13 de fevereiro de 2026

O RISCO – LEITURA RÁPIDA E MOVIDA A ADRENALINA

Avaliação

ENREDO
7/10
PERSONAGENS
5/10
ESCRITA
5/10
RITMO
8/10
ORIGINALIDADE
7/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
7/10
Geral
6.5/10
AUTORA: S.T. Abby • TRADUÇÃO: Lígia Azevedo • EDITORA: Paralela • 2026 • PÁGINAS: 184

A série “The Mindfck*” é um thriller em cinco partes que mistura investigação, vingança e romance com um ritmo viciante. Os livros são curtos, com capítulos diretos e repletos de ganchos, perfeitos para quem quer devorar uma história em sequência. A protagonista, Lana Myers, leva uma vida aparentemente comum, mas por trás disso executa um plano frio e metódico contra pessoas ligadas a um crime do passado. Enquanto isso, se envolve com Logan Bennett, um agente do FBI especializado em serial killers, inclusive nos assassinatos cometidos por ela. A tensão do enredo nasce exatamente aí: o leitor acompanha o equilíbrio perigoso entre a investigação que avança e o segredo que ela tenta esconder.

O risco”, primeiro volume da série, não perde tempo com introduções longas. Lana já está em ação, e a narrativa vai alternando entre momentos em que ela precisa parecer alguém comum e outros em que age com frieza calculada. Logan entra como peça fundamental nessa equação: é ele quem representa a justiça institucional, o protocolo, a linha reta. Ao mesmo tempo, é o elo mais perigoso para Lana, já que sua proximidade emocional pode colocar tudo a perder. O romance entre os dois, portanto, não existe só para criar uma tensão romântica: ele funciona como um amplificador de risco — quanto mais se aproximam, maior a chance de colisão.

A escrita de S.T. Abby é direta, econômica, sem enrolação. As cenas têm objetivos claros, as transições são rápidas, e o texto quase nunca se detém em descrições longas ou subtextos densos. Isso mantém o ritmo alto, impulsiona a leitura, mas cobra seu preço em nuance. Quem espera mais tempo para digerir as emoções ou acompanhar as consequências do que acontece talvez sinta falta de camadas mais profundas. O livro aposta na eficiência: cada capítulo traz avanços de trama, novos riscos e revelações que reorganizam a forma como o leitor entende tudo. O passado de Lana, por exemplo, é revelado aos poucos, em fragmentos que não só explicam suas motivações, mas também transformam a percepção do que está em jogo no presente.

Lana, como protagonista, não tenta ser simpática. Ela não ocupa o lugar tradicional da heroína, e o livro também não se esforça para suavizar seus atos. Sua força está justamente nessa ambiguidade moral: é uma personagem meticulosa, fria quando necessário, mas que claramente carrega um trauma. Isso obriga o leitor a caminhar junto com alguém que é ao mesmo tempo vítima e agressora, justiceira e criminosa. Logan, por outro lado, equilibra essa balança, não apenas como figura romântica, mas como representante do lado “correto” da lei. Ele também é a âncora investigativa da série, mesmo que — e talvez justamente por isso — o envolvimento entre os dois seja uma ameaça constante à estabilidade dos dois mundos.

O elemento policial, aliás, aparece mais como estrutura do que como retrato realista. A autora não se preocupa com fidelidade a procedimentos investigativos. As descobertas acontecem quando precisam acontecer, as conexões surgem com exatidão quase conveniente. Isso pode incomodar quem busca verossimilhança ou uma apuração consistente. Várias decisões parecem impulsionadas mais pela necessidade de movimentar a trama do que por coerência interna. Às vezes, informações caem no colo dos personagens, riscos são contornados com facilidade, e o planejamento que deveria sustentar os atos de Lana fica apenas sugerido, sem muito detalhe prático. A narrativa afirma que ela é metódica, mas raramente mostra como, e essa ausência de “como” deixa lacunas que enfraquecem a plausibilidade.

O mesmo vale para o lado emocional. Há trauma, há romance, há culpa, mas quase nunca o texto se demora nessas emoções. Em vez de mergulhar na consequência, ele prefere saltar para o próximo impacto. É uma escolha que funciona bem para quem busca uma leitura acelerada, mas que pode deixar a sensação de que tudo é um pouco raso. Para uma história que lida com decisões morais pesadas e violência extrema, a falta de aprofundamento às vezes soa como um escudo contra a complexidade. O livro não finge ser mais do que é, e talvez esse seja seu maior acerto e sua maior limitação.

Na prática, “O risco” se assume como um thriller de impacto, que troca densidade por ritmo. Os “furos” narrativos e as conveniências de roteiro parecem parte do pacote: não são erros descuidados, mas escolhas conscientes. A autora quer garantir que o leitor vire a página, que o próximo capítulo comece antes que se possa pensar demais. E, dentro dessa proposta, entrega exatamente o que promete. Para quem gosta de histórias com tensão crescente, protagonistas fora do padrão e uma narrativa que avança como uma série de TV, a leitura flui com facilidade. Já quem prefere tramas mais construídas, com investigações bem amarradas e consequências emocionais aprofundadas, pode se frustrar com a rapidez com que tudo acontece.

No centro da história, os temas de vingança e justiça se destacam. A série trabalha o conflito entre a justiça oficial e a justiça feita com as próprias mãos, e também mergulha na ideia de identidade dupla — não só como disfarce, mas como mecanismo de sobrevivência. É uma leitura voltada a quem tolera violência gráfica e tensão constante. Ainda que escorregue na lógica em alguns momentos, “O risco” se mantém coerente com sua proposta de ser uma leitura rápida, intensa e movida a adrenalina.

Infelizmente, a autora encontrou um eco trágico em sua própria vida, culminando em uma morte violenta que deixou a comunidade literária em choque e com mais perguntas do que respostas. Pode ler mais sobre aqui.

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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