Publicado por Emily Brontë em 1847, “O Morro dos Ventos Uivantes” é frequentemente celebrado como uma das maiores histórias de amor da literatura inglesa. O romance entre Catherine Earnshaw e Heathcliff tornou-se icônico, com a famosa declaração “Eu sou Heathcliff” sendo citada como uma das expressões mais apaixonadas do amor romântico.
No entanto, uma análise mais profunda da obra revela que reduzi-la a uma simples história de amor seria ignorar as múltiplas camadas de crítica social, política e filosófica que Emily Brontë teceu em sua narrativa. A obra é, na verdade, uma desconstrução radical do próprio conceito de romance, ao mesmo tempo em que oferece uma crítica contundente às estruturas de poder da sociedade vitoriana.
Contrariando a percepção popular, “O Morro dos Ventos Uivantes” não é uma celebração do amor romântico, mas sim uma desconstrução deliberada dos tropos românticos. A professora de literatura Helen Small defende que a obra carrega simultaneamente uma das maiores histórias de amor da língua inglesa e uma das mais brutais narrativas de vingança. Esta dualidade não é acidental, mas intencional.
Heathcliff, frequentemente interpretado como um herói byroniano — a figura sombria e atormentada que a heroína deve salvar de si mesmo — é, na verdade, uma paródia ou desconstrução desse arquétipo. Diferentemente do herói byroniano tradicional, Heathcliff nunca recebe um arco de redenção. Suas ações tornam-se progressivamente mais sádicas ao longo do tempo, e mesmo após suas atitudes levarem a uma tragédia, ele se recusa categoricamente a se redimir, afirmando: “Não cometi injustiça e não me arrependo de nada”. Esta recusa em seguir o roteiro esperado do herói romântico é um comentário meta-literário sobre as expectativas do público leitor.
A personagem Isabella funciona como uma representação do leitor ingênuo que espera encontrar uma história de amor convencional. Ela vê Heathcliff como um “herói de romance”, exatamente o que ele está sendo usado para parodiar. A resposta de Heathcliff, de que mal pode considerá-la “à luz de uma criatura racional”, serve como um aviso direto contra a tendência de romantizar sua figura. Este é um comentário meta-literário explícito sobre os perigos de formar uma noção fabulosa de seu caráter.
O próprio relacionamento entre Catherine e Heathcliff não é apresentado como algo puro ou desejável, mas como uma promessa de destruição mútua. A linha mais famosa do romance, “Eu sou Heathcliff”, é frequentemente citada fora de contexto. Imediatamente antes desta declaração, Catherine confessa a Nelly que se estivesse no céu, seria extremamente miserável porque sabe que Heathcliff não estaria lá. Esta não é uma celebração do amor transcendente, mas uma admissão de que seu mundo colapsou em torno dele. Uma interpretação que a feminista Simone de Beauvoir explorou em “O Segundo Sexo”, argumentando que Catherine está afirmando que o mundo no qual ela realmente vive é o dele, refletindo o mito do amor romântico onde o homem é superior e livre, enquanto a mulher se sente presa.
Uma das mensagens centrais da obra é a crítica devastadora ao patriarcado e ao efeito estrangulador que ele exerce sobre as mulheres. Catherine Earnshaw é apresentada inicialmente como uma criança destemida, “meio selvagem, resistente e livre”, que corre pelos pântanos de Yorkshire sem restrições. No entanto, à medida que amadurece, ela é progressivamente emaranhada na violência física e mental do patriarcado, sendo forçada a se conformar aos papéis de gênero esperados de uma mulher vitoriana.
Seu desejo de retornar à infância, de ser “uma garota novamente, meio selvagem e livre”, representa não apenas nostalgia, mas uma crítica à perda de autonomia que as mulheres experimentavam ao entrar na vida adulta na sociedade vitoriana. Estudiosos feministas argumentam que Catherine pode ter se sentido tão conectada a Heathcliff precisamente porque ele possuía todas as coisas que ela desejava e nunca poderia ter: liberdade, mobilidade social e autonomia. Nesta interpretação, o que parece ser amor romântico é, na verdade, desejo por liberdade.
A decisão de Catherine de casar-se com Edgar Linton, motivada pela segurança social e econômica que ele oferece, representa sua capitulação às estruturas patriarcais que a oprimem. Esta escolha não é apresentada como uma traição romântica, mas como uma traição a si mesma e aos valores de liberdade que compartilhava com Heathcliff na infância. Emily Brontë deixa claro que Catherine escolhe aderir aos papéis de gênero, e esta escolha tem consequências devastadoras.
A obra foi publicada em 1847, durante um período de transição entre o mundo feudal e a Revolução Industrial, quando as estruturas de classe social estavam sendo radicalmente redefinidas. “O Morro dos Ventos Uivantes” oferece uma crítica sofisticada ao sistema de classes britânico, explorando como a classe social determina não apenas oportunidades econômicas, mas também o próprio senso de identidade e valor pessoal.
O contraste entre as duas propriedades — a prestigiada Granja da Cruz dos Tordos (Thrushcross Grange), habitada pela família Linton, e o decadente Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights), lar dos Earnshaw, simboliza a divisão entre a classe média emergente e a antiga ordem feudal. A Granja representa civilização, estabilidade, festas e boas maneiras, enquanto o Morro é marcado pela violência dos ventos, decadência e comportamentos intempestivos.
A trajetória de Heathcliff é particularmente significativa neste contexto. Como órfão tratado como inferior por Hindley Earnshaw (apesar de terem sido criados como irmãos), ele experimenta diretamente a brutalidade do sistema de classes. Após deixar o Morro dos Ventos Uivantes, ele retorna rico, em uma ascensão social que ecoa “O Conde de Monte Cristo”. No entanto, sua riqueza não traz redenção; ao contrário, ele usa seu novo poder econômico para perpetuar o mesmo sistema de opressão que o vitimizou, tornando-se ele próprio um opressor.
Esta é uma das críticas mais devastadoras de Brontë: a obra demonstra como as vítimas da opressão podem se tornar opressores quando obtêm poder dentro do mesmo sistema que os prejudicou, em vez de desafiar ou transformar esse sistema. Heathcliff e Catherine traem sua solidariedade infantil ao buscar os confortos das próprias instituições que os oprimem, e esta traição os destrói.
Uma dimensão frequentemente negligenciada de “O Morro dos Ventos Uivantes” é sua crítica ao racismo e ao imperialismo britânico. A origem de Heathcliff nunca é explicitamente revelada, mas ele é consistentemente referido com termos racializados: “cigano” e “lascar” (termo que pode se referir a origens árabes, africanas ou indianas). Nelly Dean especula, em tom de zombaria, se ele não seria “filho de um imperador chinês e de uma rainha da Índia”. Sua aparência física e possível origem escrava tornam-se motivos suficientes para que Hindley o atormente e o considere inferior.
Estudiosos pós-coloniais argumentam que Heathcliff representa o “Outro” colonial, o estrangeiro racializado cuja presença desestabiliza a ordem social britânica. Sua adoção pela família Earnshaw pode ser lida como uma metáfora para a relação da Grã-Bretanha com suas colônias: uma mistura de paternalismo, exploração e medo do “Outro”. O tratamento brutal que Heathcliff recebe não é apenas resultado de diferenças de classe, mas também de preconceito racial.
A obra foi escrita durante o auge do imperialismo britânico, quando a escravidão havia sido abolida no Reino Unido (1833), mas ainda era praticada nas colônias americanas. Emily Brontë, vivendo em uma nação imperial, estava exposta a discursos sobre raça, colonialismo e a suposta superioridade britânica. Ao criar um protagonista racializado que é simultaneamente vítima e perpetrador de violência, Brontë oferece uma crítica às estruturas coloniais e raciais de seu tempo.
Embora Emily Brontë fosse filha de um pároco anglicano, “O Morro dos Ventos Uivantes” não demonstra respeito convencional pela religião institucional. O único personagem genuinamente religioso, Joseph, é apresentado como uma sátira do movimento metodista, sendo hipócrita, julgador e desagradável. Esta representação chocou os críticos vitorianos, que esperavam que autores demonstrassem reverência religiosa.
A obra explora espiritualidade de maneiras que definitivamente não são cristãs, particularmente através da figura do espírito de Catherine atormentando Heathcliff após sua morte. Estudiosos como Thomas John Winnifrith argumentam que as alusões a céu e inferno no livro não são meras metáforas, mas estão carregadas de significado religioso heterodoxo. Para Heathcliff, a perda de Catherine é o próprio inferno, e sua reunião como fantasmas nos pântanos representa uma forma de libertação espiritual que existe fora das estruturas cristãs convencionais.
Emily Brontë também incluiu vocabulário vulgar e comportamentos imorais que violavam as expectativas de polidez dos autores vitorianos. Esta foi uma escolha deliberada, inspirada pelas histórias de “comportamentos impróprios” que seu pai ouvia em fofocas na igreja. Ao retratar personagens moralmente ambíguos ou abertamente imorais sem oferecer julgamento moral claro, Brontë desafiou as convenções literárias de sua época.
Um tema recorrente na obra é a idealização da infância como um estado de liberdade e autenticidade que é inevitavelmente perdido na vida adulta. Catherine e Heathcliff compartilham uma infância idílica nos pântanos, onde são livres das restrições sociais, dos papéis de gênero e das hierarquias de classe. Esta infância representa um paraíso terrestre de solidariedade e igualdade.
No entanto, à medida que amadurecem, ambos são progressivamente moldados, e deformados, pelas instituições sociais. Suas experiências infantis formam suas paixões, traumas e rancores, que carregam até a fase adulta. Diferentemente de muitos autores vitorianos que acreditavam que as provações da infância formariam adultos resilientes e de bom caráter, Emily Brontë tinha uma visão pessimista: as experiências traumáticas da infância resultaram em adultos orgulhosos, egoístas e destrutivos.
A única forma de redenção possível na obra é o retorno simbólico à infância. Quando Heathcliff finalmente reconhece sua perpetuação do sistema que o vitimizou, ele pode se reunir com Catherine como fantasmas nos pântanos — uma libertação da sociedade que só é possível na morte. A mensagem de Brontë é clara: devemos reconhecer nossos eus infantis antes de sermos domados pela sociedade e lutar continuamente pela retidão e liberdade da infância, apesar dos confortos temporários oferecidos pelo status quo.
Uma crítica contemporânea importante à obra questiona se “O Morro dos Ventos Uivantes” romantiza relacionamentos abusivos e homens violentos. Heathcliff é indiscutivelmente abusivo: ele é cruel com Isabella (a quem engana e maltrata), violento com seu próprio filho, e sua obsessão por Catherine é possessiva e destrutiva. Catherine, por sua vez, é manipuladora e emocionalmente cruel.
No entanto, é fundamental reconhecer que Emily Brontë não apresenta este comportamento como admirável ou desejável. Ao contrário, ela oferece uma visão aterrorizante dos “monstros atormentados” que nos tornamos quando sacrificamos nossa solidariedade e nos aliamos à opressão institucional. O relacionamento entre Catherine e Heathcliff não é um modelo a ser seguido, mas um aviso sobre os perigos da obsessão, da vingança e da perpetuação de ciclos de violência.
A obra explora como a exploração da maldade e o abuso mútuo entre os amantes são consequências diretas das estruturas sociais opressivas nas quais estão inseridos. Heathcliff busca superioridade sobre os outros para compensar anos de ser considerado inferior por causa de sua raça e classe social. Catherine, incapaz de ter autonomia própria, projeta seus desejos de liberdade em Heathcliff. Ambos estão presos em um ciclo de violência que reflete as violências estruturais da sociedade vitoriana.
“O Morro dos Ventos Uivantes” é muito mais do que uma história de amor. É uma obra de crítica social radical que desafia as estruturas fundamentais da sociedade vitoriana: o patriarcado, o sistema de classes, o racismo imperial, a religião institucional e a própria noção de amor romântico. Emily Brontë, descrita por contemporâneos como “uma lei para si mesma”, criou uma obra que continua a chocar e provocar leitores quase dois séculos após sua publicação.
A obra nos pede para esquecer o romance — ou pelo menos, para reconhecer que o “romance” entre Catherine e Heathcliff não é uma celebração do amor, mas uma tragédia sobre a perda de solidariedade e liberdade. Ao serem seduzidos pelos confortos e seguranças oferecidos pelas instituições que os oprimem, Catherine e Heathcliff traem não apenas um ao outro, mas também seus eus autênticos. Quanto mais enredados nas estruturas de poder, mais se fraturam, até que a única libertação possível é a morte.
A mensagem de Brontë permanece urgente e relevante: devemos reconhecer como as instituições sociais — gênero, classe, raça, religião — nos moldam e, frequentemente, nos deformam. Devemos resistir à tentação de buscar poder dentro desses sistemas opressivos, pois ao fazê-lo, corremos o risco de nos tornarmos opressores nós mesmos. E devemos lutar para preservar a “retidão da infância, aquele senso de liberdade, autenticidade e solidariedade que existe antes de sermos domados pelas expectativas sociais.
“O Morro dos Ventos Uivantes” não é uma história de amor. É uma história sobre o que perdemos quando escolhemos a conformidade em vez da liberdade, a segurança em vez da autenticidade, e o poder em vez da solidariedade. É uma obra que merece ser lida e relida, pois a cada nova imersão, revelam-se mais camadas desta rica e perturbadora crítica à condição humana sob o peso das estruturas sociais opressivas.
AVALIAÇÃO: ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
| AUTORA: Emily Brontë TRADUÇÃO: Adriana Lisboa EDITORA: Zahar PUBLICAÇÃO: 2018 PÁGINAS: 480 COMPRE: Amazon |

REDES SOCIAIS