5 de janeiro de 2026

AQUELES QUE ENTERREI – THRILLER QUE IRRITOU OS BOLSOMINIONS

Teddi, filha de um músico da cena do rock nacional oitentista, acorda num hospital e recebe a notícia de que devido a um acidente de carro, sofreu uma amnésia retrógrada que apagou as lembranças dos últimos seis meses de sua vida. Seu pai, com quem nunca teve contato, está morto e ela herdou sua casa em um remoto condomínio de luxo. Além disso, ela está grávida.

Rebeca tem quase tudo o que sempre quis: um casamento perfeito com Cesar, sua própria empresa de semijoias e uma recém-construída casa dos sonhos. Falta o filho tão desejado, que nunca vem, não importa o que ela faça.

Cesar conseguiu se casar com a mulher dos seus sonhos e construir uma carreira multimilionária, apesar de sua origem humilde. Ele estaria vivendo o melhor momento de sua vida, não fosse a garota grávida que herdou a casa ao lado – uma lembrança constante da infertilidade do casal -, que está cada vez mais próxima de sua esposa e de descobrir seu único segredo.

Talvez Teddi, Rebeca e Cesar tivessem chances de saírem ilesos desse triângulo de segredos e mentiras, não fosse a pandemia que se alastra pelo país, forçando todos a um isolamento que os fará regredir aos seus instintos mais selvagens de autopreservação.

Aqueles que Enterrei” é um suspense psicológico com a cara do gênero *domestic noir*: aquele tipo de livro em que a tensão não vem só de descobrir “quem fez o quê”, mas de observar como a própria casa se transforma em um campo minado. As relações viram uma prova de resistência e a verdade parece estar sempre um passo atrás de quem narra a história. O cenário da pandemia e do confinamento não é apenas um detalhe, mas uma lente de aumento para a paranoia, a dependência emocional e os segredos que só precisavam de um empurrão para vir à tona.

A história é contada a partir dos pontos de vista dos três personagens principais, que se alternam, criando um clima de suspeita constante. É fácil duvidar de todos eles, até mesmo de quem parece ser a maior vítima no começo. As informações chegam aos poucos, com lacunas, e sempre fica a desconfiança de que o narrador não está sendo totalmente sincero.

Teddi é o centro da instabilidade na história. A ideia de ela acordar de um acidente com amnésia dos últimos seis meses, grávida e sem saber quem é o pai, não é só um truque de suspense, mas o motor emocional da trama. Teddi não tem controle sobre seu próprio passado recente, e isso faz com que qualquer detalhe se torne uma ameaça: um gesto, uma frase, uma lembrança que não se encaixa. O fato de ela herdar a casa do pai (um homem com quem não tinha vínculo) abre a porta para um passado “emprestado”, cheio de camadas e armadilhas. Teddi é a peça que bagunça o jogo e, sem saber, ameaça o frágil equilíbrio de seus vizinhos. Sua jornada é uma busca desesperada pela verdade, tanto sobre os outros quanto sobre si mesma.

Rebeca é a personificação da frustração e da obsessão. Sua vida, que para os outros parece perfeita, é marcada pela dor da infertilidade. Ela abandonou a carreira e depositou todas as suas esperanças na maternidade, um sonho que se transforma em uma obsessão doentia. Ela representa o que acontece quando a expectativa da sociedade se torna uma prisão. A chegada de Teddi, grávida, funciona como um gatilho para seus medos e ressentimentos mais profundos, mostrando as consequências devastadoras de uma identidade definida apenas pelo desejo de ser mãe.

César é o tipo de homem que construiu seu sucesso sobre uma base de segredos. Ele subiu na vida e conquistou tudo o que sempre sonhou, mas seu castelo de cartas está sempre ameaçado por um segredo que pode destruir tudo. Ele se mostra protetor com Rebeca, mas essa proteção é também uma forma de controle. César representa a dualidade entre a aparência de um homem respeitável e uma brutalidade escondida, mostrando como o passado pode assombrar e definir o presente. Ele é a peça central do jogo social e doméstico, trazendo tensão para o dia a dia e, ao mesmo tempo, ajudando a confundir nosso julgamento. Quem está manipulando quem? Quem está escondendo o quê?

Além do trio principal, outros personagens são importantes. Apolo, irmão de Teddi, é um dos médicos na linha de frente da pandemia e entra em desespero com as mortes que precisa aceitar. A relação dele com a irmã não é simples nem afetuosa, parecendo mais uma obrigação de sangue do que um laço real.

Bergler, o pai de Teddi, aparece pouco, apenas em lembranças, mas ainda assim consegue provocar desprezo e um embrulho no estômago. No fim, ele move parte da trama e da tragédia pelas heranças que deixa — não só as materiais, mas principalmente as emocionais e psicológicas, traumas que moldam Teddi e destroem sua vida.

Por fim, Mauro é quem conecta vários fios da história. Ele sabe segredos do passado de Teddi que ela mesma esqueceu e usa isso para tentar forçá-la a vender a casa para pagar uma dívida que ela também não se lembra de ter feito. Mauro é ganancioso e sua busca por dinheiro o leva a se endividar com agiotas perigosos, tornando-o vulnerável e forçando-o a tomar decisões que afetam diretamente a trama.

No livro, o confinamento da pandemia é usado para aumentar a sensação de claustrofobia e paranoia, tornando-se um mecanismo da própria narrativa. Todos estão isolados, física e emocionalmente, o que torna as reações mais intensas e difíceis de julgar. Isso força os personagens a confrontarem seus próprios demônios e os de seus vizinhos, transformando o lar, que deveria ser um lugar seguro, em um campo de batalha psicológico.

A autora foge da visão romântica da maternidade, mostrando-a como uma fonte de angústia, obsessão e até violência. A dor de Rebeca e a gravidez inesperada de Teddi criam um contraste forte, questionando o que significa ser mãe em uma sociedade que impõe tantas expectativas e julgamentos. Senti que a história está menos interessada em comover e mais em mostrar como esse tema pode se tornar um lugar de violência, seja ela simbólica ou literal.

A obra também é um estudo sobre como as aparências enganam. Por trás da fachada de sucesso e felicidade do condomínio de luxo, escondem-se segredos, mentiras e ressentimentos que destroem as relações. O livro nos lembra que nunca conhecemos de verdade as pessoas ao nosso lado.

A amnésia de Teddi cria um suspense particular: não se trata apenas de “descobrir o culpado”, quem é o pai de seu filho ou por que ele não aparece, mas também de descobrir o que foi apagado de sua memória e quem se beneficia disso. Aos poucos, os traumas são revelados, mas é depois desse ponto que a história sofre uma reviravolta que, para mim, a tornou fraca e forçada. O final parece apressado, com furos na trama, e deixa a sensação de que seu único objetivo era chocar.

Até essa virada, Rebeca é movida pelo desejo de ser mãe, e sua relação com Teddi é moldada pela promessa de que Teddi lhe daria seu filho para criar, já que ela nunca quis ser mãe. No entanto, a partir da reviravolta, Rebeca ganha uma outra saída, mais segura e permanente, e não precisaria mais depender do filho de Teddi. Mesmo assim, ela começa a tomar uma série de decisões sem sentido e desproporcionais, considerando que sua principal motivação não existe mais.

O livro tem pouco mais de 400 páginas, e quase metade delas é preenchida com conversas desinteressantes, que não fazem a história progredir nem desenvolvem os personagens. Confesso que pensei em desistir da leitura quando passei da página 100 e nada acontecia, além de diálogos chatos. A partir da página 140, a história finalmente engrena e se desenrola até quase o fim, quando a conclusão é apresentada de forma descuidada em um ou dois capítulos.

Esses altos e baixos incomodam e tiram o brilho do livro. Principalmente o final, que parece feito apenas para chocar, com decisões e ações dos personagens que são totalmente incoerentes com tudo o que foi apresentado antes. E o pior: sem um motivo real para agirem assim, já que a motivação principal para essas ações deixou de existir.

O miolo da história, com seu clima de desconfiança lenta, é a parte que melhor funciona no thriller. As outras partes, infelizmente, acabam estragando essa experiência. Se você prefere um suspense mais “investigativo clássico”, com pistas objetivas e uma sensação de controle, talvez este livro te provoque mais do que te satisfaça.

Mas eu não posso terminar esta resenha sem comentar algumas críticas que afirmam que a autora está “inventando política” do nada nas partes em que usa a pandemia como pano de fundo — com hospitais lotados, mortes, luto e a espera pela vacina. Ela não está inventando: está trabalhando com um fato histórico que atravessou a vida de todo mundo. E, no caso de “Aqueles que Enterrei”, essa escolha tem uma função narrativa clara: a pandemia aperta o mundo, encurta as saídas, aumenta o medo, e deixa as pessoas mais expostas, por fora e por dentro. A sensação de claustrofobia e descontrole não é só clima; é parte do motor do suspense.

O problema é que existe um tipo de crítica que não está debatendo literatura. Está tentando reescrever a realidade. Quando alguém diz que “a covid nem existiu”, que “não morreu tanta gente”, ou que “vacina não funciona”, essa pessoa não está oferecendo uma leitura alternativa do livro. Está negando evidências, desprezando registros públicos e, pior, transformando tragédia em disputa de torcida.

A pandemia foi reconhecida como pandemia pela Organização Mundial da Saúde em 11 de março de 2020. Isso não é opinião; é um marco documentado. E, no Brasil, as mortes não são “história inventada”: o próprio painel oficial do Ministério da Saúde registra, no acumulado, centenas de milhares de óbitos e uma mortalidade alta por 100 mil habitantes. Mesmo iniciativas independentes que compilam dados a partir das secretarias estaduais apontam números na mesma ordem de grandeza, reforçando que não se trata de um delírio coletivo.

A vacina, por sua vez, não é um “ato de fé” nem um símbolo partidário: é uma tecnologia com resultados mensuráveis. Estudos com dados reais mostram redução de risco de morte entre internados vacinados, e instituições científicas brasileiras reiteram a efetividade das vacinas aprovadas no país para reduzir casos graves e óbitos. E quando boatos tentam sugerir o contrário, checagens e análises apontam onde a interpretação foi distorcida: não é “censura”, é correção de mentira travestida de dúvida.

E aí entra um ponto que o livro, ao retratar a demora da vacina e o ruído político, encosta numa ferida real: a liderança pública influencia o comportamento. Há registro jornalístico e declarações públicas do então presidente Jair Bolsonaro dizendo que não tomaria vacina, reforçando a desconfiança e tratando o tema como disputa ideológica. Além disso, documentos e depoimentos em instâncias oficiais do Estado brasileiro registraram que houve ofertas de doses (incluindo possibilidade de entrega ainda em 2020) e que o governo não respondeu dentro do prazo de validade de propostas, algo que virou tema de apuração pública. Dizer que “isso é mentira de esquerdista” não apaga o fato de que essas informações existem em registros acessíveis e verificáveis.

Então, quando alguém lê “Aqueles que Enterrei” e chama a autora de “mentirosa” por mostrar hospitais lotados e mortes, eu vejo menos uma discordância e mais uma tentativa de deslegitimar o luto alheio. Porque negar a covid não é só negar um vírus: é negar o que aconteceu em milhares de casas, negar quem trabalhou em UTI, negar famílias que enterraram gente sem despedida. É uma forma de violência simbólica: a pessoa quer sair do desconforto da realidade e, para isso, empurra a culpa para “propaganda”, “política”, “invenção”.

E tem um erro de base nessa acusação de “misturar política”: política estava dentro da pandemia. Não porque um livro decidiu “militar”, mas porque decisões públicas afetaram compra de vacinas, comunicação oficial, adesão a medidas, transparência de dados. Isso atravessou o cotidiano — inclusive o de quem jura que “não tem nada a ver”. Fingir que isso não existiu é pedir que a literatura seja uma espécie de anestesia: um lugar onde a realidade não pode aparecer para não contrariar convicções pessoais.

O que esse tipo de crítica revela, no fim, é o medo do fato. Porque o fato é teimoso: a OMS declarou pandemia; os painéis oficiais registraram mortes; estudos e instituições mostram efeito protetor das vacinas; e há documentação pública sobre a disputa política em torno da vacinação.

Eu não acho que todo leitor precise gostar do livro. Dá para criticar ritmo, personagens, reviravolta, excesso de diálogo — tudo isso é literatura. Mas transformar negacionismo em “opinião” e chamar a realidade documentada de “mentira” é outra coisa. Aí já não é crítica: é desinformação, e desinformação custa caro — custou caro.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: Cláudia Lemes
EDITORA: AVEC
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 352
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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