27 de outubro de 2025

A PRISÃO NO CÉU – RECONSTRUIR A SI MESMA

O mangá, “A prisão no céu”, adaptado do romance de Mina Sakurai e desenhado com delicadeza por Marco Kohinata, é uma daquelas leituras que ficam com a gente depois que a última página se fecha. A história se passa dentro de um lugar improvável para acolher beleza: uma penitenciária feminina. É lá que funciona um salão de beleza cujas paredes são pintadas de azul — um azul que imita o céu, como se tentasse oferecer um pouco de liberdade dentro dos muros altos.

Ashihara Shiho, uma repórter, vai até a prisão para fazer uma matéria sobre esse salão. Lá, ela é atendida por Haru Komatsubara, uma das detentas. Haru cumpre uma longa pena por um crime sério, mas conquistou o direito de trabalhar como cabeleireira ali dentro. A cada cliente que passa pela sua cadeira — sejam outras presas, funcionárias do presídio ou visitantes do mundo de fora — novas camadas de dor, arrependimento, afeto e reconstrução são reveladas. A trama é episódica, como recortes de vidas que se tocam por alguns minutos.

Apesar do cenário carcerário, “A prisão no céu” não é um drama de denúncia nem um retrato cru do sistema prisional. Pelo contrário: ele escolhe a delicadeza. É uma obra sobre mulheres — presas ou não — tentando respirar, mesmo com o peso do passado nos ombros. A prisão não é o centro da narrativa, mas o pano de fundo para histórias mais íntimas, contadas com uma leveza que emociona sem precisar forçar nada.

A arte de Marco Kohinata acompanha esse tom. Os traços são suaves, os olhares carregam muito sem precisar de palavras. A diagramação dá tempo para respirar, e o ritmo da leitura convida à contemplação. Nada é acelerado. Nada é óbvio. Muitas vezes, o que importa está no não dito — no jeito como Haru segura a tesoura, no silêncio entre duas frases, no céu pintado que nunca muda.

Como leitura, é rápido — são apenas cinco capítulos — mas deixa uma impressão profunda. Cada história que passa pelo salão deixa um fio de humanidade. Não há exageros, grandes reviravoltas nem dramas escancarados. Tudo é contido, quase minimalista. E é exatamente aí que reside sua força.

O primeiro capítulo gira em torno de Ashihara, uma jovem repórter que tenta conquistar seu espaço em uma redação onde é tratada com desdém. Em busca de uma chance para provar seu valor, ela enfrenta o machismo cotidiano do ambiente de trabalho. Durante a visita ao salão de beleza dentro da penitenciária e após algumas conversas breves com Haru, Ashihara decide mudar radicalmente o visual. Mas o corte de cabelo vai além da estética: representa uma virada de postura, um novo olhar sobre si mesma e o impulso que faltava para enfrentar aqueles que a subestimam.

O segundo capítulo acompanha a agente penitenciária responsável por supervisionar Haru durante seu trabalho no salão de beleza. No início, ela encara a tarefa com rigidez, mas pouco a pouco passa a enxergar em Haru uma sensibilidade inesperada — e começa a compreender melhor os caminhos que a levaram à prisão. Paralelamente, as duas atendem uma jovem cliente com cabelos longos, que se prepara para iniciar um tratamento contra o câncer. Ela decide cortar tudo antes que os fios comecem a cair. A conversa entre elas e as escolhas feitas naquele momento carregam uma carga emocional profunda, tratadas com delicadeza e respeito. É uma cena de muita humanidade, onde o gesto de cortar cabelo se torna um ato de coragem, empatia e solidariedade.

O terceiro capítulo acompanha o cotidiano de uma senhora idosa que, aos poucos, parece ter perdido o sentido de sair de casa. A rotina se arrasta, e o tempo, para ela, já não oferece muitas promessas. Tudo muda quando ela descobre o salão de beleza dentro da penitenciária e se depara com a escuta atenta e a delicadeza de Haru. A partir desse encontro, a idosa começa a perceber que a vida não precisa ser contada em anos, mas em pequenos momentos de alegria — e que essas alegrias, muitas vezes, nascem de gestos simples. Ao cortar o cabelo, ela não apenas transforma sua aparência: reencontra uma versão de si mesma que não está limitada pela idade, pelas dores ou pelo tédio. Enxerga no espelho uma mulher que ainda pode mudar, escolher, viver.

O penúltimo capítulo se volta para a irmã de Haru e para o vínculo delicado que existia entre as duas antes da prisão. A narrativa, com sensibilidade, revela os conflitos do passado, os silêncios acumulados e, finalmente, o que levou Haru a ser presa. A relação entre elas era marcada por atritos e incompreensões, mas também por uma dor profunda que as afastou — uma tragédia que mudou tudo. Mesmo assim, o capítulo mostra que, mesmo após tanta ruptura, a reconexão ainda é possível.

Quando a irmã visita o salão, o reencontro acontece de forma contida, quase silenciosa, mas carregada de significado. Não há explosões emocionais nem grandes declarações: tudo se dá dentro da contenção típica dos costumes japoneses, onde respeito e afeto se expressam nos gestos mínimos. É justamente essa discrição que torna o momento tão comovente — duas mulheres marcadas pelo tempo, pela dor e pelo amadurecimento, tentando, com delicadeza, aparar as pontas soltas do passado.

O último capítulo mostra Haru já em liberdade, deixando para trás os muros da penitenciária e caminhando em direção a uma nova fase de sua vida. É o mais breve dos cinco capítulos, mas não menos tocante. Sem pressa, acompanhamos seus primeiros passos fora do cárcere — o reencontro com a irmã, o retorno à casa, o resgate do cotidiano que agora carrega outro peso, outra intenção.

Mais do que a simples felicidade de estar livre, há em Haru uma serenidade construída ao longo de sua jornada. O silêncio que antes parecia punição agora se transforma em espaço para recomeçar. É um desfecho suave, coerente com tudo o que a obra propõe: não há grandes discursos nem promessas, apenas a presença de alguém que, com cuidado, reconstruiu a si mesma. E que agora, finalmente, pode caminhar com leveza para sua segunda vida.

A prisão no céu” talvez não seja um mangá para quem busca ação, tensão ou um olhar mais duro sobre o sistema prisional. O mangá escolhe olhar para dentro — das personagens e do leitor. Fala sobre recomeços possíveis, mesmo quando o mundo diz o contrário. E faz isso com uma ternura que raramente se vê.

No fim, não é sobre cortar cabelo. É sobre reconstruir a si mesma, fio por fio.


AVALIAÇÃO:


AUTORES: Marco Kohinata e Mina Sakurai
ARTE: Marco Kohinata
TRADUÇÃO: Cristhielle Ogura
EDITORA: JBC
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 176
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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