20 de novembro de 2025

KINTSUGI – FRAGMENTOS DE UMA HISTÓRIA

Kintsugi é uma técnica japonesa de restauração de cerâmicas e porcelanas que utiliza um tipo de resina ou cola misturada com pó de ouro, prata ou platina. É essa a arte que dá título ao segundo romance de María José Navia. Confesso que, no decorrer do livro, fiquei buscando alguma referência que justificasse na história essa escolha. A história é construída com personagens de origem chilena, e apesar de alguns deles possuírem enredos com passagens nos Estados Unidos ou na região amazônica do Equador, não havia referência a essa arte ou sua origem na história.

Mas no decorrer da leitura compreendi e achei justa a escolha, afinal o livro é uma espécie de cerâmica que foi restaurada por um kintsugi. Isso fica muito evidente na estruturação do romance. Cada capítulo apresenta a perspectiva de um personagem (apesar de algumas vezes ser dividido entre dois personagens) em diferentes períodos de tempo que abrangem a vida de três gerações de uma família chilena.

A estrutura do livro se torna interessante justamente pela forma como há uma integridade da história, mesmo sendo ela contada de diferentes perspectivas. É como se fosse uma série de contos que estão conectados em uma só unidade. Ao acompanhar a visão dos personagens em diferentes perspectivas e idades, com saltos temporais, fiquei com a sensação de estar sendo sempre apresentado a novos personagens. Mesmo que algumas características desses personagens se mantivessem, eles já não eram os mesmos.

Assim, “Kintsugi’’ é um conjunto de fragmentos de memórias de três gerações de uma família que lida com cicatrizes causadas principalmente por separações e ausências. As nuances dessas cicatrizes são realçadas como o ponto central da narrativa. É a forma com que Caro, José, Tomás, Sofía, Eduardo e Ema lidam com esses problemas de onde parte toda a narrativa do livro. O que os personagens desse núcleo familiar enfrentam poderia se passar com muitas outras famílias, e por isso achei muito fácil me conectar com essa história.

Acho que uma das premissas da história é desafiar o leitor a entender quem são essas pessoas e por que elas fazem o que fazem. Enquanto na narrativa todos os personagens guardam algum tipo de segredo, como leitor temos acesso a mais do que aqueles personagens escolhem mostrar de si mesmos. Um dos principais núcleos da história é o abandono de José à sua família. Em alguns momentos me senti crítico em relação às suas escolhas; em outros, senti uma certa empatia com um homem que estava apenas sofrendo as consequências de suas escolhas equivocadas. Esse é um dos pontos mais positivos do livro: a história apresenta personagens tão humanos e complexos. Essas características são evidenciadas principalmente por seus atos falhos e pelo que eles são justificados.

Dentro desse quadro disfuncional familiar, arrisco dizer que uma das personagens mais interessantes dessa história é a filha, Sofía. Ela é a personagem mais explorada (colocando a quantidade de páginas como uma unidade de medida). Acompanhamos sua infância da perspectiva de sua tia, mãe e pai, a juventude a partir de sua própria perspectiva e a sua vida adulta a partir de sua visão e também da perspectiva de sua sobrinha. Os fragmentos dela estão em maior quantidade nessa cerâmica reconstruída. Senti que isso me permitiu compreender de forma mais genuína a personagem.

Sofía, assim como seu pai, resolveu se distanciar da família. Ela fez isso de forma “aceitável”, de uma maneira que conseguiu manter a ligação com a sua família. E coloco aspas neste último aceitável porque Sofía já é crítica o bastante em relação ao que sente. Como ela expressa em trechos como:

“O fato é que Sofía gosta de ficar longe. Sempre que perguntam se ela sente falta, Sofía tem que mentir. Sim, ela diz, muito, quando na verdade a resposta é não, claro que não, embora talvez essa resposta também não seja apropriada.”

Essa semelhança entre eles me intrigou um pouco, em razão da forma como Sofi, na sua infância, é descrita pelo pai em um dos capítulos. Ela se mete numa viagem de pesca de forma muito indesejada por José. Uma viagem para que ele se visse distante da família acabou com uma parte dela o acompanhando. É engraçado como a personagem sai de nível de aversão do pai, para uma personagem que de certa forma tem tanto em comum com ele.

Apesar de colocá-la como uma das personagens mais interessantes, há outra personagem, sua tia Marce, que poderia também ocupar essa posição. E não a ocupa por possuir apenas um capítulo, que introduz o livro. Ela também é mencionada apenas uma ou duas vezes em outros capítulos. Há quase uma sensação de desperdício de uma personagem que se mostrou tão interessante em poucas páginas.

Dessa mesma forma há também o único capítulo na perspectiva de Luísa, uma professora estagiária que é objeto de desejo de Tomás, um dos personagens principais, que também é professor. Eles estão trabalhando na mesma escola. O capítulo de Luísa serve como um contraponto ao capítulo anterior, na perspectiva de Tomás. Apesar de ali, naquela personagem, haver tantas camadas, seu papel na história serve apenas para negar ou confirmar algumas percepções sobre Tomás.

E digo isto para abordar o meu principal ponto em relação ao livro. Essa é a primeira obra da autora que li, e definitivamente gostei de sua escrita. Mas acredito que as pouco mais de 150 páginas não conseguiram abarcar toda a complexidade da história. E não é defeito algum um livro ser curto. Apesar de estar ciente das discussões editoriais do universo literário, sobre a quantidade de páginas de um livro, nos quais os calhamaços vão perdendo espaço para livros mais curtos. Acredito que essa história merecia mais páginas.

Algumas feridas são abertas nos personagens e de repente, no capítulo seguinte, nos deparamos com uma cicatriz, bem cicatrizada, e ficou em mim aquele desejo de saber e entender sobre aquele processo de cicatrização. É por essa razão que o livro recai sobre mim numa ideia de superficialidade. É uma sensação como aquela quando você está assistindo a primeira temporada de uma série de TV que você está gostando e a série termina sem fechar alguns enredos, sem concluir o que aconteceu. Você fica na esperança de que todas aquelas respostas vão vir na próxima temporada. Mas aí você descobre que a série não foi renovada para uma nova temporada. Você descobre que as páginas acabaram, que o livro terminou ali.

E escrevo isso mesmo compreendendo a proposta do livro. Compreendo que o livro também é sobre memória, silêncios, ausências e quem somos a partir da visão do outro e da visão sobre nós mesmos. Mas não deixa de haver uma certa frustração. Continuando com a analogia de que o livro é uma cerâmica após passar por uma restauração de kintsugi, diria que os fragmentos de memória dos personagens desta família apesar de unidos não ornamentam em unidade. Tudo isso não invalida a leitura do livro, claro — há alma na escrita e no enredo —, essa cerâmica restaurada por kintsugi está no formato de um pires, não de uma xícara profunda.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: María José Navia
TRADUÇÃO: Isis Batista
EDITORA: Rocco
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 160
COMPRE: Amazon

Uendel Souza

Sou Uendel Souza, baiano, jornalista, mestre em Comunicação e Sociedade, assessor de comunicação, produtor e ainda um tanto sonhador, dentre outras coisas. Amo ler desde que li, pela primeira vez, Atrás da Porta, de Ruth Rocha, lá no início do ensino fundamental na biblioteca da minha escola. Não ironicamente, aquele livro me abriu uma porta que nunca mais fechei.

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