Um livro curto, intenso e profundamente perturbador. “Pssica“, em menos de cem páginas, mergulha em um universo de violência, tráfico humano, desigualdade e dor. Ambientado entre Belém, cidades do Marajó e Caiena, a história se espalha por rios e fronteiras, cruzando as vidas de três personagens principais: Janalice, uma adolescente raptada e vendida para exploração sexual; Manoel Tourinhos, um imigrante que tenta recomeçar no interior do Pará e acaba tragado pela tragédia; e Préa, um jovem que ascende no mundo do crime ribeirinho.
O livro se propõe como denúncia social. Exibe sem pudores a crueldade das máfias fluviais, o abandono institucional da região Norte e o ciclo de violência que marca a vida de pessoas invisibilizadas. Mas o modo como faz isso escorrega em diversos momentos, tornando-se parte do próprio problema que tenta mostrar. Há uma insistência em retratar a violência de maneira gráfica e constante, com uma crueza que beira o sensacionalismo. Algumas cenas ultrapassam a fronteira entre denúncia e espetáculo da dor, mergulhando o leitor em um voyeurismo incômodo.
A personagem de Janalice, por exemplo, não é apresentada como sujeito. Ela é, do início ao fim, o corpo violentado. O texto não permite conhecer seus pensamentos, emoções, resistências ou sonhos. Ela é silenciada pela narrativa, assim como foi silenciada pelos criminosos que a capturam. Isso se repete com outras personagens femininas, que aparecem quase sempre como vítimas, acessórios ou alvos. Há uma ausência quase completa de subjetividade nas mulheres do livro. Elas servem à trama, mas não são escutadas por ela.
Enquanto isso, os personagens masculinos são desenhados com mais detalhes, trajetória e emoção. Préa, mesmo sendo um criminoso, tem motivações e dilemas. Manoel é acompanhado em sua dor, em seu passado, em sua busca por vingança. O contraste entre o tratamento dado aos homens e às mulheres é gritante. Enquanto os homens agem e decidem de forma articulada, as mulheres sofrem caladas e são, quase sempre, meras ferramentas narrativas.
Um dos pontos mais problemáticos do livro é o modo como trata o abuso sexual. Em cenas de estupro e exploração, o texto não se limita a descrever a violência — ele atribui prazer às vítimas. Não como reação involuntária do corpo, mas como prazer real, com uso explícito de palavras como “orgasmo” e “gostar”, mesmo em contextos de coerção. Isso confunde os limites entre consentimento e abuso, e reforça uma ideia perigosa: a de que, mesmo forçada, a mulher pode acabar gostando. É uma distorção que deslegitima o trauma, que banaliza o estupro e que transforma um crime em fantasia.
Esse tipo de representação não apenas falha em denunciar com responsabilidade, como perpetua um mito nocivo. Ao erotizar o sofrimento feminino, a narrativa aproxima-se de um fetiche construído socialmente — o da mulher subjugada que sente prazer ao ser dominada. Essa construção aparece em diversos momentos, seja na linguagem usada, seja na maneira como a câmera da escrita se posiciona diante da dor. O foco está sempre no impacto, no choque, no efeito da cena, e nunca na profundidade humana de quem sofre.
A escrita é seca, rápida, com frases curtas e ritmo vertiginoso. Essa escolha estilística funciona para retratar ação e tensão, mas limita a complexidade emocional. Não há espaço para respirar. Não há pausa para escutar os personagens. Tudo corre. Tudo sangra. O resultado é uma narrativa que atropela a empatia e constrói uma espécie de transe brutal — que, em vez de revelar a dor, a esconde sob camadas de impacto.
Outro problema está na ausência total de contraponto institucional. Escola, família, estado, sistema de proteção — tudo falha ou nem aparece. Isso reforça o sentimento de desamparo, mas também deixa o livro sem qualquer sugestão de saída. A denúncia existe, mas sem horizonte. O mundo apresentado é fechado, cruel, e a única constante é a repetição da violência.
O final acompanha esse ritmo: abrupto, seco, inconcluso. Fiel ao estilo do livro, mas também frustrante. Deixa uma sensação de que nada foi processado, nada foi reparado, nada foi superado. Apenas mais uma cicatriz em um corpo já coberto por marcas.
“Pssica” não é um livro fácil. Sua ambientação, sua força imagética e sua denúncia do abandono no Norte do Brasil têm valor. Mas a maneira como escolhe narrar esse universo transforma o horror em espetáculo. E, pior, flerta com uma erotização da violência que deveria ser confrontada, não replicada.
A adaptação para a série da Netflix parece ter compreendido esses riscos. Ela opta por aprofundar personagens femininas, evitar a linguagem que mistura prazer com abuso e dar voz àquelas que, no livro, foram caladas. A violência continua existindo, mas é tratada como trauma, e não como cena de excitação. A diferença de abordagem mostra que é possível representar a dor com mais cuidado e ética, sem diminuir sua potência.
No fim, o que “Pssica” expõe com força, também enfraquece pela forma. Ao mostrar mulheres como corpos à disposição da narrativa, ao erotizar o sofrimento, ao silenciar personagens que mais precisavam ser ouvidas, o livro não rompe com os sistemas que denuncia — apenas os reproduz com outra roupa. E isso é um problema que nenhuma intensidade narrativa consegue apagar.
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| AUTOR: Edyr Augusto EDITORA: Boitempo PUBLICAÇÃO: 2015 PÁGINAS: 96 COMPRE: Amazon |

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