18 de outubro de 2025

TERRA PARTIDA – FECHEI O LIVRO JÁ PENSANDO EM OUTRO

Beth é uma mulher simples que vive uma rotina pacata numa fazenda no interior da Inglaterra com o marido, Frank, e o cunhado, Jimmy. Os três formam uma família feliz e unida, até que um incidente inesperado muda o curso de suas vidas: Jimmy atira em um cachorro que invade a fazenda, ataca e mata um carneiro. O animal pertence a ninguém menos que Gabriel Wolfe, o homem que Beth amava na adolescência — e que partiu seu coração.

Gabriel retornou à cidade com seu filho Leo, um garoto que faz Beth se lembrar do próprio filho, Bobby, que morreu alguns anos antes. Em pouco tempo, mesmo sabendo que isso pode acabar prejudicando seu casamento, ela acaba se aproximando do menino, e, consequentemente, de seu ex. E à medida que é atraída de volta para a vida de Gabriel, as tensões aumentam e o ciúme se manifesta.

Beth e Frank têm um casamento feliz, mas os dois guardam segredos, e seu relacionamento depende de o passado permanecer enterrado. No entanto, quando a verdade começa a vir à tona, tudo sai do controle, e dessa vez as consequências são mortais. Então, Beth é forçada a fazer uma escolha: continuar sendo a mulher que se tornou ou se transformar na mulher que um dia desejou ser.

Confesso que gosto de histórias que exploram as complexidades das relações humanas, com suas nuances, contradições e imperfeições. A tensão entre passado e presente, o conflito entre estabilidade e desejo — tudo isso oferece um terreno fértil para uma boa narrativa. Mas em “Terra Partida”, o desenvolvimento desses elementos ficou aquém do esperado. A escolha da narrativa em primeira pessoa, conduzida por Beth, acaba soando fria e distanciada, como se ela estivesse apenas observando a vida de outra pessoa, e não vivendo a sua própria. Além disso, o triângulo amoroso proposto perde força quando seu envolvimento com um dos homens se resume a descrições físicas, sem qualquer profundidade emocional ou traço marcante de personalidade.

O reencontro entre Beth e Gabriel acontece de forma quase automática, sem o peso das consequências que deveria carregar. A traição se dá sem hesitação, sem um momento real de dúvida ou conflito interno. Frank — o marido que esteve ao lado dela durante o luto, que fez inúmeros sacrifícios — é reduzido a um espectador passivo. Sua dor, suas reações, sua humanidade… tudo isso é negligenciado pela narrativa e, sobretudo, pela própria Beth. Ela se entrega ao desejo físico sem qualquer outra justificativa emocional ou psicológica, o que a torna uma personagem difícil de simpatizar, especialmente diante de tudo que Frank representa em sua trajetória.

Gabriel, por outro lado, parece receber um tratamento privilegiado por parte da autora. Ele surge na narrativa com um charme meticulosamente calculado: viúvo, pai solo, sensível e, não por acaso, com um filho da mesma idade que Bobby teria. A conexão entre Beth e o menino é usada como um gatilho emocional, mas soa forçada, quase manipulativa. Tudo parece cuidadosamente arquitetado para provocar comoção. Em vários momentos, Beth afirma se aproximar da criança, mas fica evidente que seu verdadeiro interesse está em Gabriel, não no filho dele. O peso emocional da perda e da possível substituição afetiva de uma criança por outra se esvazia quando a própria narradora dá prioridade à sua relação com o pai, não ao vínculo com o menino.

O que mais me incomodou foi a superficialidade emocional da narrativa. Eventos de grande impacto — uma morte, um julgamento, revelações do passado — se sucedem rapidamente, mas raramente despertam qualquer sentimento real. As emoções não são vividas com intensidade, apenas narradas, como se fizessem parte de uma checklist. Falta espaço para o silêncio, para a dúvida, para a dor ser sentida com profundidade. Tudo acontece, mas pouco é realmente vivido.

A estrutura da narrativa, com idas e vindas no tempo, funciona bem. Os trechos do julgamento inserem um suspense eficaz, e há um esforço claro em montar o enigma aos poucos, o que mantém o interesse do leitor. Ainda assim, essa construção não compensa a superficialidade dos conflitos internos. As reviravoltas, em vez de surpreender, apenas confirmam o que já era previsível. Fica a impressão de que a autora tentou abordar muitos temas em poucas páginas — crítica social, conflito de classes, maternidade, amor, culpa, perdão — sem aprofundar nenhum. Quando tudo deságua em uma sucessão de tragédias, o efeito final não é comoção, mas cansaço.

Beth, para mim, carece de consistência emocional. Ela afirma amar os dois homens, mas nunca demonstra isso de forma convincente. Sua escolha por Frank, no passado, parece ter sido motivada mais por necessidade do que por desejo genuíno. E quando reencontra Gabriel, entrega-se a ele sem qualquer resistência, sem refletir sobre o que está deixando para trás — ou a quem está ferindo. O mais incômodo é a ausência de arrependimento real. Beth sabe que está machucando Frank, mas sua culpa é tratada de forma mecânica, quase burocrática. O remorso surge mais como uma exigência da trama do que como um sentimento vivido pela personagem.

A sensação que tive foi a de estar lendo um romance juvenil, com uma protagonista ainda imatura, vivendo dilemas típicos da adolescência, dividida entre o desejo e a razão, sem saber lidar com as próprias emoções. Mas Beth não é uma garota de 15 anos. É uma mulher adulta, que já enfrentou dramas familiares, a perda devastadora de um filho, a construção de um lar e de uma vida ao lado de alguém que a apoiou. Ela conhece o peso das escolhas, sabe o que significa perder e, ainda assim, abandona tudo no instante em que o amor da juventude reaparece. A fragilidade emocional da personagem não condiz com sua história de vida, e isso torna sua jornada menos crível e muito menos tocante.

Aliás, essa inconsistência fica ainda mais evidente nos momentos em que a autora descreve as cenas de sexo entre Beth e Frank com mais desejo e intensidade do que aquelas que ela tem com Gabriel. Se ao menos houvesse alguma insatisfação explícita com o marido, algum atrito real, alguma lacuna emocional ou física que justificasse sua preferência por Gabriel, talvez a personagem fosse mais compreensível — ou ao menos mais humana. Mas do jeito que está, a escolha de Beth soa gratuita, e sua falta de empatia é ainda mais difícil de aceitar.

Cheguei a pensar que talvez a história funcionasse melhor se desse voz também a Frank e Gabriel. A narrativa, inteiramente conduzida por Beth, limita demais a perspectiva dos acontecimentos. Os dois homens giram em torno dela, mas raramente são explorados com profundidade. Até mesmo Frank — o mais íntegro e emocionalmente complexo — permanece em silêncio, reduzido a reações breves e pouco desenvolvidas. Mas essa hipótese não se sustenta por muito tempo. Logo percebi que, mesmo que a autora ampliasse os pontos de vista, dificilmente conseguiria dar a densidade necessária para que o drama ganhasse força real. O problema não é apenas a escolha da narradora, mas a falta de profundidade com que todos os personagens são tratados.

O final, embora previsível, carrega algum peso simbólico. Trata de culpa, sacrifício e dos limites do que estamos dispostos a fazer pelos outros — ou, talvez, para aliviar a própria consciência. Ainda assim, esse impacto chega tarde demais para provocar uma emoção genuína. A conclusão é apressada, e Beth toma uma decisão radical que contraria tudo o que vinha demonstrando até então, sem que haja um momento claro de reflexão que justifique essa mudança. Além disso, a revelação sobre o assassino, quando analisada com um pouco mais de atenção, não se sustenta. O problema não está em quem comete o ato, nem exatamente no que faz, mas na motivação rasa que lhe é atribuída. Algo que enfraquece a coerência e esvazia o clímax.

Terra Partida” é um livro ruim. Começa com força, promete profundidade, mas escorrega em escolhas fáceis e personagens mal desenvolvidos. Uma pena, porque a complexidade de seus temas poderia ter rendido uma leitura inesquecível. No fim, me vi questionando mais do que sentindo. A traição foi romantizada, o luto instrumentalizado, e a redenção veio rápido demais. Fechei o livro já pensando em outro.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: Clare Leslie Hall
TRADUÇÃO: Renato Marques
EDITORA: Intrínseca
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 320
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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