30 de novembro de 2025

O GRANDE GATSBY – A REALIDADE SOBRE DESEJAR DEMAIS

A história de Gatsby não é só uma história de amor frustrado. Também não é só um romance sobre um cara rico que dá festas absurdas pra tentar reconquistar a ex. É isso também — mas vai muito além. É um retrato de uma época, uma crítica ao que a gente chama de “sonho americano”, um estudo sobre classe, desejo, memória, privilégio e ilusão. E, o mais duro: é um aviso de que nem sempre sonhar alto basta. Às vezes, a estrutura não deixa. E ela cobra caro de quem tenta burlar suas regras.

Este texto contém spoilers!

Nick Carraway, o narrador, chega a Nova York nos anos 1920, alugando uma casa modesta em West Egg. Do lado, uma mansão gigantesca, onde o misterioso Jay Gatsby dá festas escandalosas, cheias de música, bebida e gente que nem conhece o dono da casa. Aos poucos, Nick se aproxima de Gatsby e descobre seu segredo: tudo aquilo — a mansão, os ternos, os carros, até a persona “Gatsby” — foi construído para tentar reconquistar Daisy Buchanan, um amor do passado, agora casada com Tom, um herdeiro arrogante e racista. A trama gira em torno da tentativa de Gatsby de reviver esse amor, como se fosse possível voltar no tempo e fazer tudo acontecer de novo, do jeito certo.

O livro se passa nos anos 1920, nos EUA — uma época de ostentação, dinheiro circulando solto, consumo em alta, jazz, carros, rádios e festas. Mas também era uma época marcada por racismo institucionalizado, machismo naturalizado, e desigualdades de classe profundas. A lei seca (que proibia a venda de álcool) criou um submundo de contrabando e crime, que, ironicamente, abastecia as festas mais chiques da elite. É nesse cenário que Gatsby constrói sua vida.

A elite retratada no livro vive do lado de lá da baía, em East Egg, onde moram Daisy e Tom: gente rica de família, com nome e herança. Do outro lado, em West Egg, estão os “novos ricos” como Gatsby, gente que fez fortuna, mas nunca será realmente aceita. E mais longe ainda, no chamado Vale das Cinzas, vivem os que não têm nada: operários como George Wilson e sua esposa Myrtle, que vivem cercados de poeira, frustração e esperança de um futuro que nunca chega.

Gatsby, no fundo, é um cara triste. Ele se reinventou completamente: deixou de ser James Gatz, filho de gente simples, e virou Jay Gatsby, milionário carismático, dono de uma casa cinematográfica. Mas essa transformação não foi só pelo dinheiro, foi por amor. Gatsby acreditava que, se ele construísse tudo direito, Daisy voltaria pra ele. O problema é que ele não amava a Daisy real, e sim uma imagem congelada no passado.

Gatsby vive para um desejo que está sempre um pouco fora do alcance, como a luz verde no cais da casa de Daisy. Ele é obsessivo, mas também inocente. Ele acredita de verdade que o passado pode ser repetido, que o amor que eles viveram pode voltar, intacto. E isso parte o coração, porque a gente percebe, antes dele, que isso não vai acontecer. Daisy já fez sua escolha. E ela escolheu o conforto.

Daisy é uma personagem difícil. Às vezes ela parece encantadora, suave, delicada. Outras vezes, parece fria, egoísta, vazia. Mas talvez ela seja as duas coisas ao mesmo tempo. Ela representa o que Gatsby quer alcançar — não só no amor, mas na posição social. Ela é o símbolo do “dinheiro velho”, do pertencimento. Mas, mesmo sendo o “objeto do desejo”, Daisy também é uma mulher presa nas regras da época. Quando a tragédia se aproxima, ela recua. Ela escolhe a segurança do casamento, mesmo sabendo da infidelidade e brutalidade de Tom. Porque ela pode. Porque, naquele mundo, a proteção está com o homem rico e branco. E ela sabe disso.

Tom é o retrato da impunidade. Rico de berço, racista, agressivo, infiel e intocável. Ele trai Daisy com Myrtle, humilha todo mundo, e ainda sai da história sem pagar por nada. Ele é aquele tipo de homem que o mundo protege: com poder demais e ética de menos. Ele usa pessoas como se fossem descartáveis. E o mais cruel: quando tudo desaba, ele terceiriza a culpa. Manipula George para matar Gatsby e simplesmente segue com a vida como se nada tivesse acontecido.

Tom sabe exatamente onde está o verdadeiro poder: não no dinheiro, mas no pertencimento. Ele tem sobrenome, linhagem, foi a Yale, frequenta os círculos certos desde sempre. Gatsby, por mais rico e glamouroso que seja, continua sendo um intruso aos olhos dele, alguém que “se fez” fora das regras tradicionais. E é isso que Tom usa para atacá-lo no momento decisivo. Ele não apenas expõe as origens obscuras da fortuna de Gatsby, como faz questão de deixar claro que Gatsby nunca será “um dos nossos”. Por trás das palavras de Tom, existe a certeza cruel de que o acesso ao mundo da elite não se compra, ele se herda.

Daisy, por mais que sinta algo por Gatsby, também é filha desse mesmo mundo, e no fim sente o peso de tudo que deixaria para trás se o escolhesse. Não é só medo, é estrutura. A maneira como Tom conduz o confronto no Plaza Hotel deixa isso escancarado: ele não só desmonta o mito de Gatsby, mas reforça a barreira invisível entre “eles” e “nós”. E é nessa hora que a luz verde no fim do cais começa a parecer mais longe do que nunca.

A luz verde no cais da casa de Daisy é talvez o símbolo mais marcante do livro. Gatsby olha pra ela como quem olha pra um futuro brilhante e possível. Mas essa luz é sempre distante. O que Gatsby quer não é só a Daisy, é a versão perfeita do passado. Ele acredita que pode “repetir o passado” se tiver dinheiro suficiente. Mas o tempo, como o livro mostra, não volta. E a realidade, quando bate, destrói a fantasia.

O “sonho americano” — essa ideia de que qualquer um pode vencer se se esforçar — é desmontado no livro. Gatsby se esforça, deseja, constrói, acredita. E mesmo assim perde. Porque o jogo não é justo. Porque não basta querer.

Nick começa a história acreditando que pode observar sem se envolver. Ele vem do Meio-Oeste com uma ética aprendida em casa — “reservar julgamentos” — e isso o faz parecer o mais neutro do grupo. Mas essa neutralidade é só a camada de cima. Aos poucos, a convivência com Gatsby, Daisy, Tom e Jordan vai mexendo com ele. O olhar de Nick é cheio de ambiguidade: ele se diz sóbrio, mas se encanta com o brilho das festas; ele condena o exagero, mas se deixa levar; ele diz que não julga, mas o livro inteiro é uma montagem dos seus próprios julgamentos.

Com Gatsby, esse olhar muda de tom. Nick reconhece as mentiras, os truques, o teatro, mas vê algo mais ali: uma fé quase infantil, uma esperança romântica que contrasta com o cinismo dos outros. Quando todos somem, é Nick quem fica. Ele organiza o enterro, tenta reunir amigos, recebe o pai de Gatsby. E quando vê que ninguém vem, que a casa que já foi palco de tanta gente agora está vazia, Nick entende: quase tudo era fachada. A lealdade, os laços, o brilho, tudo evaporou. Mas isso não muda o sentimento que ele tem por Gatsby. Pelo contrário: reforça. É nessa hora que Nick escolhe um lado. E essa escolha é o início da ruptura.

A cena que completa essa quebra vem no final, quando ele encontra Tom por acaso. Tom, como sempre, não demonstra culpa, pelo contrário, se justifica, diz que “fez o que tinha que ser feito” ao entregar Gatsby para George. Essa conversa é o ponto sem volta pra Nick. Ali, ele percebe que Tom e Daisy são mesmo aquilo que ele descreveu: “descuidados”, gente que destrói o que toca e depois se esconde atrás do dinheiro e dos privilégios. Nick sai dali enojado. O pouco de ingenuidade que restava morre nessa cena.

No fim, o olhar de Nick não é mais o do jovem impressionável que chegou à cidade. É um olhar cansado, lúcido, com uma tristeza contida. Ele entende que a cidade, os Egg, as festas, tudo aquilo era bonito por fora, mas oco por dentro. E por isso ele decide voltar pra casa. Não por fracasso, mas por sanidade. Ele já viu demais.

Myrtle é a amante de Tom. Ela mora no Vale das Cinzas, casada com George, um mecânico. Ela sonha em subir na vida, e tenta fazer isso através do corpo, do desejo, do affair com um homem rico. Mas, naquele mundo, mulheres como Myrtle não têm saída fácil. Ela é usada, espancada e, no fim, atropelada — literalmente atravessada pelo mundo que ela tentou alcançar.

George é um homem destruído. Ele ama Myrtle, mas não consegue oferecer a vida que ela quer. Depois do acidente, ele é manipulado por Tom e acaba matando Gatsby e se matando em seguida. É a tragédia mais crua do livro: os ricos brincam, os pobres pagam.

Personagens como Jordan Baker (a golfista cínica e charmosa), Meyer Wolfsheim (o homem de negócios obscuros que “fez” a fortuna de Gatsby), Klipspringer (que vive na casa de Gatsby mas some na hora difícil), Owl Eyes (que percebe a verdade escondida nos livros de Gatsby), e até o pai de Gatsby que aparece no fim com recortes e lembranças do filho, ajudam a compor esse retrato social. Eles mostram, cada um à sua maneira, como as relações são muitas vezes de conveniência, como o espetáculo esconde fragilidade e como quase ninguém quer estar por perto quando a festa acaba.

É importante dizer: “O Grande Gatsby” tem machismo e racismo — tanto na forma como os personagens agem, quanto nas escolhas do autor. Tom vocaliza um racismo “intelectualizado”, baseado em pseudociência, como era comum entre a elite da época. Pessoas negras quase não têm voz no livro; aparecem só como curiosidade, como cenário. E os estereótipos sobre Wolfsheim, com sua origem e aparência, tocam em preconceitos antissemitas.

O machismo está por toda parte: mulheres são vistas como propriedade (Daisy, Myrtle), como símbolo (Jordan), como obstáculo ou prêmio. Myrtle tenta escapar da pobreza pelo corpo e morre por isso. Daisy recua pra segurança do casamento. Jordan é julgada por ser independente. E a violência contra as mulheres, como a surra que Tom dá em Myrtle, é tratada com uma normalidade assustadora.

Ler isso hoje exige um olhar crítico. O livro mostra essas violências, mas também reproduz muitas delas. E é nessa ambiguidade que ele se mantém atual: ele nos obriga a pensar nos limites da crítica e nas estruturas que seguem intactas.

No fim, todos que estavam em volta somem. Os ricos seguem impunes. Os que tentaram atravessar as barreiras de classe, gênero ou origem morrem ou são esquecidos. Só Nick fica pra juntar os cacos. E ele volta pra casa mais maduro, mas também mais triste.

A mensagem do livro não é simples. Ele não diz “não sonhe”. Mas diz: cuidado com os sonhos que o mundo vende. Cuidado com os preços que você paga pra caber num lugar que talvez nunca te aceite. E, principalmente, não se iluda com o brilho, muitas vezes, ele esconde só vazio.


AVALIAÇÃO:


AUTOR: F. Scott Fitzgerald
TRADUÇÃO: Vanessa Barbara
EDITORA: Penguin
PUBLICAÇÃO: 2011
PÁGINAS: 256
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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