13 de julho de 2025

O VERÃO QUE MUDOU MINHA VIDA – SEGURO, PREVISÍVEL E MORALMENTE CONTROLADO

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A Trilogia Verão acompanha os amores, as desilusões e os dilemas da protagonista Belly dos 15 aos 24 anos. Em meio a descobertas e mudanças, ela se apaixona, se envolve em um triângulo amoroso, entra na universidade e descobre que amadurecer também significa tomar decisões difíceis.

A vida de Isabel Conklin é marcada pelas férias de verão. As outras estações do ano são como um intervalo, dias que passam lentamente enquanto ela espera que o sol lhe traga de volta o que mais ama: o mar, descanso, diversão e, principalmente, Conrad e Jeremiah Fisher.

Os garotos da família Fisher sempre estiveram ao lado de Belly em suas aventuras. Conrad é ousado, sombrio e inteligente. Já Jeremiah é confiável, engraçado e espontâneo. Mesmo sendo tão diferentes, os três constroem uma amizade que parece inabalável. Apenas parece…

Tudo muda quando, em uma dessas férias, Conrad demonstra sentir algo por ela. O problema é que Jeremiah faz o mesmo. À medida que os anos passam, Belly sabe que precisará escolher entre os dois e encarar o inevitável: ela vai partir o coração de um deles.

Histórias românticas que se desenvolvem a partir de conflitos que impedem o casal principal de ficar junto até o final são um dos maiores clichês da literatura. Ainda assim, é fácil se deixar envolver pelas páginas, acompanhando os desencontros e os obstáculos que moldam a relação e fazem os personagens crescerem. E tudo fica ainda mais intenso quando há uma terceira pessoa envolvida.

Infelizmente, nessa trilogia, o que falta são razões concretas para Belly e Conrad não ficarem juntos. Simplesmente não há. Eles não ficam, porque a autora assim decide. O mau humor de Conrad ou seu jeito fechado não são justificativas convincentes. O que acontece com a mãe dele ao final do primeiro livro também não serve como desculpa, já que sua personalidade já estava bem definida antes disso — e permanece a mesma nos volumes seguintes. A distância entre os três — Belly, Conrad e Jeremiah — durante boa parte do ano tampouco é um obstáculo real. Eles vivem em um mundo com dezenas de formas de manter contato, mesmo a história do livro se passando nos anos 2000, mas tudo isso é ignorado. Parece que os personagens habitam um universo paralelo, em que só conseguem se comunicar no verão.

Até se poderia argumentar que conversar não é fácil, que eles são imaturos, adolescentes, e que faz parte dessa fase criar dramas sem motivo. Mas isso não se sustenta, porque a falta de diálogo continua mesmo depois, quando já estão na faculdade — e até além, já com mais de 20 anos. E o mais absurdo: no final do terceiro livro, tudo se resolve com uma única conversa, resumida em um parágrafo, que poderia perfeitamente ter acontecido no primeiro volume, talvez até no primeiro capítulo. No fim das contas, fica claro que eles só não ficaram juntos antes porque a autora não quis — não porque havia motivos reais para isso.

A ausência de um motivo real para manter um casal separado é algo bastante comum em romances, especialmente em trilogias. Quando se ama de verdade, dificilmente há espaço para tantas dúvidas. Mas, nesse tipo de narrativa, o amor costuma ser retratado mais como atração ou paixão — emoções intensas, mas que podem ser divididas entre mais de uma pessoa. Não é exatamente amor genuíno. A ideia do amor é moldada para servir à história, e tudo bem — dá para entender a motivação do enredo. Isso ajuda a criar expectativa, ansiedade e curiosidade sobre qual será a escolha final. Não vejo isso como um problema grave a ponto de comprometer a história.

O que me incomoda de verdade é quando algumas decisões na história fogem completamente da realidade, soam forçadas e carregam um subtexto político, religioso ou conservador — muitas vezes com traços preconceituosos e machistas. Fica evidente a intenção de transmitir uma mensagem alinhada com as crenças da autora, quase como se ela esperasse que os leitores as reproduzissem. Isso se torna ainda mais problemático quando essa mensagem vai contra a liberdade de pensamento e de escolha, atingindo justamente grupos que já são marginalizados e sofrem preconceito na sociedade, reforçando um discurso opressor.

Na outra trilogia da autora, “Para Todos os Garotos que Já Amei“, a mensagem conservadora está mais diluída, melhor disfarçada dentro da narrativa — principalmente porque ali existe, de fato, uma trama que move a história. Com o foco voltado para outros temas, esse viés acaba ficando menos evidente. Mas ele está lá. Já nesta trilogia, a trama não se sustenta, especialmente no terceiro livro, que é quase todo preenchido por enrolação e carece de qualquer acontecimento relevante que ao menos disfarce a mensagem conservadora por trás da narrativa.

Não vou me alongar sobre a falta de representatividade entre os personagens, os constantes conflitos forçados entre garotas, a superficialidade na construção dos coadjuvantes ou os acontecimentos que pareceriam mais plausíveis há duas ou três décadas. Vou me ater apenas ao que salta aos olhos — tanto que a própria autora chega a colocar, na voz de Belly, uma pergunta seguida de uma explicação absurda para o ocorrido, já no terceiro volume.

Refiro-me à decisão de manter Belly como uma personagem sem experiência sexual, mesmo já adulta. Enquanto Conrad e Jeremiah são retratados como rapazes que já tiveram relações íntimas, Belly permanece virgem mesmo após os 20 anos. Com isso, a autora acaba reforçando um padrão de liberdade sexual reservado apenas aos homens. Essa assimetria ressoa com o que se conhece como “cultura da virgindade” — um discurso conservador que enxerga a castidade feminina como virtude, enquanto normaliza a experiência sexual dos rapazes.

A virgindade de Belly não é apenas um elemento do seu arco emocional — ela se torna o principal motor de culpa, ansiedade e vergonha, sentimentos frequentemente associados às normas morais impostas ao corpo feminino. Assim, a virgindade adquire um peso quase normativo dentro da história, indo além de uma escolha narrativa para se tornar um símbolo de valor e conduta.

A ausência de qualquer cena ou menção a atitudes transgressoras por parte de Belly — enquanto Conrad e Jeremiah vivem suas experiências “fora de cena” — não parece apenas uma escolha estilística. Esse contraste moral, no conjunto da obra, acaba transmitindo uma mensagem mais forte do que a aparente neutralidade da narrativa “limpa” poderia sugerir.

Em outras palavras, esse padrão narrativo acaba funcionando como um posicionamento conservador implícito sobre a sexualidade feminina. O subtexto — “isso não é aceitável para ela, mas tudo bem para eles” — revela claramente um viés de gênero e moral, reforçando desigualdades disfarçadas de escolhas narrativas.

Seria compreensível se houvesse algum contexto que justificasse a escolha de Belly por não ter relações. Mas isso não acontece. Ou, ao menos, se a narrativa não criasse situações que claramente abrem espaço para que isso ocorra. Mas essas situações existem — em diversos momentos, ao longo dos três livros — e, em todas elas, o sexo é recusado sem qualquer explicação plausível. Simplesmente porque a autora não quer que aconteça. E, ao agir assim, ela esvazia a personagem, retirando dela a complexidade e a autonomia que merecia ter.

A adaptação do Prime Video corrige vários dos problemas presentes nos livros, especialmente no que diz respeito à questão sexual. Belly chega a ter uma relação com Conrad e troca carícias com Jeremiah, sempre dentro do contexto de cada momento, de forma verossímil e natural. A narrativa da série também é mais ágil, menos arrastada, o que ajuda a disfarçar a falta de motivos concretos para o casal continuar separado. Mas, no fim das contas, essas razões continuam ausentes.

Acredito que o sucesso dos livros se deve, em grande parte, à expectativa criada em torno de com quem Belly ficará no final — o mesmo tipo de expectativa presente em qualquer romance que gira em torno de um triângulo amoroso. Mas, para quem já leu dezenas de histórias do gênero, isso não é suficiente. Pelo contrário, revela mais sobre como parte da geração atual permanece presa em uma bolha de narrativas repetitivas e previsíveis.

Não considero essa uma boa trilogia. Há livros semelhantes, muito melhores, publicados há uma ou duas décadas, que hoje parecem esquecidos ou fora do radar dos adolescentes. A superficialidade da obra reflete, em certa medida, a superficialidade que marca parte da geração atual — onde muitas vezes falta motivação, profundidade e interesse por narrativas mais consistentes.

Essa superficialidade fica ainda mais evidente nas últimas páginas do terceiro volume. Depois de três livros acompanhando as dúvidas intermináveis dos três personagens — muitas vezes sem base real —, Belly finalmente se decide. Mas a resolução acontece de forma apressada: em duas páginas tudo se encerra, sem descrição do reencontro, sem diálogos, sem emoção. Um final abrupto, que contrasta com a lentidão e o detalhismo das centenas de páginas anteriores, e que deixa a sensação de um desfecho vazio, apressado e sem sentido diante de tudo que foi construído antes.

Embora A Trilogia do Verão tenha conquistado um público fiel e gerado uma adaptação bem-sucedida, sua base narrativa carece de profundidade e autenticidade. As escolhas da autora revelam uma visão limitada sobre amadurecimento, afetos e sexualidade feminina. É uma leitura que pode funcionar como porta de entrada para o romance jovem, mas que dificilmente resiste a um olhar mais atento ou a comparações com obras mais densas do gênero.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: Jenny Hann
TRADUÇÃO: Mariana Rimoli, Cássia Zanon, Ana Rodrigues
EDITORA: Intrínseca
PUBLICAÇÃO: 2019
PÁGINAS: 240, 240, 256
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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