“A Mulher em Silêncio”, de Freida McFadden, começa com Sylvia no puro suco do fracasso circunstancial. Desempregada, quase sendo despejada, contando moeda e dependendo de uma entrevista para não desmoronar de vez. No dia dessa entrevista, que já é praticamente a última esperança dela, resolve ajudar uma senhora que aparenta estar engasgada em um restaurante. Um gesto normal. Decente. Humano.
Só que a senhora simplesmente surta e acusa Sylvia de tê-la atacado para roubar sua bolsa. Faz escândalo, joga bebida nela, cria uma cena absurda e vai embora.
Aí surge Adam Barnett, o “salvador”. Ele ajuda Sylvia e oferece um emprego: ser acompanhante da esposa dele, Victoria, que caiu da escada e agora vive em uma cadeira de rodas, com dificuldade para falar.
Conveniente demais? Sim.
Mas Sylvia está desesperada. E o desespero faz a gente ignorar muita coisa.
Quando você lê a sinopse, já pensa: “hm… foi o marido que empurrou ela da escada, né?”. E você continua lendo na esperança de que não seja o plot mais batido da história dos thrillers domésticos. Mas é. É exatamente isso.
Primeiro ponto: o título. “A Mulher em Silêncio”. Entretanto, Victoria não está exatamente em silêncio. Ela fala. Não com fluidez perfeita, mas fala. E, às vezes, até mais do que o suspense parecia permitir. Essa oscilação me pareceu muito funcional para a trama, porque, quando convém, ela fala menos; quando convém, consegue se expressar melhor.
A narrativa alterna entre o presente e as páginas do diário de Victoria contando como começou o relacionamento com Adam. E assim… já começa naquela energia “te conheci ontem e você é o amor da minha vida”. Em poucos meses, ela já está morando com ele. Ela, enfermeira cheia de dívidas. Ele, escritor rico, bonito e aparentemente perfeito.
E aí começam os sinais. Ele quase agride um velho porque esbarrou nela e depois diz: “Isso provavelmente não teria acontecido se você não estivesse usando uma saia tão curta.”
A saia batia no joelho.
E ali já está tudo: culpa deslocada, controle disfarçado, ciúme tratado como amor. Depois vem a traição na noite de núpcias. E, mesmo assim, ela fica. Quando ameaça terminar, ele vira um anjo e ela escreve:
É como se o medo de me perder o tivesse transformado em outra pessoa.
E a Victoria? Tonhona apaixonada. Não transformou nada, minha filha. Ele só parou de fingir.
O Adam só tem de qualidade ser rico e bonito, porque, de resto, ele é um falso. Não tem nada demais e passa o tempo inteiro jogando para a Victoria a culpa dos próprios absurdos. Ele mente, ele trai, ele manipula. Na primeira cena dele sendo escroto eu já tive vontade de entrar no livro e socar ele até ele deixar de ser bonito. É clássico. E o livro pode até não aprofundar psicologicamente esse comportamento de homem meia-boca abusivo, mas é tão escancarado que não dá para falar nada além de que ele é ridículo, com personalidade de farinha de trigo.
O cara é escritor. Inclusive, a história mostra que o primeiro livro dele é quase uma confissão de como matou a família. Ele sabe o que faz quando manipula a Victoria e a Sylvia. Sabe o efeito que causa com a falsa educação, com a beleza e, vamos aceitar, com o dinheiro também, né? Capitalismo ajuda. Ele constrói o mundo ao redor dele para escrever com “veracidade”. É óbvio que não é inocente de nada e que deveria ter sido preso bem antes de conhecer a Victoria.
E aí a Sylvia me irrita mais ainda.
Porque não é como se estivesse escondido. Está escrito. Está detalhado. Está praticamente gritando nas páginas do diário. E, mesmo assim, ela pensa: “ah, deve ser exagero”.
MINHA FILHA.
Tem uma frase dela que já mostra o desvio de caráter:
Ele prometeu amá-la na saúde e na doença, e é isso que está fazendo. Me sinto péssima pelo fato de meu pensamento seguinte ser: esse cara nunca mais vai transar na vida.
Nesse ponto, eu parei e pensei que não era só ingenuidade. Porque, enquanto lê o relato de uma mulher que foi traída, isolada, manipulada e possivelmente empurrada de uma escada, ela está sexualizando a situação e começando a desejar o marido da outra.
E isso não é sutil no livro. São várias páginas dela flertando, racionalizando, cedendo, querendo e conseguindo pegar o marido da outra. E eu lendo só pensando: duas tonhonas passando pano para um cara ridículo só porque ele é bonito, rico e sabe fingir que é legal.
Os personagens secundários ajudam a construir essa sensação de que ninguém ali é exatamente inocente.
A cozinheira, que inicialmente parece simpática, é outra que cria fanfic na cabeça para justificar o próprio interesse no Adam. É aquela lógica torta de que, se ela não prestava, então eu não estou fazendo nada errado.
A enfermeira da manhã é talvez a única personagem que passa uma sensação real de caráter. Ela observa. Ela percebe. Ela não entra na dança emocional do Adam.
E tem o Freddy.
Freddy é o ex-namorado que basicamente existe para ser o grande salvador no final, porque Sylvia, mesmo depois de ligar pontos, mesmo depois de perceber o perigo, ainda escolhe acreditar no Adam. Ela cai da escada também. Escolhe não ir ao hospital. Continua tomando decisões questionáveis até o último segundo, quase morre, e é o Freddy, que foi escorraçado até as últimas páginas, quem aparece para salvá-la. Se dependesse dela, teria morrido também.
É aquela vibe filme da Sessão da Tarde: você sabe o que vai acontecer, torce para estar errada, mas, no final, acontece exatamente o que já desconfiava. Existe uma tentativa de falso plot twist que poderia ser muito impactante, mas, para mim, faltou força na execução. Quando você passa o livro inteiro desconfiando de todo mundo, nada realmente explode, ainda mais em uma página e meia.
Agora, sendo justa: é uma leitura rápida. A escrita é simples, direta, quase em ritmo de fanfic mesmo, e isso não é ofensa. Flui fácil. Não é brilhante, não é revolucionário, mas prende e entrega entretenimento.
Tem uma coisa que me pegou: por mais que eu tenha passado o livro inteiro chamando as personagens de tonhonas, ele escancara uma coisa real demais. Mulheres ignoram sinais absurdamente claros de abuso e vão ficando, justificando, passando pano, até ser tarde.
O diário de Victoria funciona quase como um aviso. Como se ela estivesse tentando, de alguma forma, deixar um mapa para quem viesse depois. E Sylvia demora. Demora muito para ligar os pontos. E, mesmo quando liga, ainda hesita.
Relacionamentos abusivos não começam com empurrão de escada. Começam com intensidade. Com exclusividade. Com aquele homem que parece protetor demais. Aquele comentário que parece pequeno. Aquele “foi sua culpa que eu perdi o controle”. Aquele homem perfeito demais. Que se apaixona rápido demais. Que quer estar junto o tempo inteiro. Que começa a decidir por você “para o seu próprio bem”.
E, quando você percebe, já está justificando coisas que jamais aceitaria no começo.
Talvez esse seja o maior mérito do livro: ele entretém enquanto expõe uma dinâmica muito real. É a história mais velha do mundo. E continua acontecendo.
No fim, “A Mulher em Silêncio” não é revolucionário. Não é surpreendente. Não reinventa o thriller doméstico. Mas é envolvente. É rápido. É aquele livro que você termina meio irritada e meio satisfeita. Um passatempo bom que talvez abra o olho de alguém que está relativizando macho abusivo. Talvez.
Eu gostei? Gostei. Passei raiva? Muita. Quis entrar na história e gritar “acorda, minha filha” umas vinte vezes? Com certeza. E o fato de dar tanta raiva é justamente porque é reconhecível demais.
E isso assusta mais do que qualquer plot twist.

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