19 de fevereiro de 2026

O VOO DA GUARÁ VERMELHA — UM LIVRO SOBRE PALAVRAS

Avaliação

ENREDO
10/10
PERSONAGENS
10/10
ESCRITA
10/10
RITMO
10/10
ORIGINALIDADE
10/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
9/10
Geral
9.8/10
AUTORA: Maria Valeria Rezende • EDITORA: Alfaguara • 2025 • PÁGINAS: 160

O voo da guará vermelha”, de Maria Valéria Rezende, me deixou com palavras demais. Tantas que, quase um dia depois de fechar o livro, eu ainda não tinha conseguido organizar o coração nem acalmar a cabeça. E não é força de expressão. É literal.

Eu não sabia exatamente como estava me sentindo e, pior, não sabia que adjetivos poderiam dar conta do que o livro me provocou. Não que eles precisassem ser justos, potentes ou definitivos. Eu só queria que fossem sensíveis. Spoiler: não sei se consegui.

Eu não queria começar esta resenha quebrando meu próprio fluxo com sinopse ou com o posfácio magistral da Luciany Aparecida. Mas, ao mesmo tempo, percebi que, do jeito que eu estava pensando o texto, não seria honesto falar apenas do que o livro fez comigo sem apresentar minimamente a história como ela é. Então vai ser assim. Posso mudar de ideia no meio do caminho, posso me tornar outra pessoa durante a escrita, posso refazer minha própria reflexão enquanto escrevo. Isso acontece com alguma frequência. Quem me conhece sabe. Quem não conhece vai perceber agora. 

Por ora, o combinado é simples: eu termino de escrever e você, leitora ou leitor, chega até o fim. Depois a gente vê.

Por algum motivo muito específico (que talvez tenha tudo a ver com o livro) senti uma vontade avassaladora de escrever à mão. Não no computador. Com caneta, papel, erro, risco, letra feia. Tanta vontade que agora tenho um caderno dedicado exclusivamente ao ofício da escrita manual. E isso não é um detalhe aleatório. Penso que esse impulso diz muito sobre o que encontrei neste livro. Uma potência imagética, poética, mundana e profundamente cotidiana. A escrita da Maria Valéria Rezende pede tempo, pede corpo, pede escuta.

Publicado originalmente em 2005, O voo da guará vermelha apresenta dois personagens à margem. Rosálio, um pedreiro analfabeto, e Irene, uma prostituta que enfrenta a diminuição dos clientes e o aumento das dificuldades para se sustentar. E aqui eu preciso abrir um parêntese (prometo não militar demais).

Eu não acho essa descrição justa com o Rosálio. Não que uma sinopse precise dar conta da complexidade de um personagem, quem quiser saber mais que leia o livro, inclusive recomendo fortemente. Mas, sendo esta uma resenha, eu me dou esse direito.

Rosálio não pode, não deve e nunca será resumido à profissão de pedreiro. E não, isso não é demérito da profissão, antes que pareça. É justamente o contrário. O Rosálio é um homem de muitos talentos e muitas vidas. O analfabetismo é uma dor real para ele, algo que o atravessa e o limita socialmente, mas jamais o empobrece como sujeito. Seus talentos intelectuais, físicos e sociais são ilimitados. Ele é tão carismático que chega a doer não tê-lo por mais páginas. Rosálio é pedreiro, já foi garimpeiro, ator, encantador de passarinhos e, acima de tudo, contador de histórias. E isso é fundamental.

Desde o início, fica claro que Rosálio é alguém que tem palavras. Mesmo quando está cansado, com fome, precisando acordar cedo para trabalhar, ele não consegue negar aquilo que tem para oferecer. Como ele próprio diz: 

Rosálio já sente sono, sente fome, está cansado, amanhã de madrugada terá de se levantar disposto para o trabalho, mas como negar palavras que ele tem e que ela pede? — (p. 46).

E é exatamente aí que o livro começa a me pegar pela mão.

Irene e Rosálio se encontram em uma situação absolutamente “plausível”. Nada ali soa forçado. Ela precisa de dinheiro. Ele aparece como um SER de possibilidade. Irene “ataca”, no sentido prático da sobrevivência, achando que aquele homem teria algo material (dinheiro) para oferecer. Só que não é isso que acontece. O que Rosálio oferece são palavras. Histórias. Presença. E, olha, palavra não enche barriga. Mas, nesse livro, enche sim. Enche de afeto, de reflexão, de desejo de continuar vivendo. 

Como percebe Irene, lembrar, contar, narrar:

Por palavras ditas com a boca ou com as mãos, cortara pela raiz a planta de desespero que havia crescido nela e em seu lugar semeara satisfação e desejo de ainda viver de amor, por pouco tempo que fosse, pouca vida que tivesse, antes tarde do que nunca — (p. 63).

Minha primeira anotação no livro, lá na página 11, foi simples e certeira: é o tipo de livro que diz muito em poucas palavras. E isso se mantém até o fim. Cada capítulo leva o nome de uma cor. No começo, achei curioso. Depois, achei genial. Durante a leitura, tive a sensação de que as cores funcionam como estados emocionais. O capítulo verde e ocre, por exemplo, tinha cheiro, textura, sensação de verde e ocre. Não sei explicar melhor. Só sei que fez sentido enquanto eu lia.

O livro é simples e profundo ao mesmo tempo, o que é uma combinação perigosíssima. As frases parecem ingênuas, mas carregam subcamadas densas. Nada ali é só o que parece. 

Um corpo de homem aguenta mais do que a gente imagina, por vontade de viver, mas a alma é outra coisa, vai morrendo mais depressa quando perde a esperança. — (p. 84). 

É esse tipo de frase que te faz fechar o livro por dois segundos e encarar a parede. E aí tem uma coisa que preciso confessar. Eu sempre digo que não gosto de livros sem travessão. Sempre. Sou militante dessa causa. Pois bem. Este livro não tem travessão e eu amei. Sou hipócrita, sim. Mudo de opinião com frequência. Aprendi a conviver bem com isso. O recurso da mudança de fonte para marcar a narrativa do Rosálio funciona lindamente. Você vira ouvinte. Você senta para escutar.

Enquanto Rosálio conta sua vida, você acompanha o passado dele e o presente com Irene ao mesmo tempo. As histórias se cruzam, se iluminam, se explicam. E, no meio disso tudo, Maria Valéria Rezende fala de racismo, garimpo, política, reforma agrária, proteção indígena. Nada é panfletário. Tudo está ali porque faz parte da vida daqueles personagens. Como na vida real. E se você tiver o mínimo de atenção, vai perceber o quanto disso tudo é Brasil.

Rosálio entende o mundo com uma lucidez desarmante.

Porque conversa de bicho só tem graça, nunca ofende, como conversa de gente, que pode insultar, mentir, engambelar e ferir no fundo do coração. — (p. 42).

Ele sabe das coisas. E sabe contar. Em certo ponto, confesso, eu já não queria mais saber do presente. Eu queria ouvir o passado. Queria que ele continuasse falando. Talvez por isso, depois de certa altura, senti que a narrativa entra num ritmo mais confortável, mais insinuado, mais subliminar. E isso não é crítica. 

No fim, eu genuinamente gostei do livro. De verdade. A única coisa que não me agradou foi o final. Achei abrupto. Não era o que eu queria. Mas o livro não me deve nada. Eu queria Irene e Rosálio felizes. Eu me apeguei. Eu estava emocionalmente investida neles. E daí que a vida real não funciona assim? Eu não estava preparada. Não queria. E tudo bem. Sofri de um jeito silencioso, uma perfuração meio amarga que ficou ecoando no dia seguinte inteiro.

Talvez por isso eu tenha demorado tanto para terminar esta resenha. Talvez por isso eu tenha procrastinado, feito qualquer coisa menos escrever, mesmo depois de dizer que o livro me deu vontade de escrever. Contradições fazem parte. No fim, O voo da guará vermelha é um livro sobre palavras. Sobre como elas podem criar mundos maiores do que o nosso. 

Capaz de fazer com a fala um mundo maior que o meu, um mundo cheio de histórias de sorrir e de chorar, que me tirasse das sombras do medo de me acabar sem mesmo ter começado a viver vida que preste. — (p. 79).

Não falar sobre Irene foi uma escolha proposital. Ainda estou sofrendo.

É isso. Agora sim, terminei.

Francielly Oliveira

Sou Francielly Oliveira, jornalista, mestre em Comunicação e Sociedade (UFT). Amo narrativas (de todos os formatos) e histórias aleatórias: da romantasia às distopias, das HQs aos clássicos.

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