14 de setembro de 2025

O GAROTO DO COLORADO – POUCO MISTÉRIO, MUITA CONVERSA

Abril de 1980. Em uma ilha na costa do Maine, um homem é encontrado morto por um casal de estudantes. Agora, anos depois do ocorrido, os jornalistas locais Dave e Vince reconstroem o caso ao lado de Stephanie, estagiária do Weekly Islander, e apuram o que pode ter acontecido com o indivíduo que ficou conhecido como o Garoto do Colorado.

Contudo, quanto mais eles analisam os desdobramentos e as circunstâncias desconcertantes da morte, menos entendem a conjunção que levou ao fim do sujeito. Foi um crime de caso pensado? Uma fatalidade? Ou há algo mais? Reunindo as teorias dos jornalistas e as de Stephanie, o trio revive cada detalhe da primavera de 1980, tecendo possíveis desfechos que envolvem as pontas soltas do incidente.

Stephen King sempre foi conhecido por surpreender seus leitores. Quem pega “O Garoto do Colorado” esperando um romance policial clássico ou um thriller carregado de reviravoltas sobrenaturais inevitavelmente se depara com algo diferente, quase desconcertante. O livro começa de forma enganosa, com uma capa que sugere mistério sombrio e ação, mas logo revela um ritmo mais lento, quase contemplativo, que convida o leitor a repensar o que entende por “mistério”.

A premissa é simples: um corpo é encontrado numa praia de uma pequena ilha no Maine, sem identificação, sem explicação. A polícia local pouco pode fazer além de registrar o ocorrido. Anos depois, dois jornalistas veteranos contam essa história para uma jovem estagiária, Stephanie McCann. É nesse triângulo de personagens — dois homens já calejados e uma aprendiz ansiosa — que King constrói não apenas a narrativa, mas uma reflexão sobre o próprio ato de contar histórias.

Desde o início, a atmosfera da ilha é cuidadosamente descrita. King sempre teve talento em transformar cenários em personagens, e aqui não é diferente: Moose-Lookit, com seu isolamento e sua rotina marcada pela presença do mar, dá o tom daquilo que virá. Não se trata apenas de um lugar, mas de um estado de espírito, onde o tempo parece correr de forma mais lenta e as histórias se acumulam como sedimentos.

O curioso é que, apesar de haver um mistério central — quem era o homem encontrado e por que morreu ali —, a narrativa não se apoia em pistas que levam a uma resolução. Ao contrário, quanto mais detalhes surgem, mais as perguntas se multiplicam. É como se o quebra-cabeça tivesse peças demais ou, talvez, peças de outros jogos misturadas. O resultado é uma história sem resposta final.

Isso, para alguns leitores, é frustrante. Há quem espere, em qualquer livro de crime ou mistério, um desfecho claro, um culpado revelado, um motivo que amarre todos os fios soltos. King, porém, escolhe o caminho inverso: abraça a incompletude como essência do enredo. Ao fazer isso, desafia a expectativa de quem lê e, em certo sentido, nos obriga a encarar a incerteza que permeia a vida real.

Através do diálogo entre Vince, Dave e Stephanie, King transforma a narrativa em algo quase ensaístico. É como se estivéssemos assistindo a uma longa aula de jornalismo, em que o tema não é a resolução do caso, mas a diferença entre fatos e histórias, entre a vida como ela é e o desejo humano por narrativas bem estruturadas. Nesse sentido, “O Garoto do Colorado” não é apenas ficção, mas também uma reflexão metanarrativa.

Não é de surpreender que muitos tenham visto o livro mais como uma conversa do que como uma trama. Há quem ache essa escolha corajosa; outros, preguiçosa. O ritmo é dominado por diálogos, alguns longos, cheios de pequenas digressões e detalhes cotidianos que, para parte do público, podem soar como enrolação. Mas há também quem reconheça nesses diálogos a força do livro: são eles que dão vida aos personagens e revelam sua humanidade.

Stephanie, em especial, cumpre um papel importante. Ela não é apenas uma ouvinte passiva; funciona como porta-voz do leitor, fazendo perguntas, testando hipóteses, tentando preencher lacunas. Sua juventude e curiosidade contrastam com o olhar cético e experiente dos veteranos, criando um equilíbrio interessante entre desejo de resposta e aceitação do mistério.

A construção de Vince e Dave, por sua vez, é um ponto alto. King sabe criar personagens secundários tão vivos que parecem existir além das páginas. O humor seco, a cumplicidade entre eles e a forma como contam a história fazem com que o leitor se sinta sentado à mesa, tomando café junto com os três. Mais do que o mistério em si, são esses diálogos que prendem a atenção.

Naturalmente, a ausência de uma resolução divide opiniões. Para alguns, é o grande trunfo do livro: um mistério perfeito justamente porque permanece insolúvel. Para outros, é sua falha mais gritante: uma frustração deliberada, quase uma provocação gratuita do autor. A reação ao livro, portanto, depende muito mais da expectativa de cada leitor do que do enredo em si.

Vale lembrar que King explica no posfácio o motivo de ter escrito dessa forma. Ele parece consciente de que deixaria leitores irritados, mas também convicto de que estava explorando algo diferente, mais filosófico que narrativo. Esse posfácio, aliás, é recomendado por muitos como essencial para compreender a proposta do livro.

Outro aspecto curioso é como “O Garoto do Colorado” acabou inspirando a série de TV Haven. Embora muito diferente da obra original, a série se apropriou de elementos superficiais — os nomes dos personagens, a ambientação no Maine — para construir uma trama sobrenatural. Isso reforça ainda mais a distância entre o que os leitores esperavam de King e o que realmente encontraram.

No campo estilístico, é inegável que King continua sendo King: diálogos afiados, descrições vívidas, personagens tridimensionais. Mesmo em uma história que poderia ser resumida em poucas páginas, ele consegue prender a atenção com sua habilidade narrativa. Para alguns, isso basta para tornar a leitura agradável, ainda que não memorável.

Já para outros, o livro parece uma espécie de “anti-romance”: algo que se recusa a cumprir as promessas implícitas de sua capa e de sua sinopse. É quase um comentário irônico dentro da coleção Hard Case Crime, que tradicionalmente publica histórias cheias de ação, reviravoltas e desfechos contundentes. King entregou justamente o oposto.

Essa tensão entre expectativa e entrega é o que mais marca a recepção da obra. Quem entra nela preparado para um exercício sobre o conceito de mistério tende a apreciá-la. Quem entra buscando um thriller ou um suspense tradicional quase sempre sai decepcionado. E talvez essa polarização seja justamente o objetivo do autor.

O fato é que “O Garoto do Colorado” não deixa ninguém indiferente. Pode ser amado, odiado, considerado brilhante ou inútil, mas dificilmente será lembrado como apenas mais um livro. Ele provoca, cutuca, instiga reflexões sobre por que gostamos de histórias e por que precisamos de finais claros.

Há também um certo charme em sua brevidade. Por ser curto, pode ser lido em uma tarde. E justamente por não exigir tanto tempo, acaba funcionando como uma pausa interessante entre leituras mais densas, mesmo que não satisfaça por completo.

Em resumo, “O Garoto do Colorado” é uma obra estranha dentro da bibliografia de King. Não é terror, não é policial clássico, não é sequer um romance convencional. É um híbrido de conto filosófico, ensaio disfarçado e narrativa oral. Uma ousadia admirável ou um desperdício de páginas, depende do leitor.

O que não se pode negar é que King demonstra, mais uma vez, coragem de experimentar. Em vez de se apoiar apenas nos elementos que lhe garantiram fama — sustos, horror, sobrenatural —, ele se arrisca em um terreno novo, e ainda que nem todos apreciem o resultado, esse risco mantém sua obra viva e em movimento.

No fim das contas, a pergunta que paira sobre o livro é a mesma que ecoa em qualquer mistério mal resolvido: vale mais a resposta ou a busca? King parece apostar na segunda opção, e talvez esteja aí a verdadeira lição deixada pelos velhos jornalistas a Stephanie — e a nós, leitores.


AVALIAÇÃO:


AUTOR: Stephen King
TRADUÇÃO: Regiane Winarski
EDITORA: Suma
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 144
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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