de legitimação mudam. A própria imprensa do século XIX era vista com desconfiança. O folhetim, que hoje associamos a clássicos consagrados, era considerado produção comercial voltada às massas. O fato de uma obra circular fora do circuito tradicional não determina automaticamente seu valor.
No caso específico dos romances eróticos contemporâneos, há ainda uma camada de julgamento moral e de gênero. Literatura erótica escrita por mulheres, para mulheres, frequentemente é tratada como superficial ou puramente comercial. O curioso é que narrativas com erotização explícita, quando direcionadas ao público masculino ou incorporadas a gêneros consagrados, raramente recebem o mesmo grau de desprezo.
Há também uma confusão recorrente entre gosto pessoal e valor estético. É perfeitamente legítimo não gostar de romances hots, de fantasia romântica ou de dramas intensos. O problema surge quando a rejeição estética se transforma em rótulo de inferioridade intelectual.
Outro aspecto importante é o mercado. A Amazon democratizou o acesso à publicação. Isso gera abundância. E abundância gera variação de qualidade. Há livros mal revisados, mal estruturados, repetitivos. Mas isso não é exclusividade da autopublicação. O mercado editorial tradicional também publica obras fracas, impulsionadas por marketing ou tendências comerciais.
O que incomoda parte da crítica é que esses livros independentes alcançam grande público sem a chancela cultural tradicional. Vendem muito, criam comunidades de leitoras, movimentam rankings. Essa autonomia do público leitor desestabiliza a ideia de que a validação precisa vir de cima.
Há ainda um elemento simbólico. Quando mulheres escrevem narrativas centradas em desejo, fantasia, prazer e emoção, e essas obras dominam listas de vendas, isso confronta hierarquias antigas sobre o que deve ou não ser considerado literatura “séria”. Durante séculos, temas ligados ao universo feminino foram classificados como domésticos, triviais ou menores. O rótulo muda, mas a lógica permanece semelhante.
Isso não significa que toda obra independente seja tecnicamente sofisticada. Muitas não são. Mas a sofisticação formal nunca foi o único critério de relevância cultural. Impacto social, identificação coletiva, representação de desejos e conflitos contemporâneos também são dimensões legítimas de análise.
Há uma diferença fundamental entre crítica técnica e desprezo. A crítica técnica analisa estrutura, coerência, linguagem e inovação. O desprezo simplifica e transforma leitura em marcador de status. Quando alguém usa termos como “fast food literário” ou “pobreza estética” para definir todo um segmento, geralmente não está apenas discutindo técnica, mas demarcando fronteiras simbólicas.
A democratização da publicação amplia o campo literário. Isso inevitavelmente gera tensão. Parte dessa tensão é saudável, porque provoca discussão sobre critérios, qualidade e responsabilidade. Mas parte dela é puramente reativa, baseada na ideia de que aquilo que não passa pelos canais tradicionais não pode ter valor.
O que talvez mais incomode é que essas leitoras e autoras não estão pedindo validação acadêmica. Elas criam seu próprio ecossistema. E isso desloca o centro de autoridade.
No fim, a pergunta não é se todos os livros têm o mesmo nível técnico. Evidentemente não têm. A questão é outra: transformar preferência estética em hierarquia moral ou intelectual revela mais sobre quem julga do que sobre o objeto julgado.
A literatura não é um território fechado. É um campo em disputa, em constante transformação. E a presença massiva de livros independentes, inclusive os hots femininos, faz parte dessa transformação. Ignorar isso ou reduzir tudo a “inferioridade” é simplificar um fenômeno cultural complexo.
A história da literatura é, em grande parte, a história de reavaliações. Obras esquecidas são redescobertas. Autores populares são canonizados. Movimentos marginalizados ganham centralidade. Se o passado nos ensina algo, é que qualquer afirmação definitiva sobre superioridade literária carrega o risco de envelhecer mal.
A literatura não é um campeonato. É um campo em constante movimento, onde técnica, emoção, contexto e recepção se cruzam. Reduzi-la a um ranking fixo pode dar uma sensação momentânea de segurança intelectual. Mas empobrece justamente a complexidade que a arte oferece.

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