17 de julho de 2025

NÃO PISQUE – INVESTIGAÇÃO CARREGADA DE CRÍTICA SOCIAL

Izzy Jaynes é uma investigadora experiente de Buckeye City que, ainda lidando com traumas de ocorrências pregressas, depara-se com uma carta contendo uma grave ameaça: em breve, o texto alerta, pessoas inocentes serão assassinadas. Buscando desvendar o caso e descobrir quem está por trás disso, ela recorre à detetive e amiga Holly Gibney. Em pouco tempo, no entanto, a ameaça se torna real: uma mulher é morta de forma aleatória num parque de subúrbio, e elas têm de correr para que o assassino não execute outras pessoas.

Enquanto isso, uma controversa defensora dos direitos das mulheres está em turnê pelos Estados Unidos para promover seu trabalho, mas há alguém em seu encalço que não concorda com suas ideias. Quando a perseguição começa a ficar mais perigosa, Holly Gibney é convocada para cuidar de sua segurança, mas o trabalho logo se torna um risco que ela não calculava, e a detetive se vê no centro de uma caçada assustadora.

Ao começar “Não Pisque“, percebi que estava diante de mais um livro em que Stephen King escolhe deixar o terror sobrenatural de lado para explorar um suspense enraizado na realidade, centrado em obsessões humanas, erros judiciais e extremismos ideológicos. Aqui, Holly Gibney retorna como protagonista, mas em um contexto mais sóbrio, investigativo e político. O que King propõe neste romance é menos um jogo de sustos e mais uma construção paciente de tensão, com múltiplas tramas que, aos poucos, convergem.

O enredo principal se divide entre duas linhas narrativas. De um lado, uma série de assassinatos aparentemente aleatórios, cometidos por alguém que se diz em missão de justiça. Do outro, uma ativista feminista, em turnê pelos Estados Unidos, começa a receber ameaças crescentes de um perseguidor perigoso. Holly acaba envolvida nos dois casos, cada um à sua maneira, e o cruzamento dessas histórias é o que sustenta o suspense até o fim.

A figura de Trig, o responsável pelos assassinatos em série, é apresentada logo no início. King opta por revelar o assassino de cara, transformando o livro em um “como” em vez de “quem”. Essa escolha não diminui o interesse; pelo contrário, permite que o leitor observe, em paralelo, os efeitos dos crimes e a lenta tentativa de conexão das pistas pelas personagens principais. Trig é frio, metódico e guiado por uma lógica deturpada de vingança, o que o torna um vilão incômodo, ainda que nem sempre verossímil.

Já o arco da ativista Kate McKay introduz outra camada ao livro. Embora a personagem represente pautas importantes — como os direitos das mulheres e a liberdade de expressão —, sua construção é um tanto desequilibrada. Kate aparece como uma figura forte, mas com pouca profundidade real. O antagonismo que ela provoca, e o perigo que corre, são mais interessantes do que ela própria, o que deixa parte dessa trama aquém do seu potencial.

Holly, por sua vez, continua sendo o centro emocional da narrativa. Ela aparece mais confiante e funcional do que em obras anteriores, o que pode agradar ou frustrar leitores, dependendo da ligação que têm com a personagem. Pessoalmente, senti falta de algumas das suas peculiaridades que a tornavam mais única. Ainda assim, é possível reconhecer sua evolução, agora lidando melhor com o social, com a autoridade e com sua própria intuição investigativa.

Izzy Jaynes, a policial que compartilha a investigação com Holly, também tem destaque. Ela é retratada como competente, mas sua admiração por Holly beira a idealização, o que, em alguns momentos, enfraquece a dinâmica entre as duas. Apesar disso, as interações entre elas funcionam bem, especialmente quando precisam trabalhar em conjunto sob pressão, ainda que por caminhos diferentes.

Um aspecto que merece destaque é o cenário político e social que permeia o livro. King insere comentários sobre extremismo religioso, justiça falha, violência simbólica e até o papel da mídia sensacionalista — representada por um podcaster local. Essas camadas sociais enriquecem a narrativa e mostram que o autor ainda está atento ao mundo atual, mesmo que nem todas as reflexões sejam aprofundadas.

O uso de múltiplas tramas é um recurso frequente em King, e aqui ele o executa com habilidade mista. O leitor acompanha várias linhas narrativas — algumas mais envolventes do que outras — que incluem até eventos aparentemente desconectados, como a turnê de uma cantora veterana e um jogo de caridade entre bombeiros e policiais. No fim, tudo se conecta, mas há momentos em que a sensação é de que algumas tramas foram infladas além do necessário.

O ritmo da obra é irregular. Os primeiros capítulos se arrastam um pouco, com foco na exposição e em diálogos longos que parecem girar em círculos. No entanto, o terço final do livro ganha força e acelera. As revelações chegam de forma satisfatória, e a convergência das tramas principais é bem construída, com algumas boas surpresas. Não é o clímax mais impactante da carreira de King, mas cumpre o papel.

A escrita é, como sempre, fluida e acessível. King tem domínio absoluto do ritmo narrativo e da construção de cenas, especialmente quando se trata de criar tensão com poucos elementos. Ainda assim, há momentos em que o texto parece cansado — repetições de temas, descrições longas demais ou personagens que soam idealizados. Isso não compromete o livro por completo, mas impede que ele se destaque entre os melhores da fase recente do autor.

Embora “Não Pisque” seja protagonizado por uma mulher e explore temas ligados ao feminismo, senti que essa camada poderia ter sido mais desenvolvida. A crítica social existe, mas em muitos momentos parece vir mais da intenção do autor do que das ações das personagens. O livro toca em assuntos sérios, mas sem mergulhar de fato neles. É um retrato de época, mas mais na superfície do que na essência.

No fim, “Não Pisque” é um suspense sólido, com bons momentos, personagens conhecidos e uma estrutura competente. Não é um livro revolucionário, nem o mais inspirado de Stephen King, mas ainda assim entrega uma leitura satisfatória para quem acompanha a trajetória de Holly Gibney ou aprecia as investigações carregadas de crítica social. Funciona melhor como um romance policial moderno do que como uma obra memorável.


AVALIAÇÃO:


AUTOR: Stephen King
TRADUÇÃO: Regiane Winarski
EDITORA: Suma
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 448
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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