8 de outubro de 2025

NO MEIO DA NOITE – NÃO É IMPACTANTE SUFICIENTE

A pior coisa que a vizinhança de Hemlock Circle já presenciou aconteceu no quintal da família Marsh. Em uma noite quente de julho de 1994, Ethan Marsh, com dez anos na época, e seu melhor amigo, Billy Barringer, acampavam no gramado de sua casa, na sossegada rua sem saída de Nova Jersey. Na manhã seguinte, Ethan acordou com a luz do sol no rosto e percebeu que estava sozinho. Durante a noite, alguém cortou a lateral da barraca com uma faca e levou Billy. O menino nunca mais foi visto.

Trinta anos se passam, e, com a mudança repentina dos pais, Ethan volta a morar na casa onde cresceu. Atormentado pela insônia e sempre pelo mesmo pesadelo que passou a ter depois do desaparecimento do amigo, ele começa a notar que coisas estranhas vêm acontecendo no meio da noite. Luzes com sensor de movimento na garagem dos vizinhos se acendendo e se apagando, bolas de beisebol surgindo no quintal, objetos em lugares que ele não se lembra de ter colocado… Estaria alguém lhe pregando uma peça de mau gosto? Ou será que Billy, dado como morto por muitos, teria retornado a Hemlock Circle?

Incapaz de ignorar esses eventos misteriosos e o fato de vir sentindo a presença de Billy durante a madrugada, Ethan dá início a uma investigação própria para tentar se lembrar dos mínimos detalhes daquela fatídica noite. No entanto, quanto mais se aproxima da verdade, mais ele se dá conta de que nenhum lugar ― seja uma floresta tranquila ou uma rua pacata ― é totalmente seguro. E que o passado sempre encontra um jeito de assombrar o presente.

No Meio da Noite” é o segundo livro que leio do Riley Sager. É também a segunda vez que ele consegue despertar em mim um tipo de emoção que tenho dificuldade em raciocinar completamente e colocar em palavras. Não porque seja um sentimento difícil de entender, mas porque sinto que, mesmo que eu tente, ainda não será exatamente o que sinto.

Mesmo com 365 páginas, Ethan Marsh é um personagem totalmente esquecível. Com certeza, ele não vai permanecer por muitos meses na minha memória. E, com o passar dos anos, toda vez que alguém me pedir uma indicação literária de suspense ou thriller psicológico, vou pensar [e pensar], até tentar lembrar: “Qual era mesmo o nome daquele livro com a capa verde e o protagonista paranoico?”.

Não será O Ladrão de Raios, claro, mas vagamente vou me recordar de um livro cuja premissa era simples: um menino desaparece. Anos depois, o melhor amigo volta para a casa dos pais, onde o trauma aconteceu, e começa a achar que tudo é fantasma e ocultismo. Afinal, o que mais poderia ter acontecido com uma criança acampando no quintal de uma vizinhança pacata e segura, se não algo sobrenatural?

Essa é, a grosso modo, a base do que Riley Sager apresenta no início do livro. Ethan Marsh é o melhor amigo que retorna a Hemlock Circle (uma rua sem saída em Nova Jersey) cercada por vizinhos tranquilos, uma floresta e, claro, um instituto misterioso, do qual ninguém parece saber exatamente o que é estudado lá.

Assim como escrevi na minha resenha de “O Massacre da Família Hope” (que você pode conferir aqui), Sager sabe construir um suspense que antecipa a linha de raciocínio do leitor. Cada capítulo (que não são longos) cria novas perguntas e responde poucas, aumentando a tensão de forma gradual e controlada.

Alguns diriam que o correto seria afirmar que é o próprio autor quem constrói a narrativa para conduzir o leitor por aquele caminho. Não discordo.

Quando estava em 10% do livro, pensei: O Billy não vai estar morto. É um dos clássicos dos suspenses e thrillers psicológicos. Lá pela centésima página, escrevi no Skoob: “Gays trágicos?”. Não me pareceu possível, naquele momento da leitura, que Ethan não tivesse sido, na infância, apaixonado por Billy. Só isso fazia sentido. Como explicar tamanha angústia e sofrimento por algo vivido aos dez anos e mal lembrado, mesmo trinta anos depois?

Ok, eu admito: o impacto emocional do desaparecimento e possível morte do seu melhor amigo de infância não é algo que se possa mensurar. Riley consegue, de forma sutil, expressar a dor do não saber; essa mistura entre desesperança e esperança que deixa as palavras mais tensas, carregadas. E isso é um dos recursos mais importantes que um autor do gênero precisa dominar. Bem, pelo menos era o que eu pensava até ultrapassar um terço do livro.

Em determinado momento, lembrei novamente de O Massacre da Família Hope e me questionei se o plot seria o mesmo. Achei improvável, mas possível, já que Ethan seguia uma linha de paranoia semelhante à de Kit, a protagonista do outro livro. A ideia de ser enganada de novo, com o mesmo tipo de artifício, me fez desejar que o rumo da história fosse tão fantasioso que apenas um culto satânico ou uma abdução extraterrestre me deixariam satisfeita (e não revoltada) ao final. Um pouco fora da realidade, admito. Mas, em minha defesa, o nível de paranoia de Ethan não é nada sutil. Ele é, em seu íntimo, um personagem não confiável.

Quando a perspectiva do protagonista não é um ponto de apoio confiável na história, é preciso que outros personagens surjam e tragam novos contextos ao mistério (e é o que Riley faz). Os capítulos intercalam o presente e o passado de Ethan, e, entre eles, as perspectivas de outros personagens aparecem para ampliar o que ele próprio não consegue ver. É divertido e linear: a progressão do suspense é boa o bastante para fazer o leitor devorar vários capítulos seguidos.

Entre os personagens, temos os indispensáveis: os pais, o melhor amigo, o só amigo, a babá bonita, o valentão que não é tão valentão, o velho senil que fala demais e ninguém leva a sério, os vizinhos e alguns outros. A lista não é extensa, mas suficiente para criar uma rede de dúvidas que nos faz perguntar: quem sequestrou Billy?

Quase no fim (mas não tão no fim), a paranoia escancarada de Ethan me fez passar uns três dias sem tocar no livro. Isso foi antes mesmo de as respostas para o grande mistério caminharem em direção ao ponto alto da história. A falta de sono, o trauma e os acontecimentos estranhamente suspeitos pareciam lembrar, o tempo todo, a Ethan que a história de Billy não era apenas dele. E, principalmente, me tornaram ciente, como leitora, de que tudo que é exagerado demais acaba perdendo o efeito.

Em determinado momento, comecei a me perguntar por que Riley insistia em desviar o foco do leitor, intensificando cada vez mais a falta de confiança no personagem principal.

Desta vez, não achei que as pistas foram tão bem distribuídas ao longo dos capítulos. Ao contrário de O Massacre da Família Hope, cujo final mirabolante nos deixa cheios de perguntas e espanto (tipo, como isso foi possível?), em “No Meio da Noite” isso não acontece.

Riley Sager peca no ordinário. Não no sentido negativo, mas naquele de “isso não é tão incomum assim”. O que pode desagradar uns e surpreender outros. Eu, particularmente, fiquei um pouco GAG das ideias.

Foi uma surpresa encontrar um final tão mundano e tão pouco espiritual. Não sei se posso dizer que me decepcionei, não era o que eu esperava, mas também não me desagradou. Mesmo que os sentimentos de Ethan por Billy não fossem românticos, como eu supus no início, não deixam de revelar um tipo de conexão afetiva poderosa entre os dois.

Mas isso também foi sutil e substituído por outro acontecimento. O que eu ainda não decidi se gostei ou não, dessa quebra de expectativa. Não me desagrada que Riley brinque com as suposições criadas pelo leitor (até acho que o gênero pede isso).

Talvez seja exatamente aí que mora a tal emoção que eu não consigo raciocinar por inteiro nem colocar em palavras: ela escapa quando tento fixá-la, volta pela lateral, me cutuca quando estou pronta para concluir.

Talvez, daqui a alguns meses, eu não lembre do nome do protagonista (provável), nem de todos os detalhes da trama (quase certo), mas vou lembrar da capa verde, do menino que some e desse zumbido que ficou depois da última página. Ou talvez seja essa confusão entre o ordinário e o intenso que me fez querer ler outro livro do Riley: ele não me entrega exatamente o que quero, mas sempre me deixa algo para sentir, mesmo que eu não saiba nomear.

Não é um sentimento difícil de entender; é só impreciso. “No Meio da Noite” não me entregou o que eu queria e acontece, né?! Não foi impactante o suficiente para que seus personagens — que também não são profundos o bastante (nem haveria espaço ou necessidade para isso dentro da proposta) — fiquem guardados na minha memória como parte de uma leitura favorita. Ainda assim, foi interessante o suficiente para me entreter por alguns dias. É, facilmente, um daqueles filmes de domingo na Tela Quente. Legal, mas não memorável. Logo, 4 estrelas.


AVALIAÇÃO:


AUTOR: Riley Sager
TRADUÇÃO: Renato Marques
EDITORA: Intrínseca
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 368
COMPRE: Amazon

Francielly Oliveira

Sou Francielly Oliveira, jornalista, mestre em Comunicação e Sociedade (UFT). Amo narrativas (de todos os formatos) e histórias aleatórias: da romantasia às distopias, das HQs aos clássicos.

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