A história acompanha Eduardo, um rapaz tímido e desconfiado, e Afonso, que na verdade é uma máquina de secar falastrona e desbocada. Juntos, eles viajam por um mundo enigmático em busca do Maior Mago do Universo, o único capaz de devolver a Afonso à forma humana.
Yoshi Itice, cujo nome de batismo é Thiago Yoshiharu Itice, é quadrinista e fundador do estúdio Manjericão. Em 2017, junto a Bianca Pinheiro e Alexandre S. Lourenço, criou o selo La Gougoutte, por onde lançou Eventos Semiapocalípticos. Além de “Eduardo e Afonso”, compõem a série os volumes “Gilmar” e “Gabriela”, todos ambientados no mesmo universo ficcional pós-apocalíptico e com história independente.
Tive sentimentos conflitantes durante a leitura de “Eduardo e Afonso”. A história de dois irmãos com personalidades opostas que, ainda assim, dependem um do outro, sempre carrega uma carga emocional poderosa. Eduardo é tímido, inseguro, introvertido, paciente e generoso; sempre tenta enxergar o lado bom das coisas. Já Afonso é o oposto: extrovertido, falastrão, impaciente, antipático e, muitas vezes, egoísta, sem hesitar em abandonar alguém quando convém.
Na trama, o espírito — ou a essência — de Afonso está preso dentro de uma máquina de secar. Eduardo, então, carrega essa máquina por um mundo devastado, após um apocalipse, em busca de uma maneira de devolver o corpo ao irmão. A missão, por si só, já é difícil, mas o fato de Afonso ser um sujeito difícil de conviver torna o sacrifício de Eduardo ainda mais tocante. Essa entrega incondicional cria empatia com o leitor: é fácil se identificar com alguém que enfrenta tantas dificuldades para ajudar quem não demonstra qualquer gratidão.
As emoções da história são apresentadas de forma simples, com diálogos curtos, acompanhados por ilustrações que comunicam bem os sentimentos dos personagens. Mesmo Afonso, confinado em um corpo metálico sem expressão facial, consegue transmitir emoções através das composições visuais das cenas. Os quadros, bem pensados, suprem essa limitação física e tornam a leitura mais envolvente.
Apesar do impacto emocional, alguns aspectos me incomodaram. Como frequentador de feiras de quadrinhos e leitor assíduo de obras independentes nacionais, já me deparei com muitos trabalhos autorais. Algo relativamente comum nesse cenário são as fanfics — histórias que se baseiam em universos e personagens de outras obras. E “Eduardo e Afonso” se encaixa justamente nessa categoria: para mim, parece uma fanfic de Fullmetal Alchemist.
A semelhança entre as duas obras é explícita. Em ambas, temos irmãos chamados Eduardo e Afonso, sendo um deles reduzido a um corpo metálico após um experimento mal sucedido. A busca pela reversão dessa condição guia toda a narrativa. Na obra de Hiromu Arakawa, os protagonistas procuram a pedra filosofal; no quadrinho de Itice, a missão é encontrar um mágico capaz de desfazer a situação. A estrutura de avanços e retrocessos na jornada também é compartilhada entre as histórias.
A inspiração não é escondida. Inclusive, há uma personagem chamada Gabriela que utiliza um uniforme muito semelhante ao dos Alquimistas do Estado. E o próprio autor reconhece essa base em um texto ao final da obra, no qual explica o processo criativo e sua vontade de homenagear os irmãos alquimistas. A referência, portanto, me parece direta e assumida.
No entanto, há uma diferença importante no tom dos personagens. O Afonso de Fullmetal Alchemist é gentil e carismático, enquanto o Afonso de Itice é grosseiro e insuportável. Essa construção levanta uma discussão interessante sobre a relação entre os irmãos, que parece, em vários momentos, abusiva e tóxica. Fica evidente que, se não estivesse confinado a uma máquina, Afonso provavelmente faria bullying com o irmão. Isso me afastou emocionalmente do personagem e levantou dúvidas sobre as motivações de Eduardo: seria amor genuíno ou uma forma de dependência emocional ou moral?
Outro ponto fraco é a ausência de um início e de um desfecho claros. A narrativa começa no meio dos acontecimentos, sem oferecer contexto ou explicações. Quem já leu Fullmetal Alchemist consegue preencher algumas lacunas com base em seu conhecimento prévio. Mas, para quem não tem essa bagagem, a história pode soar confusa ou até absurda. Faltam informações básicas: qual foi a culpa de Eduardo na situação? Como ocorreu o apocalipse? De onde surgem os mágicos? Nada disso é esclarecido.
Esse tipo de estrutura — fragmentada e focada em apresentar apenas a ideia central — é comum em fanfics e também em projetos experimentais ou demonstrativos. Em alguns casos, pode funcionar como uma proposta artística. No entanto, no contexto de uma publicação comercial por uma editora tradicional, senti falta de um maior cuidado editorial. Um prefácio, uma introdução ou até mesmo uma breve contextualização ajudariam a dar mais consistência ao universo e às motivações dos personagens, evitando que tudo parecesse apenas jogado dentro de uma situação.
Há méritos na proposta emocional e visual de “Eduardo e Afonso”. No entanto, a forte dependência de uma obra conhecida, aliada à ausência de desenvolvimento narrativo mais consistente, torna difícil enxergá-la como uma história completa por si só. Reconheço o esforço criativo e acredito que, com mais cuidado editorial e aprofundamento narrativo, o autor tem potencial para construir algo verdadeiramente original e impactante.
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| AUTOR: Yoshi Itice ILUSTRAÇÕES: Yoshi Itice EDITORA: JBC PUBLICAÇÃO: 2025 PÁGINAS: 64 COMPRE: Amazon |

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